                    Sumrio
Capa

Sumrio

Folha de Rosto

Folha de Crditos

Dedicatria

Prlogo

Captulo 1

Captulo 2

Captulo 3

Captulo 4

Captulo 5

Captulo 6

Captulo 7

Captulo 8

Captulo 9

Captulo 10

Captulo 11

Captulo 12
Captulo 13

Captulo 14

Captulo 15

Captulo 16

Captulo 17

Captulo 18

Captulo 19

Agradecimentos

Saga Beijada por um Anjo
Eternamente
 Romance da saga
Beijada por um anjo




Elizabeth Chandler
        Traduo
     Shirley Gomes
                   Publicado sob acordo com Rights People, Londres
         Copy right  2011 by Alloy Entertainment and Mary Claire Helldorfer
                        Copy right  2013 Editora Novo Conceito
                              Todos os direitos reservados.
 Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos
    so produto da imaginao do autor. Qualquer semelhana com nomes, datas
                    e acontecimentos reais  mera coincidncia.
                                 Verso Digital -- 2013
                                  Produo Editorial:
                                 Equipe Novo Conceito
          Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Lngua Portuguesa.
              Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
                      (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Chandler, Elizabeth
Eternamente / Elizabeth Chandler ; traduo Shirley Gomes. -- 1. ed. -- Ribeiro Preto,
SP : Novo Conceito Editora, 2013.
Ttulo original: Everafter.
ISBN 978-85-8163-256-8
1. Romance norte-americano I. Ttulo.
13-04374 | CDD-813
                             ndices para catlogo sistemtico:
                        1. Fico : Literatura norte-americana 813




               Rua Dr. Hugo Fortes, 1.885 -- Parque Industrial Lagoinha
                         14095-260 -- Ribeiro Preto -- SP
                         www.editoranovoconceito.com.br
Para meu marido, Bob,
 agora e para sempre.
                                Prlogo
  At Gregory ficou impressionado diante de sua prpria exploso de dio
mortal. Se ao menos tivesse atingido Ivy -- esse foi o primeiro pensamento que
passou por sua cabea.
   Emergindo de uma escurido extenuante, ele relembrou a cena na praia com
prazer: um salva-vidas arrogante vasculhando o mar em busca de algum para
salvar, sendo subitamente atingido por um raio -- o seu raio. Repentinamente
forado a abandonar Beth, Gregory fervilhava de dio, e essa fria demonaca
tinha sido gloriosa, um espetculo eltrico de potncia mortal.
  Ainda assim, esse raio tinha durado muito pouco.
   Flutuando sobre o salva-vidas, olhando o desenho de uma corrente e de uma
cruz de metal marcadas a fogo no peito de sua vtima, Gregory se deu conta de
que a morte em si era um tanto sem graa. Morrer era a parte interessante. O
cheiro de medo da vtima e o horror no olhar daqueles que a assistiam, esse tipo
de coisa  que poderia aliviar a sua dor infernal.
  Apesar de seus poderes, Gregory sentia falta de suas habilidades humanas.
Precisava de um servial confivel, algum cuja mente no contestaria a sua,
como Beth tinha feito. Felizmente, Ivy se misturava com todo tipo de gente, at
com quem estivesse sendo procurado pela polcia por assassinato.
   Um pensamento perturbador tomou conta do esprito de Gregory: e se,
usando o novo amigo de Ivy, ele a enganasse, a levasse ao desespero e a
arrastasse para o inferno?
  Agora. Sempre. Nossos. As vozes falavam com ele de novo.
  E se ele pudesse acabar com as esperanas dela de se juntar a Tristan no cu?
  O poder est com voc.
   As vozes eram sbias, pensou Gregory. Elas o conheciam melhor do que ele a
si mesmo.
  A vingana  minha!
                                                  Captulo 1




E
      le ainda estava vivo? Ivy pensava, olhando os buqus de flores murchas
      do funeral. Se Tristan tivesse morrido, o corao dela sentiria?

  -- Ivy, voc est bem? -- Dhanya a chamou, depois abriu o porto que fica
entre a antiga igreja de Hardwich e o cemitrio.
   Mais cedo, tinham ido ao funeral de Michael Steadman e ajudado na recepo
que se seguiu ao enterro. Tinha sido difcil para Ivy ver o rosto dos familiares e
amigos do salva-vidas, a maioria ainda em estado de choque. O sermo do
pastor baseou-se em uma citao bblica sobre enxergar atravs da obscuridade,
incentivando os que ouviam a confiar na inescrutvel vontade divina. Mas Ivy
receava que o raio mortal fosse um ato de Gregory, no de Deus.
   Seis semanas atrs, no muito depois de Ivy, Dhanya, Beth e Kelsey, a prima
de Beth, terem chegado ao Seabright Inn, elas organizaram uma sesso esprita.
Estavam apenas se divertindo, mas, pensando nisso agora, Ivy entendeu que foi
ento que o esprito de Gregory voltou a entrar no mundo. Beth, sensitiva e a
pessoa mais gentil e aberta que Ivy conhecera, foi a mais vulnervel. Gregory a
tinha possudo, forando-a a atacar Ivy. Foi necessrio unir as foras de Ivy,
Beth e Will para expulsar Gregory.
   Beth voltou  sua casa em Connecticut para se recuperar. Nos ltimos quatro
dias, Will e Ivy no tinham visto nenhum sinal de Gregory em Cape, mas o
demnio sabia como se esconder. O maior medo de Ivy ao procurar Tristan era
no s revelar a Gregory que Tristan tinha retornado, mas conduzir a polcia --
e, pior, o traioeiro Bryan -- at " Luke McKenna", o corpo que Tristan agora
ocupava.
   No dia anterior, a polcia de Cape Cod havia entrado em contato com Ivy, no
rastro do suspeito de assassinato. Diante disso, ela teve esperana de que Tristan
ainda estivesse vivo. As autoridades no encontraram o corpo que ele ocupava: o
corpo de Luke.
  Dhanya juntou-se a Ivy diante da sepultura da ltima vtima de Gregory.
  -- A tia Cindy disse que os Steadman vo sair de Cape. -- A proprietria do
Seabright, tia de Beth e Kelsey, era muito amiga da sra. Steadman. -- Como
vo conseguir ir  praia de novo? -- Dhanya comentou com tristeza na voz. --
Como vo conseguir aproveitar um vero outra vez?
   Ela e Ivy comearam a andar. O sol de meados de julho aquecia o silencioso
cemitrio, lanando reflexos sobre os tmulos mais novos e brilhantes. Aqui e
ali, uma rvore alta deixava que recortes de luz pintassem os tmulos mais
antigos, com pedras salpicadas de musgo inclinadas em ngulos estranhos. Ivy
correu os dedos por uma delas, admirada que coisas to tenras e de crescimento
lento como as razes das rvores pudessem ter fora para derrubar o granito.
   -- O cemitrio  um lugar adorvel -- afirmou Dhanya, vendo duas
borboletas sobre flores roxas -- desde que a gente no conhea ningum que
esteja enterrado.
  A observao fez Ivy rir alto.
  -- Dhanya! Ivy! Venham aqui -- Kelsey chamou.
  Viraram-se, surpresas. A colega delas, que deveria estar trabalhando na
pousada com Will, estava estendida em um ponto ensolarado no meio do
cemitrio.
  -- Vocs no vo acreditar no que tenho para contar!
   -- Difcil de acreditar  que voc esteja tomando sol em cima da sepultura de
algum -- Dhanya retrucou.
  Kelsey riu e descansou as costas na pedra, alongando as pernas atlticas, que
brilhavam por causa do bronzeador. Passou os dedos pelos cabelos ondulados e
avermelhados, depois apontou para as placas de cada lado.
  -- Sentem-se. Descansem em paz. Vocs merecem.
  Mas Dhanya preferiu um banco de pedra, sentando-se graciosa. Tinha corpo
de danarina e o cabelo preto e longo. Se tivesse apoiado o queixo nas mos,
pensou Ivy, lembraria a imagem clssica da tristeza.
   Ivy se sentou num meio-fio de mrmore que delimitava o tmulo de uma
famlia.
  -- Voc tem notcia de Bryan? -- Ivy perguntou.
  -- Ele apareceu antes de seguir para o rinque de patinao.
  Dhanya fez cara de desagrado.
   -- Kelsey, voc tinha jurado que no ia nem olhar para Bryan depois de ele
ter dado o cano em voc e ignorado as suas mensagens no final de semana.
  -- S que ele tinha um bom motivo -- Kelsey respondeu, num tom
animado. -- Sbado  noite, ele saltou da ponte da ferrovia, aquela do Canal de
Cape Cod.
   -- Como assim?! -- Ivy exclamou, parecendo chocada, embora tivesse
testemunhado o incidente.
  --  essa a desculpa dele? -- disse Dhanya, sem se impressionar.
  -- Dhanya, a ponte estava subindo -- Kelsey explicou. -- Ele saltou 15
metros canal abaixo. Pense nisso. Poderia ter quebrado a coluna e se afogado se
no casse direito na gua.
  Era esse o medo de Ivy em relao a Tristan. Na margem do canal, ela o tinha
perdido de vista.
  -- Vocs nunca vo adivinhar por que Bryan estava l -- Kelsey continuou.
-- Ele estava atrs de Luke.
   -- Luke! -- Dhanya se juntou a Ivy no meio-fio. -- Voc sabia que ele ainda
estava em Cape?
  -- No o vejo nem tenho notcia dele desde junho -- mentiu Ivy.
  -- Ento, Luke est preso? -- Dhanya perguntou a Kelsey.
  -- No. Bryan o perdeu de vista. Tem procurado por ele.
  E se o encontrar, vai mat-lo, pensou Ivy. Que tipo de histria Bryan teria
inventado para a polcia e para Kelsey?
  -- Por que Bryan est atrs de Luke? -- Ivy perguntou em voz alta. --
Pensei que fossem amigos.
  -- No so mais -- respondeu Kelsey. -- Bryan acha que Luke matou aquela
moa, aquela que a polcia disse que pulou da ponte na semana passada. Alice
no sei o qu.
  Alicia Crowley, pensou Ivy. Bryan j tinha incriminado Luke pela morte de
Corinne. Agora estava acrescentando Alicia  lista.
  -- Ela era ntima de Luke -- Kelsey completou. -- Luke gosta mesmo de
matar suas namoradas.
  Dhanya arrepiou-se.
  -- Poderia ter sido voc, Ivy.
  Ivy simplesmente balanou a cabea. As suas amigas estavam condenando e
temendo a pessoa errada. Mas Bryan j tinha demonstrado o desejo de matar
quem viesse a saber de sua sombria verdade. Avisar Kelsey e Dhanya -- e
tambm Beth e Will -- s os colocaria em perigo maior.
   O jeito de proteger todo mundo era encontrar a prova que colocaria Bryan
atrs das grades, a prova que limparia o nome de Luke. Ento, ela e Tristan
poderiam ficar juntos, e Tristan poderia se redimir. Se ainda estivesse vivo.
  Tristan, onde est voc? Ivy clamou em silncio, embora soubesse que o seu
anjo, estivesse vivo ou no, no mais ouviria o chamado do seu corao.

   Tristan acordou na escurido. No sabia onde estava. Sentiu as roupas
molhadas, a lona onde estava deitado, mida e arenosa. O lugar tinha um cheiro
ruim.
  Sem conseguir enxergar nada, sentou-se e esticou os braos.  direita e 
esquerda, os seus dedos rasparam em alguma coisa mida e dura, alguma
superfcie parecida com plstico duro, paredes que se inclinavam. Percebeu ento
que balanava ligeiramente e ouviu um leve lepe-lepe. Estava no fundo do casco
de um barco, ancorado em guas calmas. De repente, lembrou-se do antigo barco
de lagostas em cuja direo nadara, reconhecendo pelo menos trs ingredientes
do mau cheiro: peixe podre, graxa e mofo.
    Tinha caminhado mais de 65 quilmetros nas ltimas duas noites,
esforando-se para sair do Canal de Cape Cod e chegar em Nauset Harbor, perto
de onde Ivy estava. No havia ancoradouros particulares, nem marinas; os barcos
ficavam atracados em uma baa protegida da fria do Atlntico por uma longa
fileira de dunas e pequenas ilhas na ponta norte da Nauset Beach.
   Antes do amanhecer, na tera-feira, Tristan havia notado o barco avariado
entre as embarcaes de pesca e de lazer ali ancoradas. Escondido atrs das
rvores, ficou de olho nele o dia inteiro; enquanto os outros barcos zarpavam e
voltavam pela enseada de Nauset, ningum o utilizava.
  Ao cair da noite, vencido pela necessidade de dormir sem ser perturbado,
nadou at o barco. Foi fcil entrar pelas suas laterais curvas e baixas. As
armadilhas de lagosta empilhadas na popa tinham anis de plstico com datas de
validade que indicavam o ltimo ms de dezembro. Verificando a embarcao da
proa  popa, Tristan concluiu que era mais provvel o barco afundar do que o
dono dele aparecer.
  Ele se afastara at a casa do leme, um abrigo triangular com amplas janelas
quadradas. Quando comeou uma festa num barco ancorado a alguns metros
dali, ele desceu at o aconchegante, mas fedido alojamento do barco. Parece que
dormiu durante horas e ficou contente em vir  tona no ar fresco do convs.
   Olhando para o sul, mal distinguia a terra escura que se elevava contra o cu
estrelado, as ribanceiras sobre as quais Seabright se debruava. Queria muito
estar com Ivy, mas no poderia arriscar por enquanto. Fazia trs semanas desde
que o seu retrato tinha aparecido na primeira pgina do jornal Cape Cod Times,
mas o olhar de um segurana do Walmart tinha sido suficiente para impedi-lo de
comprar um novo celular. O antigo celular e o relgio que Ivy lhe dera haviam
ficado no fundo do canal. Tudo o que tinha nos bolsos agora era um rolo de
notas bancrias -- de Bryan, quando fingia ser amigo de Luke -- e uma moeda
de ouro, presente de Philip, com um anjo estampado de cada lado.
  -- Pegou alguma coisa?
   Tristan virou-se, surpreendido. Lacey estava sentada num balde virado com o
fundo para cima, completamente materializada.
  -- Uma lagosta? Um assassino? -- ela perguntou.
   -- Um anjo -- ele respondeu, embora a sua angelical luz arroxeada s
aparecesse na tintura do seu longo cabelo escuro. Vestida com uma blusinha e
uma legging rasgada, ela no se parecia com uma nativa, mas pelo menos no
estava usando uma das suas roupas teatrais. Fosse como anjo ou como estrela
adolescente de um filme B, Lacey sempre gostava de chamar a ateno da
plateia.
   -- Voc no estava pescando para mim -- ela disse. -- No ouvi uma nica
slaba vinda de voc, e voc sabe que no consigo localizar as pessoas a menos
que me chamem.
  -- Mas acabou me achando -- ele salientou.
  -- Reduzi a localizao a dois lugares: inferno ou aqui. Voc pousou aqui,
voando como uma mariposa at o brilho de Ivy.
   -- Voc a viu? -- ele perguntou depressa, na esperana de que Lacey tivesse
grudado em Ivy, apesar do desprezo que costumava demonstrar pelo
relacionamento deles. -- Como ela est?
  -- Como sempre, perigosa para voc.
  -- No -- Tristan disse com firmeza. Foi por isso que no tinha chamado
Lacey.
   -- Tristan, eu estava l na ponte com voc e Bryan. Ouvi as vozes. Eram to
altas quanto as da noite em que Gregory caiu morto. O tempo est passando.
Voc precisa se redimir.
  Tristan olhou para as estrelas, como se pudesse ler o tempo na face brilhante
do relgio do cu.
  -- Voc conseguiu saber o que as vozes estavam dizendo? -- ele perguntou.
Para ele, elas sempre comeavam da mesma maneira, num murmrio baixo,
prolongando-se em ondas de vozes ameaadoras, de emoes mais definidas do
que as palavras.
  -- As palavras delas foram dirigidas a voc.
  -- Isso significa que no conseguiu decifr-las? -- ele sups.
  -- E voc consegue?
   Ele confirmou com a cabea. As palavras tornavam-se progressivamente mais
ntidas para ele.
  -- No  um bom sinal! Primeiro voc  despojado de seus poderes
angelicais, agora est ouvindo palavras de demnios! -- Mas a curiosidade de
Lacey a venceu: -- O que elas diziam?
  -- Agora. Sempre. Nossos. E quando eu estava l na ponte: Que caminho?
Elas ficavam me perguntando: Que caminho?
  -- O caminho delas -- disse Lacey. -- O caminho de Gregory.
  -- Tenho que impedi-lo. Ele vai matar Ivy.
  Lacey segurou Tristan pelos ombros. Por mais firme que ela parecesse e se
sentisse, faltava fora em seu aperto, e ele se afastou com facilidade.
   -- Escute, Tristan,  voc quem precisa de proteo. Procure a polcia.
Entregue-se, como Luke. Deixe que o prendam e voc fica em segurana. Se
Bryan matar voc antes que tenha se redimido, voc vai ser execrado. Ir para o
inferno, para sempre.
  -- A maneira de me redimir  expulsando Gregory deste mundo. Na priso,
no poderei fazer nada.
  -- Como vai se livrar de um demnio? Pedindo a ele gentilmente que v
embora? -- ela replicou com sarcasmo.
  -- Se Gregory possuir a mente de algum e essa pessoa morrer, ele ser
banido para sempre. Voc mesma me disse isso.
   -- Ento, vai matar algum? -- Ela se aproximou dele. -- Tristan, voc no
pode matar! No pode tirar nem restituir a vida, foi assim que se meteu nessa
confuso. As chegadas e as partidas da vida esto definidas pelo roteiro do
Diretor Nmero Um. Ele no ficaria feliz se ns, seus atores secundrios,
interferssemos nesse roteiro.
  -- Existe um jeito de mandar Gregory de volta ao inferno e garantir a
segurana de Ivy. Deve haver.  assim que vou me redimir.
  -- No.  assim que voc quer se redimir.
  -- Preciso que voc leve um recado a Ivy -- ele disse.
  -- No vou levar.
  Tristan continuou.
  -- Avise-a sobre Bryan. Ele se gabou de ter matado Alicia e Corinne, alm
de ter deixado aquela mulher agonizando no acidente.
  Lacey cruzou os braos.
  -- A garota no  idiota. Tenho certeza de que ela j deduziu isso.
  -- Est bem. Ento s diga a ela onde eu estou.
  -- No! O seu amor por ela  uma tentao grande demais. J provou que no
d conta. Se vou ajudar voc...
  -- Lacey, no preciso nem quero que voc me salve.
  O anjo se virou.
  Tristan suspirou e pegou-a pelo brao.
  -- Desculpe,  que...
  -- Eu avisei -- ela disse, sumindo numa bruma arroxeada, mesclando-se 
nvoa do mar, desaparecendo.
   Tristan estava sozinho. Precisava saber como chegar at Ivy. Mais difcil
ainda: precisava destruir Gregory. Era a nica maneira de garantir a segurana
dela.
  Passou os olhos pela costa. Em uma hora, ela seria banhada pela luz da
manh.
  -- Que caminho, que caminho? -- murmurou para si mesmo.
                                                   Captulo 2




Q
       uarta-feira  tardinha, Ivy rezava em seu carro no estacionamento da
       pousada.

  -- Lacey -- ela chamou baixinho --, onde voc est? Por que no atendeu o
meu chamado?
  Um baque do lado do passageiro de seu carro fez com que ela se voltasse
esperanosa.
  -- Coitado do seu carro -- disse Bryan.
  Ivy saiu do carro devagar e decidida, determinada a no demonstrar medo.
  Ele deu a volta at o lado do motorista.
  -- Ele tem uns amassados na lateral e atrs.
    Ignorando-o, ela deslocou o assento para a frente, tentando tirar a sua pasta de
msica da parte de trs. Ele a bloqueou, usando o fsico potente para intimid-
la.
  -- Com licena -- disse ela com firmeza.
   Recostando-se preguiosamente no carro, Bryan correu os dedos por um dos
arranhes que tinha feito na pintura ao perseguir Ivy e Tristan na ponte da
ferrovia.
  -- A locadora de carros no vai gostar disso.
  -- Vou consertar antes que vejam.
  Ele sorriu.
  -- A, garota! Voc  como eu.
  -- Nem sempre -- Ivy retrucou, dependurando a bolsa no ombro e seguindo
para o caminho que levava  pousada e ao chal.
  Ele a alcanou.
  -- Se precisar de algum que morra antes de entregar o segredo de um cliente
-- Bryan fez uma pausa, deixando calar essa escolha de palavras --, recomendo
uma oficina em River Gardens.
  A de Tony, Ivy pensou, onde Bryan disse que tinha consertado o carro depois
do acidente.
  -- Isso no  nada -- ela respondeu, seguindo adiante.
  Ele a pegou pelo brao, puxando-a para trs.
  -- Sabia que podia contar com voc.
  -- Para qu?
  -- Para perceber que no vale a pena se entusiasmar com certas coisas.
  Ivy baixou a voz, num esforo para mant-la normal.
  -- Imagino que a nossa lista de coisas que valem a pena  bem diferente.
  Ele riu e a soltou.
  -- Aposto que sua lista inclui pessoas, como amigos e colegas.
   Quem os visse, sem saber o que ela sabia sobre Bryan, veria apenas os
sorridentes olhos verdes e as maneiras brincalhonas de um sujeito que s queria
se divertir.
  -- Voc sabe do que sou capaz, Ivy. -- O sorriso jovial fazia as palavras
soarem ainda mais frias. -- No me faa machucar voc.
  Ela queria sair correndo at o chal, mas se forou a andar num passo
tranquilo.
   -- No disse nada a ningum -- afirmou. -- Mas fiquei surpresa com o que
voc falou para a polcia e para Kelsey, contando que estava atrs de Luke.
Incrvel que tenha at questionado a morte de Alicia, que eles estavam prontos a
aceitar como suicdio. Voc est atraindo uma ateno que a gente no precisa.
  -- Tinha que lhes dar uma desculpa, depois que me pescaram no canal.
Aqueles malditos helicpteros. Que pena que no puxaram Luke. Ele saltou
antes de mim.
  -- Ah, ? -- Ivy respondeu rapidamente. -- Ele saiu nadando?
  -- No se faa de boba, Ivy!
  Ento talvez Tristan esteja a salvo!
  -- Onde ele est? -- perguntou Bryan.
  -- Muitos dias distante daqui, espero.
  Eles pararam no final do caminho perto do amplo jardim que separava a
pousada do chal das moas.
  -- De jeito nenhum -- Bryan replicou. -- Luke  um pombo choco, sempre
voltando para o ninho. Vai voltar para voc.
   -- Mas  muito perigoso para ele. Assim como para voc e para mim -- Ivy
acrescentou, reforando o argumento. -- A polcia est de olho na gente, Bryan.
-- Aquele era o nico argumento capaz de impedir que Bryan matasse " Luke"
quando o encontrasse.
  -- Talvez, por enquanto -- disse ele. -- Mas a viso da polcia  estreita, e
voc e Luke no tm provas contra mim. As abotoaduras esto no fundo do
canal, na parte mais funda dele.
  Ivy sentiu o corao apertado. A nica prova que tinham sumira.
  Bryan se aproximou bem de Ivy, pegando um cacho dos cabelos dela,
enrolando-os no dedo.
  -- Se quer sobreviver, se quer que Luke sobreviva, no conte nada  polcia.
Talvez voc ache que eles podem proteg-la. Eles at podem dizer que sim, mas
so lerdos e desajeitados... e eu no.
   A porta do chal se abriu. Ivy ficou contente de ser Kelsey. Sua colega
ciumenta encerraria rapidamente aquela conversa.
  Bryan soltou o cabelo de Ivy, lanando um olhar para o brao dela.
  -- Arrepiada, num dia quente como este?!
  Kelsey caminhou na direo deles e Ivy se dirigiu  pousada.
   Na imensa cozinha quadrada, onde as moas e Will davam incio  jornada
diria, Beth e a tia de Kelsey faziam ch.
   -- Quer um pouco de ch de ma e cranberry? -- perguntou Kelsey,
puxando para trs alguns fios do grosso cabelo vermelho que tinham se soltado
de sua trana. -- Eu preferia algo mais forte. -- Sua camisa estava amassada.
Apesar do sorriso, das bochechas rosadas e sardentas, ela parecia exausta.
Comida em recipientes de plstico e uma chave com um grande S no chaveiro
estavam na mesa da cozinha.
  -- Como esto os Steadmans? -- perguntou Ivy, imaginando que fosse a
chave deles.
  -- Na luta -- respondeu a tia Cindy. -- Fecharam a casa da praia hoje e vo
voltar para Boston.
  Ivy aceitou uma xcara de ch.
  -- Senti tanta pena deles. Quando vi o irmozinho e a irmzinha no enterro...
  A tia Cindy concordou com a cabea.
   -- Gostei do modo como vocs, meninas, e Will arregaaram as mangas nos
ltimos dias, principalmente sem a Beth.
  -- Tudo bem.
  -- Assim que a Beth voltar -- a tia Cindy continuou --, quero dar uma folga
extra a Will, Dhanya e Kelsey. E voc, como se sente?
  -- tima -- Ivy respondeu, apesar das noites sem dormir. -- J tive folga. E
agora j resolvemos a rotina, ento, est muito mais fcil.
  A tia Cindy assentiu e levou a chave dos Steadmans at o quadro das chaves
duplicadas.
  -- J ia me esquecendo -- ela comentou, olhando as caixas de
correspondncia dos funcionrios --, tem um recado para voc.
  -- Minha me? -- S os pais dela tinham permisso para telefonar para a
pousada.
  A tia Cindy sorriu e voltou para a mesa.
  -- No, um rapaz.
  -- Ah, desculpe -- Ivy respondeu imediatamente.
  -- Tudo bem. Ele tinha uma voz to bonita, queria que estivesse ligando
para mim. Billy... Billy Bigelow.
   Ivy suspendeu a respirao. Quando ela e Tristan estavam se conhecendo, ele
tinha lhe contado que tambm gostava de " msica clssica" -- s que msica
clssica, para ele, no era Mozart nem Mahler, mas shows da coleo de
musicais de seus pais. Um dos preferidos era Carousel, e Billy Bigelow era o
heri romntico da histria. Tristan tinha arrumado um apelido que sabia que
ela reconheceria!
  Ivy foi rapidamente at o cubculo de madeira, cruzando a cozinha, e pegou o
papel com o recado.

  Hora: 18h10
  Para: Ivy
  De: Billy Bigelow
  (203) 555-0138
  De frias por aqui alguns dias, num barco emprestado na Nauset Harbor.
  Aparea quando puder.

   -- Pelo brilho no seu rosto, imagino que estava esperando esse convite --
disse a tia Cindy. -- Um namorado da sua terra?
  Ivy enfiou o recado no bolso, sorrindo.
  -- Pode chamar assim.
  Tristan sentou-se no cho da casa do leme e, observando o cu escurecer,
ouvia e esperava. Ao saltar no canal, acabou perdendo o telefone de Ivy, mas
encontrou na lista do balco de informaes de Orleans a pousada Seabright, e
conseguiu convencer um garoto a lhe emprestar o telefone. Os ltimos quatro
dgitos do nmero que tinha deixado para Ivy combinavam com os ltimos
quatro do registro do barco, pintados na proa.
  Deitado de costas, com as mos atrs da cabea, embalado pela cadncia das
ondas, Tristan adormeceu. Acordou com o assobio de uma melodia do
Carousel. Levantou-se, assoviou de volta e ouviu uma leve batida na lateral do
barco de pesca. Subiu num amontoado de armadilhas de arame enferrujado. Ivy
lhe sorria do caiaque, o cabelo como um emaranhado dourado salpicado de
nvoa marinha. Metade sereia, metade anjo, ele pensou. Ficaram apenas
olhando um para o outro por um instante.
  -- Billy Bigelow? -- ela perguntou.
  Ele riu e sentiu o riso percorrer todo o corpo, como sempre acontecia perto
dela.
  -- Sabia que iria me encontrar.
  -- Permisso para embarcar, senhor?
   Ele lhe jogou uma corda, e ela lhe deu um remo e uma mochila. Pela corda,
ela subiu com facilidade no convs. Puxando-a, ele afundou o rosto no cabelo
mido, beijou-lhe a linha do rosto, e sua boca encontrou a dela num beijo
suave.
  -- Que saudade! -- disse, emendando as palavras num outro beijo mais
profundo.
  Sentiu que ela tremia e a abraou com fora, como se pudesse proteg-la de
todo o mal, como se pudessem ficar assim para sempre.
  -- Amo voc, Ivy.
  -- Amo voc, Tristan. -- Beijaram-se de novo. -- Tive tanto medo... Voc
podia ter se afogado!
  -- Afogado? Tendo voc como treinadora de natao? -- ele brincou.
  Ela riu e recostou a cabea no peito dele.
   -- Eu estava mais perto da margem do que Bryan -- disse Tristan --, e
tinha me afastado mais da ponte, rio abaixo. Como a polcia estava ocupada,
iando-o dali, foi fcil deslizar at a praia.
  -- Ele disse que as abotoaduras tinham desaparecido. Sabia disso.
  -- Acho que nos seguiu. Na ponte, ele as exigiu. -- Tristan inspirou fundo,
soltando o ar devagar. -- Quando me alcanou, joguei-as por cima da cabea
dele, pra que fosse atrs... Desculpe.
  -- Desculpe? No! Foi esperto! -- Ivy exclamou. -- Ele teria matado voc
na hora. Vamos encontrar outra prova.
  Tristan balanou a cabea; a verdade era uma s.
   -- J vasculhamos o quarto de Corinne de alto a baixo. E o apartamento dela
foi saqueado.
  -- Portanto, a prova est em algum outro lugar.
  -- No fundo do mar -- ele retrucou. -- Voc j deve ter percebido: Bryan
gosta de largar as pessoas e outras coisas dispensveis em guas profundas.
  -- No podemos desistir, Tristan. Se queremos ficar juntos, temos de limpar
o nome de Luke.
  Ele a abraou de novo, descansando o queixo na cabea dela.
  -- Temos que fazer muito mais do que isso.
  -- Quando estava na ponte, no descobriu nada de novo sobre o Bryan?
   Tristan lhe contou o que Bryan tinha admitido, ou, na verdade, do que tinha
se gabado. Um ano e meio antes, quando atropelara a mulher na estrada, ele a
deixou l morrendo, priorizando a sua carreira no hockey, em vez da vida dela.
Sabia que podia contar com o velho amigo Tony para consertar o carro e no
delatar que estava bbado, nem sobre o atropelamento e sua fuga do local do
acidente, mas no contava que Corinne estivesse na oficina naquela manh,
trabalhando num ensaio fotogrfico. Ela sempre foi bisbilhoteira e chantagista, e
encontrou no carro batido de Bryan a abotoadura que ele tinha usado na
comemorao dos esportistas. Para azar de Bryan, a polcia tinha encontrado a
outra abotoadura no local do acidente.
  Como Ivy e Tristan suspeitaram, Bryan se cansara de pagar a dvida com
Corinne, por isso a estrangulou, incriminando Luke, o antigo namorado dela.
Mas Bryan logo percebeu que no podia contar com Luke para ficar longe da
polcia. Ele o matou tambm, jogando o corpo no mar junto de Chatham.
Depois que Ivy e Tristan descobriram que Alicia teria um libi para Luke,
Bryan a acrescentou  sua lista de vtimas.
  -- Deve haver uma prova em algum lugar -- disse Ivy. -- Quanto maior o
nmero de vtimas, maior a possibilidade de o assassino deixar testemunhas e
indcios para trs. Algum deve ter visto algo nas vezes em que Bryan matou.
Algum deve saber de algo muito til para ns, mas talvez ainda no tenha se
dado conta disso.
  -- Ivy, a maior parte dos assassinatos aconteceu h meses e, quanto mais o
tempo passa, mais difcil ...
  -- Pare e pense -- ela interrompeu. -- Muita gente estava na festa de Max na
noite em que Bryan escapuliu para matar Luke. Muita gente foi  comemorao
esportiva na noite do atropelamento... Claro! Devem ter tirado fotografias.
Aposto que contrataram um fotgrafo profissional para vender fotos a todos os
pais orgulhosos. -- Ela riu e pegou uma boia de plstico, cumprimentou
Tristan, entregando-lhe a boia como se fosse um trofu. -- Sorria -- ela disse.
-- A sua abotoadura est aparecendo!
  Ele riu, mas logo ficou srio de novo. Bryan era uma ameaa, pensou Tristan,
mas Gregory era um inimigo que nenhuma arma nem autoridade humana
conseguiriam deter. E Gregory tinha uma nica meta: matar Ivy. Quem ele
possuiria em seguida? Tanto Dhanya quanto Kelsey lhe dariam acesso fcil a
Ivy.
  -- Precisamos encontrar um lugar seguro para voc, Tristan, algum lugar
longe daqui.
  -- Desde que fique comigo -- ele disse.
  -- No, precisamos nos separar -- s por algum tempo.
  -- De jeito nenhum!
  -- Bryan est calmo agora, fingindo que temos um acordo -- ela continuou.
-- Mas ele matou todo mundo que sabia algo que o incriminava. Por que nos
pouparia?
   -- Porque, do ponto de vista da polcia, o Bryan  amigo de muitos
defuntos.
   -- Tristan, voc no percebe? Exatamente por isso vai nos usar: para se
encobrir e amarrar direitinho as mortes de Corinne e Alicia. Se nos matar,
consegue que a armao contra Luke funcione, por isso, no podemos falar. Vai
fazer com que nossa morte parea um assassinato-suicdio, o fim da matana das
mulheres que Luke amou. O jeito de Bryan parar  a gente se distanciar...
  -- Nunca vou deixar voc!
 -- Tristan -- ela implorou. -- Ns queremos a mesma coisa: ficar juntos.
Mas por algum tempo precisamos nos distanciar.
  -- J fiquei distante de voc. No vou deix-la de novo.
  Ivy fechou os olhos e se apoiou nele, ficando em silncio por algum tempo.
Por fim, disse:
  -- Este barco funciona? Se eu trouxer combustvel, ele funciona?
  Tristan balanou a cabea.
  -- No conheo nada de motor de barcos, mas a parte eltrica foi arrancada.
  -- Ento, voc estar mais seguro em terra. Daqui s pode escapar nadando.
  -- Posso voltar a Nickerson.
   -- No, guardas demais viram a sua foto. -- Ela hesitou, ento continuou: --
Conheo um lugar prximo que poderia usar. A famlia acabou de ir embora e a
tia Cindy tem a chave. Est ali no quadro de chaves. Posso fazer uma cpia.
  -- Por quanto tempo ficaro longe?
  -- No sei. O filho deles foi morto na praia na tarde em que Gregory deixou
Beth. Foi atingido por um raio.
  Tristan afastou-se um pouco dela, encarando-a, horrorizado.
  -- Gregory ir matar qualquer um! -- Mas ele sabia que o desejo assassino
de Gregory voltava-se a uma pessoa especfica.
   O medo e a raiva doeram-lhe como um soco nas entranhas. Ao contrrio de
Bryan, Gregory no se intimidaria diante da ameaa de ser pego. A segurana de
Ivy dependia dele. Destruiria Gregory mesmo que fosse a ltima coisa que
fizesse.
                                                  Captulo 3




B eth est de volta!
  Ivy ergueu os olhos da cama que arrumava no final da manh de quinta-feira e
deu um largo sorriso. Will, de folga, estava do lado de fora da janela da sute, o
corpo bronzeado brilhando com a gua do mar, o cabelo espetado.
  -- Quando terminar, encontre a gente na escadinha da praia -- ele disse.
   Vinte minutos depois, Ivy cruzava o gramado que se estendia entre a pousada
e a ribanceira arenosa coberta de arbustos. Beth e Will estavam no patamar no
meio da escada, observando as guas resplandecentes do oceano. Ali do alto, os
olhos de Ivy vagaram para a esquerda, onde o mar dobrava uma comprida ponta
de terra, formando a Nauset Harbor, uma enseada por trs da linha de dunas. Fez
uma prece para Tristan. Tinha falado a ele que no voltaria enquanto no fizesse
a cpia da chave da casa da praia, para no atrair a ateno para o barco de pesca
at que ele pudesse sair de l.
  Beth se virou de repente, como se sua parte sensitiva tivesse percebido a
aproximao de Ivy. Ivy desceu a escada correndo.
  -- Epa! Devagar! -- Will exclamou. -- No consigo segurar as duas.
  Ivy abraou Beth.
  -- Que bom ver voc!
  -- Tambm acho! Quero dizer, que bom ver voc -- respondeu Beth, e
ambas riram.
  Os olhos azuis de Beth estavam sem a sombra que os escurecera quando
Gregory a possuiu. O cabelo castanho-claro, com listras brilhantes por causa do
sol de vero, caa suavemente pelo rosto rosado.
  -- Como est se sentindo? -- Ivy perguntou.
  -- Bem, muito bem. E voc?
  -- tima agora que voc voltou. Sentimos sua falta!
  Ivy sentou-se num banco e Beth juntou-se a ela. Will sentou-se diante delas,
com a prancha e o remo apoiados na cerca.
   -- Senti falta de vocs tambm, mas tinha vocs comigo -- disse Beth,
tocando ligeiramente o pingente que Ivy e Will tinham dado a ela.
  Ivy apertou a mo da amiga e olhou para Will. Lembrou-se do medo e da dor
que marcaram o rosto dele quando encontraram Beth no campanrio com uma
corda no pescoo. Lembrava-se da agonia na voz dele: Ivy, se eu a perder, no
consigo continuar! Agora seus olhos castanhos brilhavam.
  Beth estendeu a mo para Will e Ivy percebeu que os dedos deles se
entrelaavam, como se ele tivesse plena conscincia de cada ponto daquele
toque. Ivy sabia que Will amava Beth tanto quanto ela. Mas algo tinha mudado
-- estaria ele apaixonado?
   Will se afastou repentinamente. Beth mordeu os lbios e pousou a mo entre
as pernas. Ivy arrependeu-se de no ter sido mais discreta ao encar-los.
Tentando lev-los para um assunto mais leve, disse:
  -- Voc voltou bem na hora, Beth. Philip, minha me e Andrew chegam a
Cape domingo.  melhor vocs se mexerem e terminarem o Anjo e o gato de
rua.
   Era uma histria em quadrinhos, uma srie de aventuras que Will e Beth
tinham inventado para Philip.
   -- Tenho um zilho de ideias -- disse Beth. -- S espero que o meu
ilustrador me acompanhe.
  Will riu.
   -- Mas primeiro Will vai me ensinar como ficar de p no surf de remo. --
Beth comentou com Ivy -- Voc acha que consigo que o meu cabelo espete
assim?
  Constrangido, Will passou a mo pelo cabelo mido e Ivy se recostou,
sorrindo para si mesma.
 -- Ivy -- disse Beth, ficando sria --, o que est havendo com Luke? Will
me contou o que aconteceu no sbado  noite.
  O que Bryan disse que aconteceu, Ivy corrigiu a amiga em pensamento.
   Ela no queria colocar Will e Beth em perigo ao revelar que Bryan era o
assassino -- o tipo que mata quem souber o que ele fez. Mas era hora de lhes
contar da volta de Tristan; ela e Tristan talvez pudessem precisar da ajuda deles.
  -- Luke no  quem Bryan pensa que .
  Will e Beth a encararam, perplexos.
  -- O verdadeiro Luke morreu. Ele se afogou perto de Chatham.
  -- Se afogou?! -- Will exclamou. -- Ento quem ...
  -- Tristan.  o corpo de Luke, mas o esprito de Tristan.
  Beth arfou ligeiramente.
  -- Tristan est ocupando Luke? -- Will perguntou. Enquanto Ivy explicava
tudo, ele vagou os olhos pela vasta imensido azul, como se estivesse vendo de
outra forma o desenrolar dos acontecimentos das ltimas cinco semanas.
  -- No  menos inacreditvel do que Gregory me possuir -- Beth frisou
baixinho.
   -- Mas h uma diferena -- Ivy comentou. -- Tristan tomou todo o corpo de
Luke. O esprito de Luke -- sua mente, memria e alma -- se foi. Ele morreu e
foi embora.
  -- Gregory sabe que Tristan voltou? -- Beth perguntou.
  -- Ainda no. Pelo menos, no at onde sabemos.
  Will franziu o cenho.
  -- Onde est Gregory agora?
  -- No sei.
  -- Ele vai voltar -- Beth disse. -- Ele quer vingana.
  Ficaram ali em silncio. O celular de Beth tocou e ela automaticamente o
desligou.
  --  sua me -- Ivy e Will falaram ao mesmo tempo, reconhecendo o toque.
  Beth leu o texto e tirou do bolso as chaves do carro.
  -- J volto.
  Quando ela saiu, Will virou-se para Ivy.
  -- Sinto muito, Ivy, muito mesmo. No entendi o que estava acontecendo
logo que Tristan voltou. Me senti rejeitado por voc.
  -- Depois de tudo o que fez por mim? -- A voz dela saiu meio trmula.
  Will inclinou-se para frente, fazendo com que ela o encarasse.
   -- Sabia que voc nunca tinha deixado de amar Tristan. Mesmo quando eu
estava apaixonado por voc, sabia que o amava tambm. No via problema
nisso. Confiava no seu corao, sabia que era grande o suficiente para amar a ns
dois. Ento, quando vi esse estranho entre ns, no consegui entender. Fiquei
zangado... com voc e comigo.
  -- Desculpe, Will, pelas mgoas que causei.
  -- Achei que tinha sido enganado... como se eu no te conhecesse direito,
como se estivesse gostando de algum que de fato no existia. Mas a Ivy que
conheo est de volta. -- Ele sorriu. -- Afinal, voc no mudou.
  Ivy sentiu um n na garganta.
  -- Amigos?
  Ele segurou a mo dela entre as suas.
  -- Amigos felizes para sempre.
  Naquele dia, mais tarde, com a tia Cindy e a me de Beth a caminho de
Provincetown, e ela mesma incumbida de preparar umas comidinhas para os
hspedes, Ivy teve a oportunidade perfeita de copiar a chave da casa dos
Steadmans. Sozinha na cozinha, ela a pegou do quadro.
  -- Oi, Ivy.
  Ela rapidamente se virou, enfiando a chave no bolso.
  -- Oi, Kels, Dhanya! -- respondeu quando elas entraram na cozinha, surpresa
de que ainda estivessem juntas. -- E a?
  Kelsey despencou numa cadeira da cozinha.
  -- T-di-o. Estou completamente, terrivelmente entediada!
  Observando as latas e pratos que Ivy tinha disposto no balco da cozinha,
Dhanya abriu as latas e comeou a arrumar os biscoitos para o ch.
   -- Existe setenta por cento de chance de tempestade, mas Kelsey no quer ir
fazer compras -- ela disse, encolhendo os ombros.
  -- Onde est Bryan? -- Ivy perguntou.
  -- Voltou para o rinque... tem que trabalhar esta tarde e  noite. O tio dele 
exigente -- Kelsey reclamou. -- Ele est sempre trabalhando.
  -- Ou dizendo que est -- Dhanya insinuou baixinho.
  Kelsey pegou um biscoito.
  -- Eu saberia se ele estivesse me enganando.
  -- Quer fazer compras, Ivy? -- Dhanya perguntou.
  Mas uma ideia se formava na cabea de Ivy.
  -- E se a gente surpreendesse Bryan? -- ela sugeriu. -- Por que no vamos
patinar mais tarde?
   Ivy imaginou que, se Bryan tivesse de lidar, ao mesmo tempo, com o
trabalho e com Kelsey ele, ficaria ocupado e, assim, ela teria chance de dar uma
olhada nas fotos penduradas no rinque e talvez encontrar as abotoaduras.
  --  uma ideia! -- exclamou Kelsey.
  -- Posso convidar Chase? -- Dhanya perguntou.
  -- Deveramos convidar todo mundo -- Ivy respondeu. Quanto mais
distraes para Bryan, mais fcil seria fazer a investigao. -- Junte um grupo
-- ela aconselhou Kelsey. -- Voc no quer que ele pense que est desesperada
para v-lo.
  Kelsey abriu um sorriso.
  -- Realmente, Ivy, voc sabe mais de namoros do que parece.
  Depois do ch, Ivy foi at o centro comercial, onde fez uma cpia da chave da
casa dos Steadman, depois comprou em dinheiro dois telefones sem contratos.
Com o GPS desligado e nenhuma conta rastrevel, a comunicao entre ela e
Tristan ficaria mais segura.
   Pouco antes das oito, Chase pegou Dhanya e Kelsey. Will, Beth e Ivy foram
ao rinque. Max os encontrou no estacionamento. Bryan os viu assim que
cruzaram a entrada.
  -- Olhem s! Que surpresa!
  -- Teramos convidado voc -- disse Kelsey --, mas estava trabalhando.
  Ele lhe deu um sorriso bobo. Usando shorts de ciclista bem justos e uma
blusa com um decote insinuante, Kelsey obviamente queria chamar a ateno.
  -- Foi ideia de Ivy -- ela acrescentou.
  O sorriso de Bryan se apagou.
   --  mesmo? No sabia que voc era uma grande f de patinao -- Bryan se
dirigiu a Ivy.
  -- Tenho certeza de que j contei... No ltimo inverno, Beth e eu patinamos
todo final de semana.
  Os olhos dele se estreitaram ligeiramente.
  Estava desconfiado e ficaria de olho nela.
  -- Estamos bem treinadas -- acrescentou Beth.
  Ele deu um sorriso para Beth.
   -- Beth, que bom que voltou! Em sua homenagem, entrada livre! -- Foi at
o caixa e pegou ingressos para todos, inclusive outros patinadores que entravam
no mesmo momento, fazendo disso uma exibio.
  Beth corou.
  -- Vamos l, pessoal, peguem seus patins. -- Ele os conduziu at o balco
de aluguel e voltou para a sua tarefa de treinador impetuoso, o tipo de sujeito
adorado pelo time, novos jogadores de hockey, pais, colegas...
   Ivy achava Bryan mais assustador do que Gregory, quando estava vivo. Seu
irmo adotivo jamais fingira gostar de algum, a no ser de alguns poucos
escolhidos. Bryan era amigo de todo mundo, mas podia virar-se contra qualquer
um sem aviso-prvio.
   -- Ei, Chase, voc est todo viril hoje! -- provocou Bryan, enquanto
trocavam os sapatos e as sandlias pelos patins.
  Will sorriu, mas Chase no deu mostras de ter gostado da observao,
embora o seu belo aspecto meio desarrumado -- rosto sem barbear e o
despenteado cabelo preto cacheado -- devesse ser proposital. Ele estava saindo
de novo com Dhanya e parecia que tinha vindo apenas porque ela queria.
  Max, que tinha os prprios patins e os estava amarrando, ergueu os olhos.
Ivy flagrou o seu ar melanclico ao ver Dhanya sorrindo e tocando o rosto
spero de Chase.
  A estrutura frgil e o aspecto monocromtico de Max, com cabelo castanho,
olhos castanhos e o bronzeado desbotado, faziam dele a anttese de Chase. Mas,
como sempre, Ivy achava atraentes as pessoas de quem gostava e tinha
comeado a enxergar certo charme no sorriso juvenil e na intrigante profundidade
cor de mbar dos olhos dele.
  -- Maxie, voc est todo como sempre! -- Bryan brincou. Max deu de
ombros e sorriu. Ivy ficou imaginando se Max teria alguma ideia do que o seu
bom amigo era capaz. De jeito nenhum, pensou.
   Com os patins amarrados, ela levantou-se, ansiosa para chegar ao saguo que
dava no rinque. Lembrava-se de que havia fotos nas paredes da passagem que
levava ao rinque e tambm na da lanchonete. Mas permaneceu onde estava,
mudando o peso de uma perna para outra, pois no queria que Bryan a visse
examinando as fotos.
  Enquanto os demais ainda amarravam os patins, o tio de Bryan apareceu,
vindo do saguo.
   -- Ah, parece que a festa  na minha casa hoje! -- ele disse, no mesmo tom
alto e risonho do sobrinho. -- Pegue os patins, Bryan. Voc merece.
  Bryan cumprimentou o tio e se retirou. Assim que ele e o tio Pat ficaram fora
da vista, Ivy se dirigiu ao saguo.
  A maioria das fotos era de times -- filas de garotos parecidos, usando
capacetes de hockey -- com o nome do time e o ano impressos embaixo. Mas
havia outras fotos. Ela reconheceu o tio Pat recebendo um prmio, diante de
uma faixa que dizia " Cmara do Comrcio". Havia uma foto em preto e branco
dele com o jovem Ted Kennedy e uma colorida com Mitt Romney.
  -- Estou admirado -- Chase disse com sarcasmo, juntando-se a Ivy diante da
parede de fotos.
  Ivy apontou.
  -- Quem  esse?
  -- Tom Brady. Zagueiro do Patriots.
  -- E este cara?
  -- Wayne Gretzy, acho. Uma megaestrela do hockey.
  Dhanya foi at eles.
  -- Nossa, o tio de Bryan conhece um monte de gente famosa!
  -- Ele foi fotografado com eles -- Chase corrigiu.
  -- Oi, pessoal, o que esto olhando? -- Bryan tinha voltado, trazendo os
patins.
  -- As maravilhosas relaes da sua famlia -- disse Chase.
  Bryan riu.
   -- Esse  o meu tio, sempre com os ricos e poderosos. Na verdade, ele j
levantou fundos para a comunidade muitas vezes.
 medida que o grupo seguia adiante, Ivy ficou para trs, os olhos voltados
para uma foto no final do saguo. Dois garotos, de sete ou oito anos, vestindo
camisetas de hockey grandes demais e toucas do papai-noel, sobre patins de
gelo, sorrindo para a cmera, de braos dados. O pequeno Bryan e Luke, h
muito tempo, provavelmente durante as frias de natal.
  -- Reconhece? -- A voz de Bryan soou junto da orelha dela.
  Ivy olhou para os lados. Os demais j tinham ido.
  -- Como pde ter se virado contra o seu melhor amigo?
  -- Moleza -- disse Bryan. -- Luke no ia chegar a lugar nenhum. Mas eu ia,
Ivy, e ainda vou. Que trgico, no ? -- acrescentou, rindo do mesmo jeito
enganosamente calmo de quando rira das ligaes do tio. Isso arrepiou-a at a
alma.
  -- Quer ser minha parceira de patinao? -- ele perguntou.
  -- Voc j tem uma te esperando -- ela respondeu, com um sinal de cabea
na direo de Kelsey, que se virara, procurando Bryan.
  -- Ah, ela. -- Ele sorriu para Ivy e afastou-se.
   Ivy o seguiu, relutante, prometendo a si mesma que voltaria s fotos assim
que pudesse sair furtivamente. Por algum tempo, patinou com Max. A cada vez
que fazia a curva em uma das pontas do rinque alongado, lanava um olhar para
a lanchonete, desejosa de que os amigos logo ficassem com sede, de modo que
pudesse ter uma desculpa para ver as fotos. Havia divisrias entre os quiosques e
as arquibancadas que rodeavam o rinque, mas a praa de alimentao ainda ficava
visvel e Bryan perceberia se ela sasse sozinha.
   Naquele momento, ele patinava com Kelsey e uma garotinha. A criana, de
camiseta de jogador e capacete, com as trancinhas voando no ar, sorria de orelha
a orelha.
  Max acompanhou o olhar de Ivy.
  -- As crianas adoram Bryan.  um timo treinador. O meu pai diz que ele
daria um excelente vendedor.
  Ivy deu uma passada adiante de Max e virou-se, patinando de costas e
encarando-o. Em sua busca por algum que pudesse ter visto alguma coisa sem
se dar conta da importncia disso, Max era um bom comeo.
  -- Quando vocs ficaram amigos? -- ela perguntou.
  -- Na faculdade.
  -- Antes disso, no?
   -- Foi durante uma temporada de hockey, na verdade, numa festa depois de
um jogo importante. Fiquei meio surpreso de que Bryan andasse comigo, sendo
ele essa estrela do campus, sabe como .
  Isso no surpreendia Ivy. Bryan adoraria um amigo rico com brinquedos caros
-- como um barco, por exemplo.
  Max sorriu.
   -- Depois descobrimos que ele estava trabalhando a pouca distncia da minha
casa no vero. Foi muito legal!
  Ivy assentiu.
  -- Imagino! Voc gostava de praia. Vocs dois gostam de barcos. -- Ela
continuou patinando de costas, observando a expresso de Max.
  -- Bom, Bryan no sabia muito de barco, mas realmente gostava.
   -- Ah, ? -- disse Ivy. Max deixava Bryan dirigir os carros dele. Daria a ele
a chave de um barco? Provavelmente.
  -- Comeamos a vir em maio, nos finais de semana, para passar o tempo.
   Em que momento, pensava Ivy, Bryan teria planejado matar Luke e jog-lo
no mar? E teria se sado bem ao tentar apagar todas as pistas? Talvez, mas... na
pressa...
   Ivy viu Bryan se aproximar por trs de Max, encarando-a, e virou-se para
patinar lado a lado com Max, de modo que a conversa no parecesse um
interrogatrio.
  -- Voc me levaria passear no seu barco? -- ela perguntou.
  -- Claro. Qual deles?
  Ela hesitou.
  -- A lancha.
  -- Seria timo.
   Patinaram mais um pouco juntos, ento, Ivy viu Dhanya e Chase saindo do
rinque e se apressou para se juntar a eles.
  -- Oi, gente. -- Ela se atirou no banco mais baixo da arquibancada. -- Esto
com fome?
  Dhanya deu uma olhada em Chase.
  -- Talvez comida ajudasse... Ele no est se sentindo bem -- ela contou a
Ivy. -- As luzes esto incomodando.
  Ivy observou a iluminao do rinque e depois estudou o rosto de Chase.
  Ele protegia os olhos com a mo.
  -- Talvez, se no for s comida gordurosa americana.
  -- Duvido que tenham tofu e ch verde, mas deve haver alguma coisa
simples, como um pretzel -- Ivy disse, tomando a dianteira.
   A praa de alimentao tinha mesas de madeira e cadeiras pintadas de laranja e
azul vibrantes, fazendo um contraste alegre com o cinza do rinque. O mosaico de
fotografias emolduradas, penduradas nas paredes que ficavam frente a frente,
comeava em preto e branco e chegava s coloridas. Enquanto Dhanya e Chase
faziam seus pedidos, Ivy checava as fotos, comeando pelas que pareciam ser as
mais recentes. Alm das fotos da formao dos times, havia fotos de jogadas, e
Ivy reconheceu Bryan em muitas delas, em que aparecia treinando jogadores
mais novos.
  O corao dela deu um salto: Bryan de palet. Ela tirou uma cadeira do
caminho para olhar a foto mais de perto.
   No dava para ver o punho da camisa. Parecia ser de uma cerimnia em que
ele e o tio entregavam trofus s crianas.
  Havia outra foto de Bryan e Luke, que deve ter sido tirada na escola. Ivy
engoliu em seco. Era estranho ver um rosto que agora via como o de Tristan,
olhando para ela, e parecendo  vontade como um arrogante jogador de hockey.
  -- Est apaixonada por ele ou por mim? -- Bryan perguntou, baixinho.
  Ivy sobressaltou-se.
  -- Por ele, claro. De quando  esta foto?
  -- ltimo ano, pouco antes de vencermos o campeonato da cidade. Pouco
antes de Luke sair da escola.
  -- Ele saiu? Que chato -- Ivy disse.
   -- Menos de trs meses antes da formatura e Luke saiu. No ligava para nada
alm de hockey, Corinne... e eu -- Bryan deu um sorriso largo. -- Luke
gostava de mim.
  Ivy sentiu vontade de lhe dar um tapa. Odiava essa indiferena inconsequente
de Bryan. E tinha medo disso. No havia como apelar para o senso de justia,
muito menos para a compaixo, quando algum era desprovido de sentimentos
para com os outros.
   Para alvio de Ivy, Kelsey vinha na direo deles com duas casquinhas
grandes, e Will e Beth tinham acabado de parar para o descanso. Pedindo
licena, Ivy juntou-se a eles no sorvete e depois voltou ao rinque.
   -- Vamos l, Ivy. Como fazamos antes -- Beth a convidou. Patinaram pelo
rinque de braos dados, num ritmo perfeito, como tinham feito no ltimo
inverno. Beth acompanhava a msica que tocava no rinque; Ivy a seguia em
perfeita harmonia.
   Enquanto patinavam, Ivy continuava a olhar em volta, tentando entender a
estrutura do lugar. Viu o que pareciam ser vestirios masculinos e femininos e
portas para outras salas, que podiam ser as das salas de manuteno e
almoxarifado. O tio Pat devia ter um escritrio em algum lugar. Era sua ltima
chance de encontrar uma foto que incriminasse Bryan: um santurio de fotos de
famlia.
  Will se uniu a elas e patinaram os trs, com Ivy no meio. Depois de vrias
voltas, ela se soltou da mo deles.
  -- Alcano vocs depois -- ela disse. Quando os dois no fecharam o vo
entre eles, Ivy juntou as mos de Beth e Will e saiu patinando.
   O tio Pat tinha colocado a " msica de namoro" e ela viu, pelo canto dos
olhos, Bryan e Kelsey entrarem no rinque, pelo lado mais distante. Ivy foi em
linha reta at o vestirio. Em um dos banheiros, desamarrou um dos patins,
depois passou os cadaros dele na lmina do outro at romp-lo. Agora tinha
uma desculpa para andar de meias por ali, fingindo ter se perdido no caminho
para o balco de aluguel. Entre o saguo e a praa de alimentao, encontrou a
porta que queria, com uma placa na qual se lia: " Patrick Cavanaugh,
Proprietrio, Gerente, Chefe. No se esquea disso!"
   A luz do escritrio estava acesa e a porta parcialmente aberta. Ela prestava
ateno aos barulhos e, em seguida, deu um empurrozinho na porta. No houve
resposta. Espreitando ao redor, deslizou para dentro.
  Como tinha imaginado! Fotos de esporte, fotos de famlia e recortes de jornal
emoldurados.
  -- Voc est procurando alguma coisa?
  Ivy ficou paralisada, virando-se devagar para encarar Bryan.
  -- Oh. Seu Cavanaugh!
  --  o que diz na porta.
  Ela assentiu.
  -- O senhor tem a voz do Bryan. Sou Ivy, amiga dele.
  -- Algum problema?
  Ivy mostrou os patins e o cadaro partido.
  Ele ergueu a sobrancelha.
  -- O balco de aluguel  para l -- disse, apontando.
   -- Eu sei. -- Ivy tinha se tornado muito boa com mentiras, e um dos truques
era contar o mximo de verdades na mentira. -- No deveria ter entrado, mas
queria ver as fotografias. Vi algumas na lanchonete. O senhor tem algumas
muito boas de Bryan treinando.
   O homem sorriu. Ela tinha acertado no alvo, um tio muito orgulhoso do seu
talentoso sobrinho.
   -- Ele  timo com as crianas. Poderia viver como treinador, se no fosse
to bom jogando tambm.
  -- Bryan contou que a me jogava.
  O tio Pat deu uma risadinha.
  -- Sim, aposto que contou que ela era melhor do que eu e meus irmos.
  -- Ah ?
  -- Sim. -- Ele riu mais. -- Aqui est ela -- disse, apontando uma foto, o
que permitiu que Ivy adentrasse ainda mais a sala.
   Ivy sorriu: vigorosa, a me de Bryan parecia-se com ele, mas com uma fita no
cabelo. Junto da foto dela havia um recorte de jornal, amarelado pelos anos, cuja
foto mostrava o tio Pat bem mais jovem e esguio, cuja manchete anunciava:
" Outro Cavanaugh leva o time ao campeonato". Para ganhar tempo, Ivy parou
para ler o artigo e, quando viu o tio de Bryan ir na direo de sua escrivaninha,
examinou rapidamente a parede de fotos. Ali estava ela! Uma foto de Bryan num
terno, recebendo um trofu. De onde estava, no dava para ver a abotoadura.
Voltou os olhos para o velho artigo sobre o tio Pat.
  --  muito legal -- ela disse -- levar um esporte assim em famlia. O artigo
diz que o seu pai era um grande goleiro. Ele ainda est por aqui para ver Bryan
jogar?
  -- No, mas ele o viu menorzinho. Voc est meio interessada no Bryan?
  O tio Pat lhe ofereceu a desculpa que precisava. Ivy fingiu entusiasmo.
  -- Adoraria v-lo jogar!
  -- Bryan recebe ingressos da universidade para os jogos em casa. Pea a ele.
   -- Talvez eu pea -- Ivy disse, dissimulando um sorriso tmido. Foi
andando na direo desejada. -- Esta  uma bela foto dele. Que trofu  esse? --
Perscrutou a foto bem de perto. Com o cotovelo dobrado e as mos segurando o
trofu, as abotoaduras de Bryan estavam bem visveis. Se ampliada, seria uma
prova suficiente? Quase engasgou quando viu a data escrita na etiqueta: a data
do atropelamento.
  -- Ele foi finalista da Northeast Interscholastic Athletic Association.
  NIAA, Ivy repetiu para si mesma, a fim de memorizar isso.
   -- Para chegar to longe, teve que ser eleito o Melhor Jogador do Ano da
Escola de Providence, e no s entre jogadores de hockey, mas entre todos os
atletas.
  -- Impressionante! -- ela leu o texto em branco no canto inferior da foto: D.
L. Pabst, repetindo para si mesma o nome do fotgrafo profissional, a pessoa
que teria o arquivo digital da foto.
  -- Deve ser grande a presso sobre Bryan.
  -- Bem, se existe algum que consegue aguentar isso,  ele. -- O tio Pat
olhou para ela, pensativo. -- Sabe, voc deveria ter essa conversa com Bryan.
Os rapazes, na maioria, ficam lisonjeados com o interesse de uma garota.
  Ivy tentou parecer doce e esperanosa.
  -- O problema  que ele  namorado da minha colega de quarto. Por favor,
por favor, no conte a ele que perguntei dele.
  O tio Pat deu uma piscadinha.
  -- Pode deixar, guardo o seu segredo.
  -- Obrigada pelo tour de fotos.
  -- De nada. Sempre que quiser...
  Ela virou-se para sair.
  -- Ivy -- ele a chamou.
  -- Sim?
  -- Bryan nunca fica com uma garota muito tempo. Voc vai ter a sua
oportunidade.
  A minha oportunidade de coloc-lo atrs das grades, ela pensou.
  -- Obrigada. Espero que sim!
                                                 Captulo 4




U
       m raio dentado cortou o cu da meia-noite e o trovo ressoou. Tristan
       apertou Ivy contra si, embora soubesse que esse instinto de defend-la era
       intil -- o corpo dele no a protegeria de um raio.

  -- Mais uma casa -- Ivy gritou  medida que os pingos de chuva
engrossavam.
   Correram os ltimos metros at a porta da frente dos Steadmans, Tristan
rapidamente na frente, puxando Ivy. Outro raio riscou o cu seguido de um
estrondo de arrebentar os tmpanos. Tristan segurava a lanterna, enquanto Ivy
enfiava a chave na porta. Entraram, batendo a porta em seguida, isolando-os da
tempestade.
  Ivy tocou o brao dele.
  -- Tristan, voc est tremendo.
  Ele deixou a mochila pesada cair no cho. Queria brigar com ela por ter
remado at ele havendo previso de tempestade.
  -- Gregory atacou uma vez, Ivy. Ele vai atacar de novo!
  -- Estamos em segurana agora -- ela disse, envolvendo-o nos braos.
  Estava ensopada at os ossos e, embora ele soubesse como era forte o esprito
dela, o seu corpo parecia frgil. Fechou os olhos. Se ao menos fosse um para-
raios e pudesse afastar dela a vingana de Gregory.
  -- Est tudo bem, Tristan.
  Mas no estava. Fazia quase uma semana que Gregory tinha deixado Beth.
Devia estar planejando alguma coisa -- outro golpe mortal, outra posse da
mente de algum.
   -- Tenho boas notcias -- disse Ivy, envolvendo-o pelo pescoo e se
afastando um pouco para trs, parecendo satisfeita consigo mesma. -- Encontrei
a foto!
  Ela relatou a noite no rinque de patinao.
  -- Posso ligar para o fotgrafo e pedir uma cpia.
  -- E a? -- Tristan perguntou.
   -- Levo-a para a polcia. Eles vo poder requisitar o arquivo digital e ampliar
a imagem.
  Ele balanou a cabea. Ela no estava raciocinando direito.
   -- Mesmo que faam isso, Ivy, no prova que Bryan tinha um motivo para
matar Corinne. Ainda vamos precisar de provas de que ela o chantageava em
relao ao incidente. E se a polcia no fizer uma priso imediata...
  -- Um passo por vez -- ela o interrompeu. -- Vou encontrar essa prova
tambm.
  Ele a puxou para si novamente, colocando o rosto nos cabelos molhados dela.
  -- Vamos -- ela disse suavemente. -- Vamos explorar o lugar.
   O trreo tinha um vestbulo e uma sala grande  direita, com portas de vidro
ao fundo, que Tristan imaginou darem para a Nauset Harbor.  esquerda,
subindo seis degraus a partir do vestbulo, havia uma sala de jantar e uma
cozinha. O claro dos raios iluminava as janelas compridas, como a claraboia no
teto das catedrais. Uma lareira moderna ocupava a parede mais ao fundo. Tristan
acompanhou Ivy pelo primeiro andar, subindo um lance de escadas at os
quartos. Os dois quartos menores pareciam ser os das crianas.
  -- No sei se consigo dormir aqui -- Tristan disse, tentando brincar. --
Prefiro lugares com cheiro de peixe podre e coc de passarinho.
  -- Voc vai se acostumar -- respondeu ela, o sorriso iluminado pela plida
luz da lanterninha da caneta e de repente ofuscado pelo espocar de um raio.
  -- Fique comigo esta noite -- Tristan pediu. -- Pelo menos at a
tempestade parar.
  Ela acariciou-lhe o rosto com o dorso dos dedos.
  -- Por algumas horas. Tenho de voltar antes que os outros acordem.
   Embora exaustos, era estranho se mudar para a casa de algum sem convite e
dormir na cama dessas pessoas, por isso levaram cobertores e travesseiros para a
sala de estar e os espalharam pelo cho. Ivy ajustou o despertador do seu celular
e caiu no sono imediatamente. Tristan ficou com ela entre os braos, ouvindo a
sua respirao suave. A chuva parou, os relmpagos foram produzindo um
trovoar cada vez mais longnquo, e Tristan foi apagando.
   Foi acordado por um barulho agudo. Sentando-se rapidamente, ele virou-se na
direo do vestbulo. Uma centelha de luz azulada movimentava-se na porta da
frente. Ivy se mexeu e abriu os olhos, Tristan colocou um dedo sobre os lbios
dela.
  -- O que foi? -- ela insinuou.
  -- Fique aqui -- ele cochichou, sabendo que provavelmente ela no ficaria.
   Na ponta dos ps, foi at o ltimo dos degraus e viu uma luz azul que se
mexia nas lajotas do vestbulo. A tev estava ligada, sem som. Tristan se
arrastou pelos degraus abaixo. Sentiu Ivy junto de si quando espiou a sala de
estar. Na tela grande, uma boca grotesca abria-se cada vez mais, a cmera dava
um close no que devia ter sido um grito horripilante.
  Vasculhando a sala rapidamente, Tristan viu uma nvoa arroxeada enrolada
como um gato num canto do sof.
  -- Lacey?
  -- Oh -- disse a nvoa arroxeada. -- Eu acordei vocs?
  Tristan ouviu a risada aliviada de Ivy.
  -- O que voc est fazendo aqui? -- ele perguntou.
  -- Assistindo a um vdeo. J que esto acordados, posso at aumentar o som.
-- Ela se materializou lentamente no sof e pegou o controle remoto.
  Tristan deu uma olhada na direo das portas duplas e das janelas.
  -- Lacey,  madrugada e no queremos chamar ateno.
   -- Eu verifiquei as sombras. Elas esto firmes. -- Ela colocou os ps
calados com botas sobre a mesinha diante dela. -- Conhecem esse filme?
Sentem-se. Vo adorar!
  --  voc, no ? -- Ivy perguntou, apontando a tela.
  -- Foi o meu primeiro filme -- Lacey gabou-se. -- Quando fiz o teste, o
produtor disse ao diretor: " No vamos encontrar uma boca deste tamanho em
nenhuma outra garota de nove anos!"
  Por minutos, Tristan assistiu a uma jovem Lacey correndo por sua vida
daquilo que parecia ser uma barata escamosa bombada por esteroides. Pelo canto
dos olhos, viu Ivy verificar a hora no celular, sentando-se depois na outra ponta
do sof.
  -- Jamais imaginei que filmes de horror fossem a sua praia -- comentou
Lacey com Ivy, soando satisfeita.
  -- Em geral, no, mas voc est nele.
  Lacey estava correndo em uma floresta primitiva, com o rosto quase
explodindo de pavor e pnico. Aparentemente, sutileza no fazia parte do estilo
dela.
  -- O que voc acha? -- ela perguntou.
  -- Bastante... dramtico -- Ivy respondeu.
  Tristan se sentou numa cadeira perto do sof.
  -- Voc poderia desligar isso um pouco pra gente conversar?
  -- Consigo conversar assim -- Lacey garantiu.
  -- Mas eu no.
  O anjo assistiu mais um pouco, depois apertou o boto de pausa. Uma
imagem imensa de sua cara de terror ficou congelada na tela.
  -- Lacey, no vimos sinal de Gregory. Voc sabe o que est acontecendo?
  -- No, mas posso imaginar.
  -- Ento, imagine -- Tristan lhe disse.
   -- Depois de seu raio descomunal, ficou fora de cena. Mas vocs conhecem o
antigo ditado: o que no mata, engorda. Ele provavelmente est por a,
circulando,  procura de uma nova mente para possuir.
  -- Ainda que tenha sido mais forte com o raio? -- Tristan perguntou.
   -- S se voc igualar o poder de fritar pessoas -- Lacey respondeu. --
Gregory sempre gostou de exercer o poder manipulando as pessoas, vendo-as
fazer o que desejava. Era assim quando vivo,  assim morto. -- Ela suspirou.
--  um problema comum a todos ns, mortos: estamos acostumados demais a
ter um corpo.
  -- No preciso das mos para mexer nas coisas -- o controle remoto girou na
mesa, ento Lacey estendeu um brao materializado e o fez parar --, mas gosto
delas. Pensar e agir como humanos  um hbito difcil de deixar. Gregory vai
possuir outra mente, uma mente mais dcil que a de Beth, para arrumar um
bom par de mos. Eu garanto que vai.
  -- Preciso impedi-lo -- Tristan disse.
  -- No -- Lacey retrucou --, Ivy faz isso. Bryan  o seu inimigo.  Bryan,
provavelmente, quem vai abreviar o tempo de voc se redimir. Gregory nem
sabe que voc est por aqui. Ele s vai ser seu inimigo se voc permitir.
  -- Ele se tornou o meu inimigo na primeira vez que tentou matar Ivy.
  -- E veja onde voc foi parar: num cemitrio!
  Tristan viu Ivy se retrair.
  -- Desculpe ter que lembr-lo -- Lacey continuou --, mas voc no  mais o
anjo de Ivy. Voc tem uma batalha prpria agora.
  Tristan a ignorou.
   -- Gregory tentou matar Ivy atravs de Beth. Antes, ele tentou na Morris
Island e...
   -- Para ser mais exata -- Lacey o interrompeu --, um carro tirou Ivy da
estrada da ilha.
  -- Gregory estava por trs desse acidente, com certeza!
  -- Nem todo o mal do mundo est ligado a Gregory. O seu amor por Ivy est
cegando voc.
  -- Por favor, Tristan, escute o que ela est dizendo -- Ivy implorou.
  -- Vou escutar quando me disser alguma coisa til, como o que Gregory fez,
o que est fazendo agora, o que planeja.
  Como foi no incio  agora e ser para sempre. Nosso.
  Tristan virou a cabea ao som das palavras sussurradas, depois olhou a cara
de pavor congelada na tev. As vozes o tinham encontrado aqui?
  Ivy o abraou.
  -- Deixe que eu procuro essas respostas, est bem? Me d algum tempo,
Tristan, e vou encontrar tudo o que precisamos saber.
  O alarme tocou no telefone dela.
  -- Preciso ir embora.
  Tristan foi at a porta com ela.
  -- Fique a -- Ivy lhe disse. -- Fique em segurana, por favor.
  -- S um minuto.
  Ele fechou a porta atrs deles e a acompanhou at o caminho de cascalhos.
  -- Ivy -- disse, pousando as mos nos ombros dela --, podemos criar
milhes de teorias sobre a minha redeno, mas uma coisa  certa: o amor 
bom. No existe a possibilidade de o meu amor por voc me condenar.
  Ela ficou um instante em silncio.
  -- Talvez no seja to simples quanto o amor de uma pessoa pela outra.
  -- Como assim?
  -- Talvez se trate de como amamos -- ela disse --, das escolhas que
fazemos.
  Ele estava ficando irritado.
  -- No entendo.
  -- Talvez se trate das atitudes que tomamos, do que fazemos quando
amamos.
  -- Eis o que eu fao -- ele respondeu, beijando-a com o mesmo desejo e
encanto que tinha sentido na noite do acidente na Morris Island.

   Ivy ficou contente por ser o dia de Beth, Kelsey e Will trabalharem no caf da
manh. Ela se sentiria muito tentada a se sentar com um dos hspedes e tomar
um caf. No que no fosse tentador se deitar em uma das camas que estava
arrumando.
   Quando terminou o servio, foi at a praia, planejando recuperar o sono.
Colocou a toalha a metros de distncia do monte de pessoas tomando banho de
sol. Tendo as dunas a distncia e a linha do telhado da pousada e das casas
particulares num horizonte acima da ribanceira coberta de arbustos, ela
alegremente remexeu os dedos do p na areia quente, deitando-se de bruos.
  Beth estava de novo no chal, escrevendo muito para recuperar o tempo
perdido depois de Gregory ter bloqueado a sua habilidade de escrita. Ivy
esperava que ela e Will se juntassem para trabalhar na histria -- por eles
mesmos, no por Philip. Esse foi o seu ltimo pensamento antes de adormecer.
  Algum tempo depois, a voz de Dhanya a acordou:
  -- Por que est to longe?
  Ivy abriu um dos olhos.
  -- S queria ficar longe dos nossos hspedes.
  Dhanya chutou fora os chinelos e estendeu a toalha.
  -- Quase no te vi.
  Eu quase consegui, Ivy pensou e fechou os olhos
  Ivy esboou um sorriso, fechando os olhos.
  Ouvindo o farfalhar das pginas da revista que Dhanya lia, Ivy embarcou de
novo num agradvel cochilo praiano. O som de passos na areia vindo na direo
delas a trouxe de volta  conscincia.
   -- Kelsey me disse para procurar vocs. -- O som da voz de Bryan provocou
arrepios nos braos de Ivy. -- Se vocs tivessem ido um pouco mais longe,
estariam em Chatham.
  -- Ivy queria ficar longe das pessoas -- Dhanya explicou.
  -- Mas no de mim -- Bryan disse, estendendo a toalha ao lado de Ivy.
  Ivy demorou a se virar.
  -- Longe dos amigos, com certeza no. Onde est Kels?
  -- Procurando os culos escuros. Vocs se divertiram no rinque ontem 
noite? -- O tom de Bryan era relaxado, mas os olhos estavam atentos, e Ivy
sentiu-se como se ele a sondasse.
  --  divertido fazer um esporte de inverno no meio do vero.
  -- Ento, temos que repetir logo isso -- Bryan disse. -- Vocs ouviram falar
da festa de Max amanh  noite?
  -- Convenci Chase a ir -- Dhanya respondeu.
   -- E Beth, Will e eu -- Ivy completou, embora no tivesse sido Dhanya a
persuadi-la. Ivy percebeu que a festa seria a oportunidade ideal para revisitar a
cena do crime e entender o que acontecera na noite em que Bryan saiu da festa e
assassinou Luke. Descobrindo o rastro de Bryan, ela saberia onde mais procurar
por indcios contra ele.
  Bryan lhe deu um sorriso sarcstico.
  -- Bom, quem diria! Max vai ficar feliz de voc finalmente aceitar um dos
convites dele.
  -- Imagino que esteja na hora de descobrir o que estava perdendo. L vem a
Kels. -- Ivy acenou para ela.
  -- O que  isso, vamos acampar? -- Kelsey reclamou, jogando as suas coisas
ao lado de Bryan. Estava exibindo novos e estilosos culos escuros.
  Bryan olhou-a por cima dos ombros.
  -- Parecem os meus culos de dirigir.
  -- So mesmo -- Kelsey respondeu. -- Devo ter deixado os meus na casa do
Max. Veja s o que mais achei no seu carro -- ela acrescentou num tom
melindroso.
   Com outra olhada de esguelha, Bryan virou-se rapidamente na toalha. Kelsey
ergueu o brao para longe do alcance dele, provocando-o.
  -- Encontrei no banco de trs.
   O pequeno objeto brilhou  luz do sol, ento Ivy teve uma boa viso da
presilha de cabelo: um distinto tringulo de contas roxas. Ela ficou gelada. Era
de Alicia -- ela a estava usando na primeira vez em que a vira. E devia estar
usando-a tambm na noite em que Bryan a matou.
   -- Fico com ela -- Bryan disse com calma, depois de recuperado do choque
inicial.
  -- De quem ? -- Kelsey perguntou, segurando a presilha atrs das costas.
  -- Ah, Kelsey, entregue isso -- ele disse, estendendo a mo, com a palma
para cima. -- No  sua.
   -- No diga! -- ela respondeu, olhando de novo a presilha e a enfiando no
cabelo. --  de alguma garota com quem voc andou aprontando no banco de
trs do carro.
  Ivy se encolheu diante da verdade por trs das palavras de Kelsey.
  -- Quem  ela? -- Kelsey insistiu.
  Assim que Bryan tentou alcan-la, ela se levantou. Ento, ele agarrou um
punhado dos cabelos dela, mas ela foi rpida e tirou a presilha antes dele.
  -- Pare de fazer cena -- disse ele. -- Na faculdade, dou carona pra um monte
de gente.
   Ivy raciocinava rapidamente. Mais uma prova. A famlia de Alicia a
identificaria. Um fio de cabelo pode ter ficado na presilha. E tanto Dhanya
quanto Ivy ouviram Kelsey dizer onde ela tinha encontrado o objeto.
  -- Fique longe! -- Kelsey gritou. -- Pegue, Ivy! -- Ela jogou a presilha.
   Bryan se virou. Os olhos dele se cruzaram com os de Ivy com uma
determinao que queimava como fogo. Ele quebraria os dedos dela se
precisasse. Mas ela segurou a presilha o mais firme que pde. Suspeitava que
fosse a preferida de Alicia, talvez presenteada por algum de quem ela gostava --
talvez Luke. Ivy no iria soltar.
  Bryan foi na direo dela devagar, de olhos fixos, sem piscar. Ela recuou um
passo, depois outro.
  -- Jogue para mim -- Kelsey chamou, pensando que era tudo brincadeira. --
Jogue para mim de novo!
  Mas Ivy segurou a presilha atrs das costas.  medida que Bryan se
aproximava, ela sabia que no conseguiria -- ela perderia a corrida at a
pousada, mas no conseguia pensar logicamente. Agarrou a presilha como se
pudesse proteger essa coisa preciosa para Alicia e saiu em disparada.
  Bryan no esperava essa reao. Ficou paralisado por um instante. Ento,
correu como um predador, agarrando-a com facilidade e segurando-a com fora.
  Kelsey juntou-se a eles dez segundos depois, o riso j dando lugar  raiva.
  -- Voc no consegue se controlar, n, Ivy? Tem que paquerar.
  -- Eu sei de quem . Vou devolver para ela.
  -- Quem? -- Kelsey perguntou. -- Com quem ele anda?
  -- Uma garota que confiou demais.
   --  seu, no ? -- Kelsey acusou Ivy. -- Por isso tem dado umas
fugidinhas  noite.
  -- O qu?!
   Bryan soltou o aperto que machucava, com um sorriso zombeteiro
iluminando o seu rosto.
  -- Dando umas fugidinhas, Ivy? Visitando algum que eu conheo?
  -- Kelsey, voc j me viu com isso? -- insistiu Ivy. -- Voc j viu alguma
coisa parecida com isso na minha mesa ou no meu porta-joias?
  Kelsey xeretava a mesa de todo mundo, assim como xeretou o carro de
Bryan, para ver se havia alguma coisa que poderia pegar emprestado. Pensou um
pouco.
  -- A... acho que no. -- Voltou-se para ele com um sorriso conspiratrio. --
Vou contar at trs: fao ccegas, voc pega.
  Bryan jogou Ivy no cho to depressa que ela ficou sem flego. Kelsey lhe fez
ccegas, mas foi a fora dos dedos dele que conseguiu abrir sua mo. Ivy
mordeu a mo dele. Por um instante, ele soltou, mas Kelsey agarrou a presilha.
   Ela saiu correndo, segurando-a no ar como um trofu, olhando para trs para
ter certeza de que Bryan a seguia. Ele a perseguiu e a ergueu no ar. Ivy viu
Kelsey rindo e gritando quando ele jogou-a em suas costas e a levou para a
gua. Ela gritava e chutava, mas ele tinha fora suficiente para carreg-la direto
at depois da arrebentao. Virando-se para encarar Ivy, ele gargalhou.
   Ivy teve vontade de vomitar ao v-lo brincando de carregar algum para a
gua. Quando viu o brao de Bryan arremessando um objeto bem longe no mar,
ela sabia que era a presilha.
  Ele e Kelsey nadaram de volta a uma profundidade que dava p. Ele a puxou
em um beijo apaixonado.
  Com as mos trmulas, Ivy juntou suas coisas.
  Dhanya, que tinha presenciado o espetculo, virou-se para ela com um olhar
surpreso.
  -- J vai? Ivy, voc no est mesmo interessada no Bryan, est?
  -- No. -- Sua raiva e frustrao fizeram a voz soar entrecortada. -- Bryan
definitivamente no  o meu tipo.
  -- No achei mesmo que fosse. Mas ele  o tipo que trapaceia -- Dhanya
observou. -- De quem voc acha que era a presilha?
  Ivy sacudiu a cabea.
  -- Eu s estava brincando -- disse, e ento comeou a fazer o longo caminho
pela areia.
  Dhanya e qualquer outra pessoa que tivesse presenciado o que acabara de
acontecer no teria visto nada alm de um flerte de Bryan. Ivy via um assassino
que no se importava em arrancar o corao das pessoas e depois jog-las no mar
como conchas quebradas.
                                                 Captulo 5




N
        o sbado  noite, quando Ivy, Will e Beth chegaram, a festa estava a
        toda. Ivy quase no conseguiu estacionar no gramado em frente a casa de
        Max. Ela tinha se oferecido para dirigir naquela noite e Beth rapidamente
escolheu o banco da frente. Talvez tenha percebido a necessidade de Ivy de fazer
o mesmo percurso que tinham feito na noite do acidente, passando pelo mesmo
lugar sem ficar assustada.

   Agora, tendo cumprido com xito o primeiro desafio de sua lista, Ivy
acompanhava os amigos pela lateral da casa dos Moyers, seguindo a luz viva
das lmpadas e a pulsao da msica da festa. Will assobiou de admirao ao
reparar no lugar e em sua vista panormica. A casa de Max, retangular e
alongada, dava para o mar. Com deques superior e inferior que acompanhavam a
largura da casa, com uma balaustrada branca e luminrias redondas, ela lembrava
um navio de cruzeiro atracado no porto. Mas faltava o que Ivy mais queria ver.
  -- No tem cais.
  -- Voc no  nada exigente! -- Will provocou.
   Acompanhando Will e Beth, Ivy subiu um lance de degraus que levavam ao
deque superior, pelo qual a festa se espalhava e lotava as salas que davam para
ele. Deixando Will e Beth jogando pingue-pongue na primeira sala, que
tambm tinha sinuca e um Wii, Ivy vagou pelo meio das pessoas, voltando ao
deque. Em uma noite como esta, pensou, Bryan tinha sado para matar Luke.
  -- Ivy! Voc veio! -- Max chamou-a de onde estava, empoleirado na
balaustrada a alguns metros. -- Achei que tivesse mudado de ideia.
  Ela sorriu e foi at ele.
   -- Voc joga alguma coisa? -- ele perguntou. -- Na sala ao lado tem um
videogame e uma mquina de pinball. E h um filme em 3D no salo, perto da
sala de jantar.
  -- Na verdade, eu queria andar at a praia -- Ivy lhe disse.
  Naquele momento, apenas dois barcos pequenos estavam ancorados no mar,
balanando-se  luz da lua. Onde estaria o resto da frota de Max?
   -- Quer companhia? -- Max saltou ligeiro no deque. Depois de arrumarem
dois refrigerantes, andaram num silncio gostoso ao longo do caminho de
taliscas de madeira. A propriedade dos Moyers se esparramava at a praia e os
convidados estavam espalhados em uma srie de terraos ajardinados.
  Se Bryan tivesse sado daqui com Luke, no haveria testemunhas? Ivy
pensou. Duas pessoas saindo e s uma voltando, algum tinha que ter
percebido.
  -- Aqueles barcos ali so seus? -- ela perguntou.
  -- O barco a vela  de um amigo do meu pai. Usamos a lancha como txi.
Os nossos outros barcos esto numa marina na barragem, onde ficam melhor
protegidos.
 Protegidos de outras coisas alm de tempestades, Ivy pensou, desapontada.
Mas talvez a marina tivesse cmeras de segurana.
  -- Quando sairmos, voc pode usar o barco que quiser -- ele acrescentou.
  -- Quanto tempo um barco leva da marina at a Lighthouse Beach? -- ela
perguntou.
  Max se virou para ela curioso.
  --  para l que quer ir?
  Foi l que " Luke" desaparecera. Ivy procurou uma desculpa.
  -- No tem umas focas l?
 -- Mais no inverno. Mas podemos ir at l se quiser, descendo at o
Monomoy e subindo pela South Beach at o farol.
  -- timo!  longe? Quanto tempo levaria para chegar l, no farol?
  -- De motor em vez de vela, uma hora.
   Uma viagem de duas horas para Bryan, ela pensou. E ainda mais se
acrescentasse a luta e o descarte do corpo, mais a limpeza na marina. Max no
teria notado que o seu grande amigo tinha sumido fazia tempo?
  -- Tenho a segunda livre -- ele ofereceu.
  -- Seria timo!
   Enquanto andavam pela praia, Max contou a Ivy dos lugares diferentes onde
tinha velejado.
  -- Voc costuma navegar  noite? -- ela perguntou.
 -- s vezes, com Bryan. Ele gosta de pescar  noite, mas  preciso ficar
muito atento ao navegar nesse horrio.
  Ivy imaginou que Bryan tenha ficado bem atento, prestando ateno em tudo
o que Max fazia para aprender a manejar o barco encoberto pela escurido.
  Eles retomaram o caminho at a casa. Duas pessoas esparramadas na grama
chamaram Max.
  -- Festa maravilhosa! -- comentaram.
  Mas outras quatro passaram por eles sem nem se voltar.
  -- Max, voc realmente conhece todo mundo aqui?
  Ele riu e tomou um gole de refrigerante.
  -- Acho que nem a metade sabe que sou o dono da festa. s vezes, me canso
do barulho e vou embora, as pessoas continuam.
  -- Quando Beth e eu nos envolvemos no acidente, voc estava na sua festa?
  Max pareceu tenso, a pergunta o pegou desprevenido.
  -- Sim, estava por l.
  -- E Bryan?
  Max olhou em volta. Talvez para ver se mais algum iria ouvi-lo, Ivy
imaginou. Talvez estivesse refletindo sobre a resposta e procurando pelas
palavras que no denunciariam nada.
   -- A polcia entrevistou um monte de gente da festa -- ela continuou. -- Eu
li o relatrio.
  O olhar de Max demonstrava que ele acreditou em sua mentira -- ele achou
que ela sabia quem estivera presente durante a investigao da polcia.
  -- Bryan no estava aqui na hora -- ele confessou.
  -- Com todos esses convidados, como voc ia saber?
  -- Porque... eu procurei por ele.
   -- Ah, ento o Bryan tambm sai das festas s vezes. Ele empresta o seu
carro e sai por a? Ou o seu barco?
  Max levou um tempo para responder.
  -- Acho que o gelo tinha acabado e ele foi buscar mais.
  Bryan teria se ausentado muito tempo, mais do que levaria para buscar gelo,
pensou Ivy. Max ignorava isso ou estaria acobertando Bryan?
  Ela insistiu um pouco mais:
  -- Ele foi de carro ou de barco? Imagino que na marina eles vendam gelo,
ento ele pode ter pegado o seu txi.
  -- No me lembro bem, Ivy. Bebi muito naquela noite.
  Fizeram o resto do caminho num silncio constrangedor. Quando algum os
chamou de um banco escuro, Max se sobressaltou.
  -- Oi, Chase -- Ivy respondeu, ouvindo Max soltar o ar lentamente.
Acompanhando o olhar de Max at o deque acima deles, ela viu Bryan na
balaustrada, observando-os.
  Max se remexeu, alternando o peso de um p a outro.
  --  melhor eu dar uma olhada nas coisas.
  -- Claro. Alcano voc depois -- Ivy disse, esperando no ter colocado Max
em perigo. Virou-se na direo de Chase.
  Ele estava sozinho, sentado no banco com as pernas esparramadas, os braos
dobrados atrs das costas, parecia perdido, como ela jamais o vira antes. Ao se
sentar, Ivy sentiu o cheiro de lcool -- alguma coisa mais forte que cerveja,
pensou. Um copo vazio estava virado embaixo do banco; Chase sacudia um
segundo copo nas mos.
  -- Est se divertindo? -- ele perguntou a Ivy, tomando um generoso gole.
-- Com quem veio hoje?
  -- Beth e Will.
  -- No arrumou companhia?
  Ivy riu um pouco da insinuao.
  -- No quis nenhuma.
  -- Porque ainda est ligada ao... como  o nome dele? -- Chase palpitou. --
O cara que gosta de matar as antigas namoradas.
  Ivy se sentiu alfinetada.
  -- Se est se referindo a Luke, ele foi acusado de matar a antiga namorada.
  -- Acusado -- Chase a imitou, rindo. -- Obviamente, ainda est ligada nele.
  -- No.
  Chase tentou erguer uma sobrancelha, mas sua bela fisionomia estava cada
por causa do lcool.
  -- Luke no  quem eu pensei que fosse.
   -- Mesmo assim, as meninas gostam de caras perigosos. Acham emocionante
tentar dom-los.
  -- No esta aqui -- Ivy respondeu.
  -- Onde ele est? -- A pergunta dele soou como uma ordem.
  -- No sei.
  -- Onde voc acha que ele est? -- Chase insistiu.
  Ivy se inclinou, encarando Chase de frente.
  -- Em nenhum lugar aqui perto, se tiver algum crebro.
   -- Mas em nenhum lugar muito longe -- Chase contraps. -- No se voc o
fisgou.
  Ivy se recostou.
  -- Tanto faz. Deixo esse mistrio para a polcia resolver.
  -- Que mistrio  esse?
  A voz profunda de Bryan sobressaltou Ivy. Cruzando o gramado atrs deles,
em vez de andar na trilha, ele provavelmente quis surpreend-la.
  -- Oi, Bryan -- ela o cumprimentou da maneira mais natural possvel.
  Segurando no encosto do banco, inclinando-se para a frente, ele se ergueu
sobre a cabea de Ivy e Chase.
  -- Ento, que mistrio esto tentando resolver?
  -- Chase  quem est tentando -- ela respondeu.
  -- Onde seu velho amigo est escondido -- Chase repetiu. -- O que voc
acha?
  -- Luke? Ele no  mais meu amigo.
  -- Imagino que no -- Chase sorriu --, agora que se virou contra ele!
  -- Ele j foi meu amigo -- Bryan continuou, calmamente. -- Portanto, no
quero saber onde est. No quero ficar tentado a entreg-lo.
   Ivy ficou arrepiada de ouvir como Bryan parecia sincero, fazendo de conta que
estaria dividido entre uma velha amizade e a responsabilidade tica.
  -- Fico imaginando se h alguma recompensa -- Chase disse.
  Ivy ergueu os olhos e viu os olhos de Bryan se arregalarem ligeiramente. Ele
pousou uma mo firme no ombro de Chase.
  -- Se eu fosse voc, ficaria bem longe disso. -- O tom do conselho parecia
uma ameaa. -- Tem gente que faz qualquer coisa para no ser pego. -- Ento,
ele riu alto e Chase o acompanhou na gargalhada.
  -- Onde est Kelsey? -- Ivy perguntou.
  -- Vai saber! -- Bryan respondeu. -- Entornando uns drinques por a.
  Ivy levantou-se, feliz de Kelsey no estar grudada em Bryan, mas preocupada
por no saber onde ela estaria.
   Voltando para a casa, ela vasculhou o deque e as duas salas de jogos, depois,
enfiou-se no salo escuro do cinema e, em seguida, verificou a sala de jantar e a
cozinha. Nada de Kelsey. Saiu de novo pela porta de correr da cozinha. A ltima
sala iluminada no deque era deslumbrante. As estantes de vidro e a madeira
laqueada de preto brilhavam, a moblia refletia o mrmore preto e branco do
cho bastante polido. Uma variedade de vidros coloridos sobre a cornija da
lareira chamou a ateno de Ivy, mas ela no viu Kelsey de imediato. Ento,
vendo-a se curvar num canto, Ivy rapidamente abriu a porta.
  -- Voc est se sentindo bem? -- perguntou, apressando-se na direo dela.
A cabeleira vermelha de Kelsey cobria parte de seu rosto. Ivy puxou-a para trs.
-- Kelsey, voc est bem?
  Kelsey massageou as tmporas, olhando para Ivy com olhos apertados.
  -- Dor de cabea? -- Ivy perguntou.
  Kelsey assentiu, fechando os olhos por um instante.
  -- E o estmago?
  -- Enjoado. Acho que  isso o que acontece com minha me quando ela tem
enxaqueca.
  -- O que voc bebeu?
  -- Uma margarita. Uma! No faa sermo.
  -- Tudo bem. O que eu fao ento?
  -- Voc pode me levar para casa?
  -- Voc est passando mal mesmo! -- Ivy disse, pousando a mo
gentilmente no ombro dela.
   Ela rapidamente enviou mensagens para Beth, Will e Dhanya, avisando que
ia levar Kelsey para casa e voltaria para busc-los. No queria que pegassem uma
carona com Chase nem Bryan. Ento, ajudou Kelsey a se levantar.
  -- Vamos embora!
  Uma sombra  porta interrompeu-as.
  -- Onde esto indo?
  Ivy olhou Bryan por cima do ombro.
  -- Kelsey no est se sentindo bem.
  -- Que novidade -- ele respondeu secamente. Andou at elas e virou
rudemente o rosto de Kelsey na sua direo. Ivy queria lhe dar um empurro,
mas sabia que era melhor no tomar nenhuma atitude que pudesse provoc-lo
(ou provocar Kelsey).
  -- Voc bebe demais -- ele disse. -- No tem controle.
  Kelsey se afastou dele.
  -- Mas no bebi, no hoje.
  -- Vamos -- disse Ivy a colega. -- Vou levar voc para casa.
  Bryan reteve Ivy com a mo.
  -- Eu levo.
  -- Vou para l de qualquer modo -- Ivy disse, afastando a mo dele. No iria
deixar que ele sasse mais uma vez com uma garota que ele temesse estar fora de
seu controle.
  Bryan enfiou-se entre Ivy e a colega.
  -- Bom, Kelsey, se  o que voc quer -- ele a alfinetou. -- Kate est aqui,
lembra-se dela? A vizinha de Max. E a gostosa da Sophie. Eu no me importo.
  -- Claro que no -- Kelsey respondeu, desanimada.
   Bryan lanou um olhar suspeito para Ivy, como se ela tivesse culpa pela
incapacidade dele de alimentar o cime de Kelsey.
  -- No sei onde est a minha bolsa -- Kelsey disse para Ivy, parecendo
perdida.
   -- Tudo bem -- Bryan respondeu depressa. -- Ivy e eu vamos procurar por
ela.
  Antes que Ivy desse um passo, Bryan a agarrou. Ela sentia a presso dos
dedos dele no brao, enquanto ele a forava a segui-lo at o saguo, arrastando-a
em seguida para dentro de um cmodo, um escritrio. Ele a emparedou contra
um armrio de arquivos.
  -- Tnhamos um acordo.
  -- Um acordo que mantive -- Ivy respondeu.
  -- Ento, o que deu nela?
  Ivy deu de ombros.
  -- s vezes, as pessoas passam mal.
   -- No, tem mais coisa a. -- Bryan vasculhou a expresso de Ivy, com o
rosto to prximo que ela conseguia sentir o seu hlito de cerveja.
  -- No estrague tudo agora, Bryan. Voc pegou leve com Chase.
  -- Idiota, sempre interferindo!
  -- No tenha um chilique na primeira vez que a sua namorada fica chateada
com voc -- ela disse. -- Achei que fosse mais frio.
  Bryan se afastou, com os olhos ainda fixos nela.
  -- Se estiver mentindo, vou descobrir.
  -- Eu sei, por isso no estou. Agora, me deixe levar a Kelsey antes que ela
vomite.
   Ivy se esquivou dele e, para seu alvio, viu Beth e Will correndo na sua
direo. Ao mesmo tempo, recebeu uma mensagem de texto de Dhanya: " Chase
est irritante. Espere por mim. Estou com a bolsa da K."
  Os cinco foram para casa em silncio. Quando Dhanya e Beth levaram Kelsey
para a cama, Will deixou-se ficar na entrada para saber se Ivy estava bem.
Depois foi para o seu quarto.
   Ivy tinha tantas coisas na mente para ponderar que no quis se reunir aos
demais. E estava ansiosa para que fossem logo para a cama, a fim de que
pudesse escapulir at Tristan. Sentou-se no balano por alguns minutos,
empurrando-se para a frente e para trs, depois andou pelo passeio do grande
jardim da pousada. Naquela noite,  luz da lua, o quintal reluzia como uma tela
de seda preta e branca.
  Beth saiu pela porta do chal.
  -- Como est Kelsey?
  -- No muito bem, mas no est piorando.
  Beth se juntou a ela no meio do jardim.
   -- Ivy -- ela disse --, quando Gregory estava possuindo a minha mente, eu
tinha dores de cabea como essa.
  Ivy assentiu e disse:
  -- E Chase teve dores do mesmo tipo duas noites atrs, no rinque de
patinao.
  -- Voc acha que  Gregory experimentando hospedeiros?
   -- No sei. -- Ivy remexia com o dedo o delicado broto de uma flor. -- Me
espanta que Gregory tente possuir um deles, sendo que tem alvos mais fceis
disponveis.
  -- Como Dhanya ou Max -- Beth disse. -- Tambm andei pensando nisso.
No consigo entender Max muito bem... tem alguma coisa no jeito de me
olhar... -- Beth deu de ombros. -- Mas acho que para os propsitos de
Gregory, Dhanya talvez seja fcil demais. Ela  suscetvel a qualquer um que lhe
diga o que fazer, o que  uma dificuldade para quem quer ser o nico no
comando. E Gregory quer.
  -- Nunca pensei por esse ngulo.
  Elas continuaram caminhando pelo passeio do jardim.
   -- Chase pode no parecer o melhor candidato, pois enfrentaria Gregory no
incio -- Beth admitiu. -- Mas Chase  carente e ambicioso. Pessoas carentes
sempre so vulnerveis. E pessoas ambiciosas podem ser seduzidas, pois
querem algo que no tm.
  -- Gregory saberia jogar com essa combinao -- Ivy concordou baixinho.
   Chegando  pousada, elas circundaram a beirada do jardim. Beth parou no
caramancho de margaridas-do-campo, pegando com a mo um boto para
cheirar. Ivy sabia que essa trepadeira era a preferida de Beth pela potica razo de
suas grandes flores brancas comearem a abrir ao entardecer, quando o resto do
jardim j ia murchando.
  Beth se aproximou de Ivy e baixou a voz.
   -- Tristan est por perto, no est? -- Foi mais uma afirmativa do que uma
pergunta. -- E voc tem algum motivo para no contar a mim e a Will onde ele
est.
  Ivy se debateu uma vez mais com o assunto.
  -- Saber  perigoso, Beth.
  -- Mas ns podemos ajudar voc -- ela insistiu --, se voc nos deixar.
  Ivy balanou a cabea.
  -- Ainda no. Sei que posso contar com vocs quando pedir. -- Ivy no
gostaria de precisar; seus amigos j tinham sofrido o suficiente.
   -- Will e eu falamos de voc ontem  noite -- Beth contou. -- Queremos
que use a minha ametista. Ela me ajudou, talvez ajude voc. -- Com uma mo,
ela puxou a delicada corrente at chegar no fecho e o abriu. -- Vire-se.
   Ivy sentiu o diminuto peso do pingente contra o peito. Lgrimas inesperadas
arderam em seus olhos. O presente de Will e Ivy a Beth, um sinal de seu amor,
tinha se tornado o presente de Will e Beth a Ivy.
  Beth puxou Ivy gentilmente pelo ombro.
  -- A est. Ficou timo. -- ela sorriu.
  Por um instante, Ivy sentiu o sossego que s se tem na presena de um
amigo que pode ler o seu corao.
 -- Vou para a cama -- Beth disse. -- Diga a Tristan que Will e eu
mandamos lembranas.
                                                  Captulo 6




I
   vy no ligou para Tristan antes de chegar  interseco da Cockle Shell Road
   com a Nauset Heights.

  -- Oi -- ela disse --, acordei voc?
  -- No. J ia comear a ver o filme de Lacey.
  Ivy sorriu.
  -- Deixe bem baixinho ou no vai me ouvir assobiando pelo Billy Bigelow.
  -- Voc est vindo?
  A alegria na voz dele falou direto ao corao dela.
  -- Sim, a p. Chego em trinta minutos.
  Uma viagem de caiaque e um quilmetro pela Nauset Harbor, em vez dos
quase quatro quilmetros por terra, seria bem mais rpida, mas como j tinha
usado esse caminho duas vezes, Ivy no quis chamar a ateno remando mais
uma vez  noite. Carregando uma mochila cheia de suprimentos, ela andava
animada, seguindo uma rota circular por trs ruas at o outro lado da enseada.
   Ao sair da Beach Road para a Brick Hill, fez uma pausa para mudar o peso da
mochila. Foi quando ouviu um suave barulho de folhas amassadas, um passo
ligeiro recuando pelas moitas ao longo da estrada.
  O corao de Ivy palpitou. Bryan? Ou seria Chase possudo por Gregory,
seguindo Ivy para encontrar o seu " novo" amor?
  Combatendo a urgncia de ser virar, ela andou firme, como se no tivesse
ouvido nada, mas pensando rapidamente em quem a estaria seguindo e por qu.
  As luzes de um carro iluminaram a rua e Ivy rapidamente se escondeu atrs de
um amontoado de arbustos. Esperou at no mais ouvir o motor, antes de sair
do esconderijo. Entre o cricrilar dos grilos, ela ouviu o rangido de pedras
quando o seu perseguidor pisou na beirada do asfalto.
   Quando Ivy saiu do chal, fez um caminho pelo bosque entre a casa de tia
Cindy e a rua principal. Portanto, quem a estava seguindo j tivera oportunidade
de a agarrar. E, ela sabia, tinha outra oportunidade perfeita agora que ela passava
pelo Ice House Pond, num trecho escuro de rua. No iria machuc-la porque
primeiro queria ver para onde ela ia.
  Aproximou-se de uma rotatria conhecida. A rua que virava  direita levava a
Tristan; Ivy pegou a da esquerda.
  Verificando a posio da lua, ela tentou se lembrar do desenho das ruas. Em
um mapa, Nauset Harbor se parecia mais com um rio do que com uma enseada,
dobrando-se em si mesma ao serpentear pelo interior, transformando-se em
Town Cove, com casas ao longo da costa e uma srie de jardins pblicos. Ela
tomou aquela direo.
  Queria muito encarar quem a perseguia. A tenso de continuar calmamente
abalava os seus nervos e transformava o medo em raiva. Ficava lembrando a si
mesma que o importante era a segurana de Tristan. Em vez de confrontar tinha
de enganar a pessoa que o procurava.
   Estava perto da angra agora e comeou a procurar pela casa certa, uma com
venezianas fechadas, sem carro nem luzes, um lugar onde um fugitivo se
esconderia. Comeou a pensar que seria impossvel, ento a viu -- perfeita, com
a grama crescida e um anncio enfiado na porta. Ivy circundou a casa e colocou
o pacote de suprimentos nos degraus do fundo. Depois de trs pancadas secas na
porta, ela se apressou, esperando ganhar distncia suficiente para se virar e
observar quem a seguia.
  Ela havia descido alguns metros rua abaixo, quando um alarme tocou. Ivy se
virou e viu as luzes piscando. A casa onde tinha deixado a mochila tinha
alarme! O seu perseguidor provavelmente forou uma janela. As luzes da
vizinhana se acenderam. Ivy riu consigo mesma e tomou o rumo de casa.
   Correu o tempo todo, imaginando que o seu perseguidor tivesse disparado em
direo ao prprio porto seguro. Sabia que Tristan ficaria preocupado. Assim
que chegou ao estacionamento da pousada, apoiou-se no carro e tirou o celular
do bolso.
  Um galho estalou sob seus ps. Ela se virou.
   -- Oi, Ivy -- disse Chase, saindo do meio das rvores. Ele estava sem
flego. Imaginou que tinha feito o caminho pelo bosque, enquanto ela ficou nas
ruas principais.
  -- Chase! -- Ela o estudou, procurando por indcios de que Gregory o teria
possudo. -- O que est fazendo aqui?
  -- Seguindo voc.
  --  mesmo? -- ela perguntou com alegria fingida. -- Ento est de volta
onde comeou. -- Deslizando o telefone no bolso, ela tateou as chaves. A chave
do carro tinha um boto de alarme.
  -- Ivy, se continuar a levar coisas para Luke, mais cedo ou mais tarde a
polcia vai alcanar voc.
  -- Principalmente se voc contar a eles -- ela disse.
  -- Posso ajudar voc, Ivy.
  -- No, obrigada.
  Ela foi passando por ele, mas ele puxou-a pelo cinto. Era um dos hbitos de
Gregory. Ivy ficou arrepiada.
  -- Seria mais seguro para voc se trabalhssemos juntos -- ele falou.
   Os olhos dele estavam normais, mas a voz... Era isso, ela percebeu. O mal
estava na voz dele. Mas ela continuou a falar com ele como se fosse apenas
Chase:
  -- Luke  suspeito de assassinato. No recomendaria que o ajudasse.
   -- Eu gostaria muito -- ele respondeu. -- Sou grande admirador de
assassinos, em especial dos que fazem isso com paixo. So poderosos. Com as
prprias mos, espremem a vida, mesmo de pessoas que amam. -- Chase
lentamente flexionou os dedos, estudando-os, depois sorriu para Ivy. --
Admita, Ivy, voc gosta de garotos maus. -- Aproximou o rosto do dela.
  Ivy se afastou, revoltada.
  O riso dele era spero.
  -- Est bem -- ele disse. -- Pode fingir, se quiser, que eu no sei o que
existe em voc e que voc no sabe o que h dentro de mim. Mas no esquea
nunca: eu conheo voc, Ivy, os seus sonhos secretos, seus medos secretos...
conheo a parte mais ntima de sua alma.
  Ivy cruzou os braos, sentindo-se exposta, tanto de esprito quanto de corpo.
  -- Deixe Luke fora disso -- ela disse. -- Isso  entre mim e voc, Gregory.
   O sorriso falso sumiu. Por um instante, os olhos que Ivy encarou pareciam
to vazios quanto os buracos de um crnio do cemitrio. Sentiu-se como se
espiasse o inferno.
  -- At outro dia -- Gregory disse, indo embora.

   -- Em Chase! -- Tristan repetiu ao telefone. -- Ivy, voc est bem? -- Ele
tinha passado a ltima meia hora andando de um lado para outro, sabendo que
havia algo de errado. No era normal Ivy se atrasar e no avisar. -- Onde voc
est? Vou me encontrar com voc.
  -- No, est tudo bem mesmo. Estou do lado de fora do chal. Consegue
sobreviver com as coisas que tem?
  Tristan deu uma olhada na pilha de doces no armrio.
   -- Claro. Uma das crianas deixou uma reserva de chocolates e barras de
granola.
  -- No deixaram nada melhor nos armrios da cozinha?
   -- Melhor que chocolate e castanhas? -- Tristan suspirou ruidosamente ao
telefone. -- Vou dar uma olhada.
  Ele ouviu Ivy rir. O corao de Tristan tinha finalmente parado de bater de
medo. Sentando-se no sof, ele observou o vdeo mudo com Lacey correndo em
uma casa cheia de esquilos de aparncia bizarra.
   -- Gregory no parece ter ideia de que voc est no corpo de Luke -- Ivy
disse a Tristan. -- Ele me falou sobre a admirao que tem por assassinos.
Talvez ache que eu tenho bom gosto pra escolher garotos.
  Tristan riu spero.
   -- Mas voc sabe como ele funciona -- Ivy continuou. -- Ele vai atrs de
qualquer um que tenha intimidade comigo. Voc deve ser o nmero um da lista.
Ou, talvez, j que imagina que voc  um assassino, esteja procurando um
aliado. De qualquer modo,  s uma questo de tempo para que encontre voc.
  -- No vejo a hora -- Tristan respondeu. -- Estou tentado a fazer um longo
passeio pela praia a oeste da igreja.  onde fica a casa dele, certo?
  -- Tristan, no! Nem brinque com isso.
   Tristan amassou um papel de bala em uma bolinha. Horas e horas, dias e
dias, esperando, incapaz de fazer alguma coisa...
  -- Tristan?
  -- Eu ouvi voc.
  Ele falou de modo rude; o silncio repentino dela indicava isso.
  Tristan levantou-se, subiu os degraus que davam para a cozinha e comeou a
abrir os armrios, vasculhando o interior deles com uma lanterna.
  -- Um monte de coisas saudveis aqui -- ele disse ao telefone. -- Atum,
macarro, latas de sopa. No se preocupe.
  -- timo. -- Ela pareceu aliviada. -- Escute, a mame, Andrew e Philip vo
chegar amanh na pousada, s por uma noite, antes de seguirem para Boston.
Vai ser um pouco mais complicado.
  -- Eu sei. Quero que fique em segurana e se divirta com Philip.
  -- Amo voc, Tristan. -- A voz dela tremeu.
  -- Amo voc, Ivy. Sempre.
  Depois de desligar, Tristan abriu uma lata de atum, comeu um pouco e
guardou-a na geladeira. Ento, foi com a lanterna at a sala e iluminou um
extico mapa ilustrado, pendurado em cima de uma cmoda. Traando as ruas
com um feixe estreito de luz, ele localizou a antiga igreja, a praia onde Mike
Steadman tinha sido fulminado e a praia particular a oeste, onde Gregory mora
agora.
  Era perto o suficiente para ir a p.
                                                 Captulo 7




Desenhe isto -- Philip instruiu Will. -- Ivy com essa roupa de lantejoula.
  Beth ergueu os olhos e sorriu.
  -- Gosto dessa descrio.
  Ivy passou os dedos pelo monte de algas marinhas que Philip tinha arrumado
com capricho em sua cabea.
  -- Assumo que sou o vilo desta histria.
  --  mesmo -- Will disse, desenhando rapidamente. -- Mas vou mudar o
nariz e ningum vai reconhecer voc.
   Beth riu. O lpis dela tambm no parava de se mover desde que tinham
estendido as toalhas na praia. De onde Ivy estava, achava que via poemas, no
histrias, mas Beth escondia o caderno com o corpo, ento era difcil para
qualquer um ler.
   A me de Ivy, seu padrasto e Philip tinham chegado ao meio-dia, e Ivy
juntou-se a eles depois do trabalho. Tinham acampado atrs das dunas, numa
ponta de areia alongada no final de Nauset Beach, de frente para a enseada e no
para o oceano. A mar estava baixa, expondo charcos, cuja brilhante superfcie
molhada refletia o cu azul, as nuvens e o lindo dia de vero. A tia Cindy tinha
arrumado para Philip ferramentas e um balde para mariscos, com a promessa de
lhe mostrar como fazer uma mariscada.
  -- Pronto, campeo? -- perguntou Andrew, pegando os ancinhos.
   A me e o padrasto de Ivy tinham acabado de voltar de um passeio -- de
mos dadas, o que fez Ivy sorrir. Beth os encarou por um instante e em seguida
rabiscou algo, provavelmente sobre amor depois dos quarenta.
  -- No se esquea do balde, Philip -- disse Andrew.
  Ivy observou o seu padrasto e o seu irmo andando lado a lado at os charcos.
  -- Philip anda igualzinho ao Andrew.
  A sua me, depois de muita arrumao, aquietou-se na cadeira de praia.
  --  verdade.
  -- Como isso pode acontecer? Eles no tm o mesmo fsico.
  A me sorriu.
  --  o amor, no o nascimento, que forma a criana.
  Uma hora depois, Ivy tentou catar mariscos e Philip ficou ansioso para lhe
mostrar como devia fazer. Ela percebeu em suas instrues uma semelhana com
Andrew.
  -- V devagar. Percebe as estrias? Estique os dedos assim. Pronto.
  Ivy achou graa na imitao infantil da rouquido da voz de Andrew.
  -- Cave cada lado com os dedos. Solte o marisco -- Philip lhe explicou.
  Com as mos cobertas de areia preta, Ivy mostrou o seu trofu.
  Philip ergueu o punho em triunfo, coisa que Andrew no fazia.
   Quando o balde ficou cheio de mariscos, Andrew e a me o levaram para a
pousada. Ivy e Philip pegaram o caiaque de dois lugares. Philip, remando na
frente, cantava como um pirata bbado e levantava a cabea olhando o cu.
  --  to profundo -- disse.
  Ivy olhou para cima e sorriu. Sempre pensava no cu como estando no alto,
mas gostava de pensar nele como sendo profundo como o mar.
  Philip deixou o brao cair na lateral do caiaque. Os raios de sol refletidos pela
gua danavam nas suas bochechas macias.
  -- Queria saber at onde vai o cu.
  -- Por qu?
  -- Porque a ia saber quanto tempo leva para Tristan ir e voltar.
  Ivy parou de remar.
  -- Como assim?
  -- Para que eu esteja em casa da prxima vez que ele aparecer.
  Ela quase deixou o remo deslizar para a gua.
  -- Como assim " da prxima vez"?
   -- Eu acho... eu tenho quase certeza de que ele esteve em nossa casa enquanto
estvamos fora.
  -- Por qu?
  -- Porque sente a minha falta.
  Ela deu uma risadinha, mas o seu corao batia rapidamente.
   -- Claro que sente, Philip. Mas por que voc acha que ele esteve na nossa
casa? Tristan foi para a Luz, lembra?
  -- Bom, foi isso o que a gente disse -- o irmo dela respondeu. -- Mas me
parece que estvamos errados.
  " Me parece", outra das expresses de Andrew.
  -- Mark Teixeira estava fora do lugar -- Philip continuou. -- No meu jogo
de beisebol, as bases estavam completas e Mark Teixeira estava como batedor.
   Philip se referia s suas cartas de beisebol. Ivy tinha visto Tristan mexer nas
cartas e lhe dissera que Philip nunca se esquecia de onde posicionava os
jogadores.
  -- Algum fez Mark marcar um grand slam. Tristan faria isso.
  Ivy deixou o barquinho seguir com a correnteza. Deveria contar a verdade a
Philip? Para ela, a conscincia de que Tristan estava ali entre eles sobrepunha-se
a todos os riscos. Mas o que seria melhor para o seu irmo?
  -- No poderia ter sido Lacey?
   -- No, ela no gosta de beisebol. Queria que Tristan tivesse esperado at
que eu voltasse -- Philip suspirou. -- s vezes, falo com ele embora ele no
responda. Ainda sinto saudades. Muita. Voc tambm?
  Ivy sentiu um n na garganta, o que a impediu de responder de imediato.
  Philip se sentou ereto, virando-se para encar-la.
  -- Voc no sente?
  -- Todos os dias sinto a falta dele -- respondeu Ivy.
  -- Por que Deus o levou?
  -- Deus no o levou -- ela respondeu com firmeza. -- Foi Gregory.
  -- Ento, por que Deus deixou?
  -- No sei, Philip.
  -- Papai tambm no sabe.
   Estavam bem prximos do caminho pela enseada -- to perto, que Tristan
poderia vir at o deque e acenar para eles. Seria bom para Tristan ver Philip. E
Philip sempre guardara os segredos dela quando estavam morando na mesma
casa que Gregory.
  -- Voc contou ao papai que Tristan foi  nossa casa?
  Philip sacudiu a cabea.
  -- No d pra contar certas coisas. O papai ficaria doido se eu contasse que a
Lacey gosta de se sentar na poltrona reclinvel dele. Depois que ela vai embora,
sempre tenho que arrumar.
  Ivy gargalhou alto, apesar das lgrimas nos olhos.
  -- Lacey contou que voc  amiga daquele cara do hospital.
  -- Luke -- Ivy respondeu. -- O que mais ela contou?
  -- Que ele est se escondendo da polcia, mas que no fez mal a ningum.
Est certa?
  Ivy percebeu a preocupao na voz do irmo.
  -- Absolutamente certa. Estou tentando ajud-lo.
  -- Por qu?
  -- Porque eu gosto dele.
  Philip franziu a testa.
  -- Mais do que gosta de Will?
  -- Diferente do que gosto de Will.
  -- Diferente do jeito que gosta de Tristan?
  O garoto no errava muito.
  -- Mais do jeito como gosto de Tristan.
  Philip olhou-a por cima do ombro, avaliando-a detidamente com um ar
adulto de surpresa. Tudo pelo que havia passado o deixou mais maduro, pensou
Ivy. Levada pelo corao mais do que pela razo, ela decidiu: remou na direo
da outra costa.
  -- Para onde estamos indo? -- Philip perguntou.
  -- Visitar um amigo.
  -- Luke?
   -- Isso mesmo. -- Deixaria para Tristan a tarefa de contar a Philip quem ele
era.
   Philip ficou em silncio enquanto rebocavam o caiaque pela estreita faixa de
areia da costa e caminhavam pela estrada circular at a casa. Quando estavam
prximos da entrada da casa, escondidos da rua por um monte de arbustos, Ivy
assobiou uma melodia do Carousel. Com os olhos arregalados de curiosidade,
Philip a ouviu assobiar duas vezes. Um fecho de bronze virou pelo lado de
dentro da porta principal e uma fresta se abriu.
  Ivy deu uma olhada na rua e depois cochichou para Philip:
  -- Ande como se a gente viesse aqui toda hora.
  Ela entrou primeiro e os braos de Tristan a envolveram.
  -- Trouxe algum para ver voc, Luke -- Ivy disse, de modo que Tristan
soubesse que no revelara a identidade dele.
  Tristan a soltou. O rosto dele se iluminou.
  -- Philip!
   Philip o mediu de alto a baixo com os lbios cerrados -- comparando
" Luke" com suas duas maiores referncias: o Tristan que conhecera e Will.
  Tristan lhe sorriu.
  -- Voc se lembra de mim? Do hospital.
  -- Sim. -- A resposta de Philip foi seca.
   Tristan vasculhou os bolsos do jeans e depois estendeu a mo. Na palma
estava a medalha de anjo de Philip.
  -- Voc me deu isso. Estou sempre com ela.
  Philip baixou os olhos para a moeda dourada.
  -- Achei que voc precisava dela.
  -- Voc tinha razo.
  Philip comeou a esticar o brao para peg-la, mas recuou.
  Depois de um longo silncio, Tristan perguntou, hesitante:
  -- Voc a quer de volta?
  -- Quero que Ivy fique com ela.
   Ivy percebeu um tantinho de mgoa na expresso de Tristan, embora ele logo
a disfarasse. Queria dizer que Philip o via como um invasor, que tomara o
lugar de Tristan no corao dela.
   -- Philip e eu estvamos agora mesmo falando de Tristan -- ela disse --,
como sentimos falta dele, como ele ainda conversa com Tristan mesmo que no
tenha resposta.
  Tristan assentiu, dando a moeda para Ivy.
  -- Vamos nos sentar -- ela disse. -- Voc ainda tem aquele filme incrvel no
vdeo?
  -- Claro -- Tristan respondeu, ainda olhando para Philip --, e descobri mais
quatro deles. Tenho um festival completo de Lacey Lovett.
  -- Voc tem os filmes de Lacey? -- Philip perguntou.
   -- Bem aqui -- ele disse, guiando-os at a sala de estar. -- Tem algum
preferido?
  -- S assisti a um -- Philip respondeu. -- Um amigo surrupiou para mim.
   Surrupiou. Philip era uma esponja de palavras, Ivy admitiu. Deve ter
conhecido essa expresso pela amiga Lacey e nem sabia que o significado dela
era " roubar".
  Sentaram-se no sof diante da imensa tela de tev, Philip grudado em Ivy,
Tristan sentou-se do outro lado dela. Pegou uma pilha de DVDs e entregou-a a
Philip, que foi lendo a descrio dos filmes.
   Tristan no tirava os olhos de Philip e Ivy percebeu que ele realmente sentia
falta do irmo dela, assim como o seu irmo sentia falta dele. Quando Tristan
por fim lanou um olhar para Ivy, ela leu nos olhos assombrados dele a
pergunta: Conto?
  -- A deciso  sua -- ela sussurrou.
  Tristan engoliu em seco e desviou o olhar. Ivy pensou se ele estaria com
medo da reao de Philip. Tristan sabia que era o heri de Philip. Ser que
imaginava que Philip o amaria menos porque no tinha mais os poderes
angelicais?
   -- Onde est o Vingana da me do Zumbi? -- perguntou Philip, abrindo o
plstico vazio.
   -- No aparelho. Quer assistir um pouco? Lacey Lovett  a filha da me e vai
ficando igualzinha a ela.
  -- Parece bom -- Philip disse com entusiasmo, mas controlou-se ao perceber
que tinha soado amigvel e acrescentou, fingindo indiferena: -- Sei l. No
importa.
   No hospital, antes que Tristan se lembrasse de quem era, Philip
instintivamente simpatizara com ele. Ivy esperava que Philip agora percebesse
algum sinal de Tristan em Luke; isso asseguraria Tristan de que a mesma alma
ainda brilhava dentro dele. Mas isso no iria acontecer, ela pensou, enquanto
Philip visse esse estranho como algum competindo com o Tristan que ele
adorava.
  -- Estava ficando interessante -- Tristan comentou com Philip, clicando o
controle remoto.
   Enquanto as imagens de horror, to esquisitas que ficavam cmicas, passavam
rapidamente na tela, Ivy se recordava de outras cenas: Philip e Tristan na sua
sala de msica jogando damas; Tristan com um chapu de festa como convidado
de honra de Philip num jantar de aniversrio; Tristan e Philip de smoking, na
primeira vez que se encontraram.
   Na festa de casamento de Andrew e da me dela, ambos tinham se enfiado na
despensa da cozinha. Depois de derrubar um prato de salada nos convidados da
noiva, Tristan tinha sido despedido da funo de garom e estava esperando pelo
amigo, que ainda trabalhava. Philip, chateado, receoso, sem querer nada dessa
vida nova com Andrew e Gregory, tinha encontrado o mesmo esconderijo.
Quando Ivy abriu a porta da despensa  procura de Philip, l estava o famoso
Tristan Carruthers, distraindo o irmo dela -- inacreditavelmente -- com
verduras na cabea e azeitonas nos dentes, um talo de salso saindo de cada
orelha e um rabo de camaro enfiado na narina.
  Ivy riu consigo mesma.
  -- Que diabo  isso? -- Tristan exclamou, apontando na tela imensa uma
coisa estranha que saa de um esgoto para perseguir a zumbi Lacey. -- Isso  o
que, afinal?
  Relaxando a tenso, Philip riu muito.
  -- No  de dar muito medo.
  -- Parece que algum o fertilizou -- Tristan disse.
  Philip concordou.
  -- Parece que tem salso podre saindo das orelhas dele.
  -- E tem salada na cabea.
  -- E camaro saindo do nariz -- Philip acrescentou.
  -- Horrvel -- disse Ivy.
  -- Algumas azeitonas pretas -- Tristan continuou.
  -- Nos dentes -- Philip completou rapidamente.
  Ivy percebeu o irmo se mexendo no assento perto dela, inclinando-se e
olhando para Tristan, que virou a cabea ligeiramente para a direita. O perfil era
de Luke, mas a memria e o humor jovial, de outra pessoa.
  Philip levantou-se e ficou diante de Tristan. Curvando-se para a frente,
perscrutou os olhos de Tristan como se tentasse enxergar atravs da superfcie de
um lago.
  Tristan o encarou com firmeza. Por fim, falou:
  -- Andei pensando em que turno foi que o Mark Teixeira fez o grand slam.
  -- Tristan! -- Philip pronunciou devagar, como numa orao.
  Tristan assentiu.
  -- Tristan! -- O rosto de Philip se iluminou.
  -- Oi, amigo. -- A voz de Tristan estava trmula. -- Senti sua falta. Ainda
batendo as pessoas no jogo de damas?
  Philip abriu um sorriso.
  -- No. Estou aprendendo xadrez.
  -- Xadrez? Ah, agora nunca vou ganhar! -- Tristan exclamou. -- A menos
que Lacey me ajude a trapacear.
  O irmo de Ivy riu como se essa piada fosse a mais engraada do mundo.
Tristan riu com ele e riu ainda mais quando Philip tentou fazer o prprio riso
soar mais grave.
  Tristan passou os braos em volta de Philip, que o abraou com fora,
apertando os olhos. Ivy viu uma lgrima rolar no rosto do irmozinho.
   Tristan no tinha se dado conta de como seria natural para ele ver Philip de
novo. O garoto falava sem parar -- do acampamento de vero, da Califrnia, da
escola, desde o tempo em que Tristan os havia deixado. Por fim, chegou 
pergunta que Tristan esperava e temia:
  -- Como voc voltou como outra pessoa?
   -- No temos muita certeza -- Ivy respondeu rapidamente, tentando poup-
lo.
   -- Eu ca -- respondeu Tristan, logo contando a Philip exatamente o que
tinha acontecido.
  Philip ficou em silncio durante um bom tempo, como se estivesse refletindo
sobre tudo.
  --  por que voc ama Ivy. Eu tambm.
  -- Voc tambm? No brinca! -- Tristan gracejou.
  -- Eu tambm teria beijado a Ivy e a trazido de volta  vida.
  Tristan quase chorou: a compreenso de Philip era como o perdo.
  Ele viu Ivy rapidamente enxugar o canto do olho e depois erguer-se.
  -- Philip, temos de ir embora. Lembre-se, se algum perguntar, estvamos
apenas explorando o lugar. Ningum pode saber que Tristan, ou Luke, est aqui.
  Philip assentiu com a cabea. Despediu-se de Tristan com um abrao solene e
acompanhou Ivy at o vestbulo.  porta, virou-se, lanando a Tristan um olhar
inquisitivo.
  -- Voc voltou depois de um longo tempo -- disse o garotinho. -- Gregory
tambm pode?
  Ivy e Tristan trocaram olhares. Philip os viu e obteve a sua resposta.
  -- Ele pode.
  -- Se achar que viu Gregory, sabe o que fazer? -- Tristan perguntou.
  -- Correr.
  -- Isso. E chame Lacey -- Tristan disse. -- Depois, se estiver em segurana,
chame Ivy e ela vai me chamar. Beth e Will tambm esto alertas. Voc vai ficar
bem, amiguinho.
  -- E Ivy vai ficar bem?
  -- Ei! -- disse Ivy, alegre. -- Ns somos muitos e ele  s um.
  Mas Philip no se convencia com tanta facilidade. Olhou para Tristan,
buscando a confirmao de que ele seria suficiente.
  Tristan no poderia mentir:
  -- Vou fazer o possvel para mant-la em segurana, prometo.
   Depois que eles se foram, Tristan ficou impaciente, andando de um cmodo
para outro como um animal enjaulado. Tentou se distrair, jogando mais uma
partida do seu jogo de detetive, juntando as partes da histria da famlia que
passava os veres ali. Nicholas e Sarah tinham mais ou menos a idade de Philip
-- ele tinha encontrado o nome deles nos certificados emoldurados referentes a
vela e ginstica. Michael, a vtima do raio de Gregory, tinha partilhado o quarto
com Nicholas. Como teria sido para essas crianas a perda do irmo mais
velho? Tristan tinha sentido as lgrimas de Philip molharem seu brao e chegou
a pensar que o seu corao se partiria, se Philip perdesse Ivy...
   No tinha de ser assim, Tristan pensou. Nesse momento, a vantagem era
dele, pois sabia quem era Gregory e onde estava. Quando Gregory possuiu Beth,
o seu poder cresceu gradualmente, mas, na noite em que ela tentou matar Ivy, o
aperto de Beth tinha excedido em muito a sua fora normal. Tristan precisava
descobrir que tipos de poderes Chase tinha agora, para enfrent-lo antes que a
fora de Gregory aumentasse. Precisava proteger Ivy, como havia prometido a
Philip.
   Verificando o mapa da sala e estimando que a caminhada levaria cerca de duas
horas -- tempo demais para arriscar ser reconhecido --, Tristan resolveu pegar
algumas roupas emprestadas. No closet do sr. Steadman, ele escolheu calas e
uma camisa de mauricinho, cujas mangas longas poderiam ser enroladas: ao
estilo de um advogado em frias. Estava na dvida se deveria acrescentar um
antigo bon de beisebol  sua indumentria. Onde estava Lacey quando
precisava de conselhos sobre roupas? Desde a noite em que ela, Ivy e ele tinham
analisado as coisas -- e ele tinha rejeitado as teorias dela --, Lacey o colocara
na geladeira.
   O cabelo de Tristan ainda estava pintado de uma cor escura, mas ele agora
estava barbeado, no como no retrato que a polcia fizera de Luke, com uma
barba descuidada. No usar nada na cabea combinava melhor com essa imagem
nova, ele pensou. Saindo do closet, com um par de mocassins pouco
confortveis, ele passou pelo escritrio da Sr. Steadman. A luz da lanterna bateu
em alguma coisa brilhante: brincos de argola de ouro. Tristan sorriu e pegou
uma, enfiando-a no anular da mo esquerda. Vinte e poucos, bem-sucedido,
casado, tinha esperana de fingir bem quando encontrasse alguns passeadores de
cachorro ou um carro de polcia.
  Assim que escureceu, ele saiu. Quase duas horas depois, Tristan parou na
esquina de uma rua pavimentada, analisando uma casa que combinava com a
descrio que Ivy fizera da casa de Chase. Holloway, o nome na caixa de
correspondncia, confirmava que Tristan estava no lugar certo.
  Havia luzes no andar de cima e de baixo, e as janelas do segundo andar se
abriram. Um latido grave de cachorro foi repreendido pela voz de mulher:
  -- Quieto, Plato.
   Tristan avanou furtivamente at a garagem, uma construo ampla com trs
compartimentos. Abrindo com cuidado a porta lateral, ele entrou e ligou a
lanterna. O nico carro, uma Mercedes sed, no era o tipo que Chase dirigiria.
A garagem estava bem conservada, com ferramentas de jardim, rastelos,
bicicletas e pranchas de windsurf penduradas na parede e no teto, alm de ter
espao para mais dois carros.
   O barulho de um motor chamou a ateno de Tristan. De repente, ouviu-se
um clique. A luz da garagem se acendeu, e uma das trs portas automticas
comeou a se erguer. Rapidamente, ele apagou a sua lanterna e recuou at o
batente da porta lateral. Assim que os faris do carro entraram na garagem, ele se
escondeu na sombra.
   Chase saiu do carro e ficou olhando para a sua casa da entrada de pedras. Ele a
estaria vendo como Gregory veria?, pensou Tristan. Quanto controle Gregory
teria sobre Chase neste momento?
  Alguma coisa se agitara junto da luminria no fim de uma passagem da casa e
logo Tristan percebeu que um gato estava vindo na direo deles. O gatinho
rajado de cinza andou na direo de Chase, ento parou e ficou cheirando o ar,
hesitante. Tristan imaginou que ele pertencesse aos Holloways.
  Chase sibilou para ele.
  O gato ficou onde estava, mas com o olhar precavido.
   Junto da calha da garagem, Chase olhou em volta, depois se inclinou e pegou
uma pedra do tamanho de um punho. Chamou o bichano, que andou devagar na
direo dele. Imagens do gato de Ivy, que Gregory tinha matado, projetavam-se
na lembrana de Tristan. Quando Chase ergueu o brao para atirar a pedra,
Tristan no conseguiu se conter. Ele o atacou.
  -- Que... -- Chase soltou um palavro.
   Eles se atracaram, rolando no pavimento. Luzes se acenderam -- holofotes,
Tristan percebeu. Chase ficou de p, mas Tristan no o largou. Arrastou Chase
at a garagem aberta.
  -- Chase? -- Era a voz da mulher que tinha calado o cachorro. --  voc?
  Tristan o tinha numa gravata.
  -- Responda -- ele ordenou. -- Diga que entra em minutos.
  -- Sou eu -- Chase respondeu. -- J vou entrar.
  -- Tigre ainda est a fora -- a mulher respondeu. -- Veja se consegue
encontr-lo. Boa noite.
  Tristan relaxou o aperto e Chase se soltou.
  -- Vou enforcar esse gato -- disse e ento avaliou Tristan de alto a baixo na
luz baa que vinha do porto aberto da garagem. -- Olha s pra voc... --
zombou. -- No sabia que usavam essas marcas famosas de roupa em River
Gardens.
  Portanto, Chase tinha adivinhado que ele era " Luke".
  -- Sabe -- Chase continuou --, mal d para reconhecer voc nas fotos da
polcia, aquelas exageradas distribudas para a imprensa. Se eu fosse voc, me
sentiria ofendido.
  Tristan respondeu com um sorriso sarcstico.
  -- Verifiquei as fotos antigas, claro. -- Chase pegou uma cadeira de armar,
abrindo-a, e, em seguida, arrumou mais uma ao lado dela, indicando-a com um
gesto para Tristan. -- Andei procurando por voc.
  -- Ouvi falar -- Tristan respondeu. -- O que voc quer?
  -- Ajudar voc.
  Diante disso, Tristan riu.
  -- No seja to cnico. Eu acredito na justia... em voc tendo o que merece.
Outros, obtendo o que plantaram. O que ela fez a voc, sua antiga namorada
Colleen?
  -- Corinne -- Tristan corrigiu, afastando um pouco a cadeira da de Chase
antes de sentar-se.
  -- Ela o irritou.
  Tristan assentiu e continuou a se passar por Luke.
  -- Ela me traiu. Traiu e mentiu na minha cara.
  -- Deixou voc doido. Sem escolha.
   Tristan ergueu o facho de luz da lanterna at o pescoo de Chase. Os seus
tendes pareciam cordas esticadas. Estava consumido de dio -- o dio de
Gregory.
  Chase afastou a lanterna.
  -- Garotas traem -- ele disse. -- Est nos genes delas.
  -- No brinque!
  -- E tinha a Alison. Voc no teve muita sorte.
  -- Alicia -- Tristan corrigiu.
   De acordo com Ivy, Chase se orgulhava de saber mais do que os outros; ele
saberia bem desses detalhes. Mas Gregory no se importaria -- no teria o
trabalho de aprender o nome de pessoas que considerava irrelevantes para a sua
felicidade. Gregory estava no controle.
  -- O que foi que a Alicia fez?
  Tristan deu de ombros.
  -- Mais do mesmo. Agora acabou.
  -- Nunca acaba.
  No quando se tem fome de vingana, pensou Tristan.
  Chase se inclinou para a frente.
  -- Ambas mereciam morrer. Voc sabe disso to bem quanto eu.
  Tristan rangeu os dentes, esforando-se para permanecer no papel de Luke.
  -- Infelizmente, h quem pense diferente.
  -- Danem-se! -- Chase bateu as mos nas pernas. -- Danem-se todos! -- Ele
aproximou o rosto de Tristan. -- Voc compreendeu tudo direitinho. Essas
meninas mortas no valem nada comparadas a Ivy.
  Tristan se levantou.
  -- Um atleta como voc -- Chase continuou --, voc conhece uma gostosa
quando v uma. As outras meninas, tudo bem... segunda categoria. Mas a
pequena e sexy Ivy...
  -- No sou idiota! -- Tristan disse. Ele odiava ouvir essa voz macia e
insinuante falando de Ivy. Era como uma lngua de cobra enrolando o nome
dela.
   -- Claro que no . -- O tom de voz dele era protetor. -- De qualquer modo,
tenho alguns conselhos para voc, Luke, de homem para homem: agarre aquela
loira pelos cabelos, d um bom puxo e no solte. Ensine a ela quem  que
manda.
   Por um instante, Tristan viu a maravilhosa cabeleira de Ivy em suas mos.
No momento seguinte, ele sentiu uma presso no crnio. O corpo de Chase
ficou rgido, como se Gregory estivesse concentrando todas as foras para
penetrar na mente de Tristan. Os fundos dos olhos de Tristan ardiam em brasa e
seu sangue parecia queimar como fogo. Ele cambaleou e deixou a lanterna cair,
depois caiu de joelhos. A presso em sua cabea aumentou a ponto de achar que
sua mente fosse explodir.
   Ele recuou. A dor era excruciante, a sua fora contra a de Gregory, tendo o
crnio de Luke como uma parede insignificante entre eles. Tristan fechou os
olhos e guiou-se pelo seu esprito, rezando para ter foras. Anjos...
  De repente, a fora de Gregory cedeu. Tristan se apoiou firmemente contra o
cho de concreto. Viu fios de luz sarem de seus dedos abertos e subirem as
paredes, como um rastilho aceso. Uma lmpada acima dele explodiu,
mergulhando-os na escurido novamente. Choviam pedacinhos de plstico e
vidros quebrados. Dentro da casa dos Holloway, o cachorro comeou a latir.
   Muito fraco para ficar em p, Tristan se arrastou pelo cho escorregadio at
sua lanterna. Apoiando-se numa porta da Mercedes, ele se ergueu e viu Chase se
afundado numa cadeira.
  Chase ergueu a cabea lentamente, encarando Tristan.
  -- Quem  voc? -- ele perguntou. -- O que  voc?
  Tristan se apoiou no carro, esfregando a testa dolorida com uma das mos.
  -- Achei que voc j tivesse adivinhado.
  Chase franziu o cenho e depois empinou a cabea.
  -- Voc est ouvindo?
  -- O cachorro?
   Porm, um som mais sinistro, de vozes murmurantes, latejou fundo no
crebro de Tristan. Ento, Gregory ouvia as vozes tambm!
  -- Esto cantando Tristan.
  As vozes ficaram mais altas.
  -- Maldito seja voc, Tristan!
  -- Ol, Gregory.
  Gregory no tentou esconder sua surpresa.
   -- Voc costumava se enfiar nas mentes, mas isto  diferente. -- Ele se
levantou e andou em volta de Tristan. -- Quando tentei penetrar, senti apenas
uma mente, uma alma, e no era a de Luke McKenna. Ele teria sido fcil para
mim. Conte-me como fez isso.
  Tristan permaneceu em silncio.
  -- As vozes ensinaram voc -- Gregory deduziu, num tom rouco de
ansiedade. -- As vozes ensinaram a voc algo que no me ensinaram! Conte --
um sorriso abriu-se no seu rosto -- e eu pouparei Ivy.
  -- Voc sempre foi um mentiroso, Gregory.
  -- Agora, no. Agora estamos do mesmo lado, Tristan. O lado dos mortos.
-- O riso dele terminou num silvo frentico.
  Para alm da garagem, o passeio ficou mais claro, as luzes tinham sido acesas
de novo.
  -- Chase? -- a mulher chamou. -- Est tudo bem?
  Ele riu, depois socou um boto na parede, baixando o porto da garagem.
Tristan acompanhou Gregory at a entrada, mas ficou nas sombras.
  -- Cai fora da nossa vida, Gregory -- ele disse. -- Volte para o seu lugar.
  Gregory gargalhou.
  -- Voc no sabe? Trago o inferno comigo para onde quer que eu v. -- E
ento cruzou o gramado. -- Estou indo, me.
                                                 Captulo 8




E i, Bryan, voc conseguiu! -- Max gritou, segunda  tarde.
  Ivy, que vinha acompanhando Max pelo comprido desembarcadouro onde os
Moyers conservavam os seus barcos, parou onde estava. Bryan estava esticado,
tomando sol no banco de um barco a motor amarrado ao final do passadio.
  -- Bryan! -- exclamou Kelsey, parecendo to surpresa quanto Max.
  -- Oi, querida. Sabe que eu no perderia a oportunidade de estar na gua com
voc. E com Ivy. -- Ele se sentou, passando os braos por trs do banco
almofadado. -- Onde esto Beth e Will?
  Sempre adequado, pensou Ivy.
  -- Surfando com remo -- ela respondeu em voz alta, retomando o seu
inventrio da frota dos Moyers.
   Imaginava que Bryan no teria usado um barco a vela na noite em que
assassinara Luke. E o modelo Cigarette, como um carro esportivo caro, teria
atrado muita ateno. A lancha-cruzeiro, com suas linhas de pesca, teria sido
desajeitada e difcil de limpar. Mas a lancha que Max havia descrito como um
barco de 24 ps, em cuja proa Bryan se espichava agora, teria sido perfeita para o
trabalho.
  Bryan ajudou Max com um isopor cheio de gelo e depois ofereceu a mo para
Kelsey, que pulou com leveza para dentro do barco. Estendendo em seguida a
mo para Ivy, ele a segurou por tempo demais e apertou-lhe os dedos at
doerem. Ela entendeu o recado: o controle era dele ou, pelo menos, era o que
pensava.
  -- E a, Maxie, posso dirigir? -- Bryan perguntou. -- Sei para onde Ivy
quer ir. Lighthouse Beach.
  -- No, houve uma mudana nos planos -- Ivy lhe disse, despreocupada. --
Kelsey quer passear pela South Beach.
   -- Bom,  mais seguro, provavelmente -- Bryan observou. -- As correntes
da Lighthouse Beach so bem traioeiras. Voc sabia que tem gente que afunda
l?
  --  mesmo? -- Ivy retrucou.
  Ele riu.
  -- Voc j sabia, Ivy -- Kelsey disse. -- Foi l que Luke quase morreu.
  -- Quase -- Bryan ecoou.
   Ivy detestava esses jogos de palavras. Ela se afastou, observando Max abrir e
fechar os compartimentos ao se preparar para zarpar. Havia muitos lugares para
esconder coisas e Bryan s precisaria de um lugar para esconder uma seringa e
uma muda de roupas limpas, caso as dele ficassem sujas de sangue. Em um dos
compartimentos do barco, um par de facas e uma pesada chave inglesa reluziam
entre outras ferramentas teis. Havia corda suficiente para amarrar algum. A
comprida vara ali no cho seria til para empurrar um corpo para longe do barco.
A limpeza seria fcil, e esperada, depois de uma sada para alto-mar, a mangueira
das docas estava bem ali. Na verdade, Ivy comeou a se perguntar por que todos
os assassinatos premeditados no aconteciam em barcos.
  -- Planejando ter um desses? -- Bryan perguntou a Ivy, lanando-lhe um
sorriso falso.
  Ela voltou a ateno para as arrumaes de Max. Ele estava verificando a
meteorologia.
  -- E ento, capito?
   -- Tudo bem por enquanto -- Max respondeu. -- Mas temos de ficar atentos
s tempestades. -- Ele deu uma olhada por cima do ombro. -- Finalmente, a
vem a Dhanya!
  Bryan virou-se.
  -- E Chase. Voc o convidou?
  -- Eu convidei Dhanya -- Max respondeu, dando de ombros.
  Kelsey sorriu.
  -- Espero que Chase esteja se sentindo melhor. Se ficar enjoado, eu o jogo na
gua.
  -- Deixe comigo -- disse Bryan, com um olhar matreiro na direo de Ivy.
-- Sou bom nisso.
  Ivy ignorou a conversa. Embora tivesse medo de Bryan, desde que no
deixasse que ele a separasse do grupo, estaria em segurana. O maior perigo
agora, a ameaa a todos eles, era o cara que acompanhava Dhanya pelo
embarcadouro.
  Quanto controle Gregory teria sobre Chase? Se Gregory exigisse de seu
hospedeiro algo maluco ou violento, Chase teria foras para recusar?
   Chase estava quieto ao subir a bordo, sua face inexpressiva, sua boca
indolente sob a armao dos culos de sol que avanavam sobre as mas do
rosto. Quando Ivy lhe perguntou como estava, ele apenas respondeu " bem", e se
afastou.
  Ele e Dhanya escolheram dois dos luxuosos assentos de couro atrs do
cockpit. Bryan pegou Kelsey pela mo e a levou para a parte da frente da lancha.
O para-brisa e o console podiam ser abertos ao meio e a rea em V, em frente ao
cockpit, tinha bancos almofadados de couro, onde os visitantes podiam curtir os
borrifos de gua do mar quando a lancha estava em movimento. Nos quinze
minutos seguintes, tendo Max ao leme e Ivy num assento diante dele, a lancha
roncou pelo canal. Depois, Max desligou o motor e descansou a embarcao nas
guas rasas no final da South Beach, onde ancoraram com outros cinco barcos.
  Enquanto Max baixava a ncora, um barco-txi se enfiou por ali, deixando
uma poro de visitantes. Trs famlias estavam na praia, a oeste, ao lado de
seus barcos. Outras pessoas espalhavam as toalhas junto do mar no lado leste,
um caminho curto atravs das dunas. Com Bryan carregando o isopor no
ombro, os seis marcharam para o lado do oceano.
   Kelsey deixou cair a toalha e a bolsa e correu para a gua. Bryan a seguiu
poucos passos atrs. Ivy, Dhanya e Max armaram acampamento, espalhando
toalhas, prendendo-as no cho com os calados. Chase se manteve  parte,
vasculhando a rea. Ajeitando-se por fim na toalha de praia perto de Dhanya, ele
se deitou sem dizer palavra. Ivy viu Dhanya observ-lo com hesitao, antes de
pegar um livro.
  -- Quer andar um pouco? -- Max perguntou a Ivy. -- A mar est baixa.
Hora boa para pegar conchinhas.
   Ivy relutava em deixar Dhanya com Chase. Tambm estava observando a
brincadeira de Kelsey e Bryan no surf. Toda vez que Kelsey ficava embaixo da
gua por mais de cinco segundos, Ivy se sobressaltava.
  -- No estou com vontade de andar muito -- ela disse.
  -- Tudo bem, sou um preguioso feliz -- respondeu Max.
  Ele sempre ficava satisfeito em fazer o que nigum queria.
  -- Posso ir junto? -- Dhanya perguntou. -- Voc se importa, Chase?
   A resposta de Chase foi tirar lentamente a camiseta e os culos e se esticar na
toalha. Ele dobrou a camiseta sobre o rosto, protegendo-o do sol -- e deles. Ivy
o avaliou. Isso era s o Chase sendo passivo-agressivo? Ou era Chase sendo
amordaado enquanto Gregory reunia as suas foras?
   Na meia hora seguinte, Ivy, Dhanya e Max vaguearam pela costa. Max fazia
Ivy se lembrar de Philip -- talvez fosse coisa de menino --, pois revirava
caranguejos mortos e pegava qualquer coisa pegajosa. Dhanya coletava pedras
brilhantes e Ivy, um monte de conchas. Ela contou a Max da mariscada que
tinham feito.
  Max abriu um sorriso.
  -- Quando era pequeno, eu disse ao meu pai que queria ser marisqueiro.
  Dhanya ergueu os olhos e deu uma risada.
  -- O que ele disse?
  -- timo. Mas primeiro eu tinha que aprender tudo sobre varejo.
  -- Se pudesse fazer qualquer coisa, Max -- Ivy disse --, e morar onde
quisesse, o que faria?
  Ele no precisou pensar muito.
  -- Moraria em Nova Orleans e iria ouvir jazz todas as noites.
  Ivy o olhou, surpresa.
   -- Que maravilha! Eu iria visitar voc! -- Eles conversaram um tempo sobre
jazz e Dhanya improvisou uma dana em ritmo sincopado. Quando tentou
ensinar uma srie de passos a Max, Ivy observou e aplaudiu. Por um instante,
ela conseguiu se distanciar dos perigos que pairavam ao redor. Ento, olhou por
cima do ombro.
   Ela tinha visto Kelsey e Bryan sarem da gua, mas eles no estavam na
praia. Ivy se ergueu rapidamente.
  -- Est tudo bem? -- Max perguntou.
  -- Acho que sim. Algum viu para onde foi Kelsey?
  -- Para onde quer que Bryan tenha ido -- Dhanya respondeu inocentemente.
  Ivy foi na direo da toalha deles, vasculhando com os olhos a praia e o mar.
Dhanya e Max a acompanharam.
  -- Chase, voc viu Kelsey e Bryan? -- Ivy perguntou.
  Ele no respondeu.
  Dhanya ajoelhou-se perto dele.
  -- Chase? -- Estendeu a mo como se fosse sacudi-lo.
  Ivy segurou a mo de Dhanya no ar.
  --  melhor no -- ela disse, preocupada com a reao de Gregory se fosse
surpreendido.
  Dhanya o avaliou por um instante.
  -- Voc tem razo. Ele anda meio... irritado.
   Ivy, Dhanya e Max jogaram baralho, sendo Ivy a primeira a sair de todas as
jogadas, desconcentrada que estava procurando com o olhar por Bryan e Kelsey
e observando Chase. Depois da terceira jogada, Max deu uma olhada no cu e,
em seguida, fez o caminho at o outro lado das dunas. Voltou rapidamente.
  -- H tempestade vindo do oeste -- ele disse. -- A gente precisa voltar.
  -- E Kelsey e Bryan? -- Ivy perguntou.
   Com as mos no quadril, Max olhou a praia de cenho franzido. As pessoas a
alguns metros deles estavam chamando as crianas e recolhendo baldinhos e ps.
   -- Chase? -- Dhanya disse. -- Vamos l, dorminhoco. -- Como ele no
respondeu, ela colocou a mo no brao dele.
  Chase se afastou, virando-se de bruos, com o rosto ainda escondido.
  Max estava perdendo a pacincia.
  -- Precisamos nos mexer. No quero pegar a lancha numa tempestade. Chase,
acorde! -- Max se inclinou e puxou a camiseta da cabea de Chase.
  Os olhos de Chase se abriram e ele se sentou. Tinha a expresso calma e o
movimento controlado, mas, quando Ivy encarou os seus olhos cinzentos, era
como neles houvesse uma tempestade em formao.
  -- Voc sabe onde esto Kelsey e Bryan? -- perguntou Max.
  -- Eles saram da gua -- Chase disse, com um tom montono na voz --,
pegaram algumas cervejas e foram naquela direo. -- Ele apontou para o norte.
  -- Max, por que no leva o isopor e as coisas para o barco -- sugeriu Ivy. --
Eu dou uma olhada na praia.
  -- Deixe que Chase... -- Max comeou a dizer.
  -- Sou mais rpida.
  Diante do modo estranho e lerdo de Chase -- s mexendo os olhos,
perscrutando o cu a oeste --, Ivy no teve muito trabalho para convencer Max.
   -- Fique com Max -- Ivy disse a Dhanya. -- Faa o que Max disser. -- E se
foi.
   Depois dos primeiros trs minutos correndo, desejou ter trazido um relgio.
Na praia, as distncias eram enganosas, pois no havia referncias, s metros e
metros de areia. Correr na areia era exaustivo e ela no conseguia dizer o quanto
tinha avanado pelo cansao do corpo. Virou-se uma vez e viu uma famlia de
p, aos pares. Virou-se de novo e no viu ningum mais, mas se as pessoas
tinham ido embora ou se tinham ficado alm do seu campo de viso, no
conseguia ter certeza.
   Bryan no machucaria Kelsey, ela disse a si mesma, numa pausa para
recuperar o flego. Era esperto demais para desviar a ateno da polcia de Luke
para si. Desde que controlasse as emoes, desde que no bebesse e que Kelsey
no o provocasse demais... Ivy continuou correndo.
   Apertou os olhos para enxergar mais adiante. O cu a leste ainda estava azul,
mas o brilhante oceano Atlntico tinha um reflexo escurecido. Parando mais
uma vez, ela percebeu que a brisa do mar tinha sumido e o vento soprava mais
forte nas dunas. Ivy no desejava ficar no meio da praia sozinha durante uma
tempestade. Ento, voltou correndo, esperando que Bryan e Kelsey tivessem
cruzado as dunas de volta ao outro lado.
  Quando finalmente alcanou Max, ela balanou a cabea, depois se inclinou,
com as mos sobre os joelhos, respirando com dificuldade.
  -- Quanto tempo? -- ela perguntou. -- At quando estamos em segurana
aqui?
   Os outros barcos tinham levantado ncora. Ivy observou o vermelho e branco
caracterstico do barco-txi ir virando um pontinho  medida que se apressava de
volta  marina com os passageiros. As nuvens a oeste pareciam um oceano
cinzento, cada onda batendo mais alto, tentando chegar ao sol. Chase estava 
beira da gua, olhando na direo da tempestade; Dhanya estava a meio caminho
entre ele e Max.
  -- Ali vm eles. Vamos! Rpido! -- Max gritou para Kelsey e Bryan.
  Como Ivy tinha imaginado, eles tinham voltado pelo lado oeste das dunas.
No se apressaram. Ela deixou que Max fosse incit-los, enquanto seguia
penosamente at o barco com Chase e Dhanya.
  As nuvens tinham encoberto o sol e a gua de repente esfriara. Ivy viu o brao
molhado de Dhanya ficar arrepiado enquanto iam at o barco pela gua. Assim
que subiu a bordo, comeou a abrir os compartimentos em busca de coletes
salva-vidas.
  Entregou um a Dhanya, depois a Chase, que ficou ali balanando o colete.
   -- Vista-o -- ordenou Ivy, enquanto deslizava o prprio brao por um deles e
ajustava o fecho. Dhanya colocou um, mas Chase simplesmente ficou parado,
olhando a gua bater no barco.
  Assim que Kelsey subiu a bordo, Ivy lhe entregou um colete.
  -- Eu sei nadar.
  -- No importa.
  Pelo canto dos olhos, Ivy viu um terrvel relmpago sobre North Monomoy.
  Chase murmurou alguma coisa. Ivy entregou um colete a Bryan.
  -- Me procurando? -- ele perguntou, divertido.
  -- Como sabe -- Ivy soltou --, gente que fica inconsciente e cai do barco em
geral se afoga.
  Ele riu e Ivy sentiu o cheiro de lcool em seu hlito. Rapidamente, se voltou
para Max, que tinha enfiado o colete que ela lhe dera.
  -- Fiquem todos sentados e se segurem -- ele disse.
  Ivy ajustou o fecho do colete de Max enquanto ele ligava o motor. Kelsey e
Bryan passaram por ela para se sentar no bico da lancha.
  -- No -- Max gritou com eles. -- Fiquem atrs de mim desta vez.
  -- Ah, isso vai ser emochionante? -- Kelsey perguntou, enrolando as
palavras.
  -- Um pouco emocionante demais -- ele disse, virando a cabea na direo
da popa.
  Mas Kelsey e Bryan no se mexeram. Ivy sentiu os primeiros pingos de
chuva nos ombros. A mo de Max hesitava sobre o acelerador.
  -- Me d cinco segundos -- ela disse a Max e avanou, pegando o colete que
Kelsey tinha jogado no cho e, em seguida, agarrando um dos braos de Kelsey
e forando-o pelo buraco. Kelsey riu e jogou o corpo para trs, molenga com
uma boneca de pano. Eles no tinham tempo para brincadeiras. Ivy puxou o
colete nas costas dela, enfiando-lhe depois o outro brao.
  Bryan observava, rindo.
  -- Sou eu agora?
  -- No, voc se vira. Vamos, Kelsey, venha se sentar com Dhanya.
  -- Sento ca Janya toda hora -- ela retrucou num tom de embriaguez.
  Ivy tentou erguer a colega, mas, com o corpo largado, pesava muito.
  Chase se levantou, observando a cena com interesse, e avanou, para ficar no
cockpit do lado do passageiro.
  -- Tenho que ligar, Ivy -- Max disse, elevando a voz sobre o vento e o rdio
da marinha. Ele estalava com avisos de tempestade. -- Volte.
   -- Um segundo. -- Ivy ajustou o colete de Kelsey, depois se agarrou no
para-brisa, cambaleando pela diviso do cockpit  medida que a lancha avanava
pela gua embrutecida. Jogando-se no assento ao lado de Dhanya, de frente para
a popa, ela observava o resto de espuma esverdeada e cinzenta que se encapelava
atrs da lancha.
  Chase estava falando com Max, mas as palavras se perdiam no vento.
   -- V mais rpido -- Ivy ouviu Chase gritar. Ela se virou, abraando o
assento, tentando ver o que havia adiante.
  -- Mais rpido.
  -- No posso! -- Max gritou de volta. -- J estamos dando pinote.
   Ivy viu uma placa do canal. As ondas enfurecidas ficaram mais altas. A lancha
avanava diretamente pelo pico delas, empinando o bico e depois batendo com
fora na gua.
  -- Segura, peo! -- Bryan gritou.
  -- Uh-hu! -- Kelsey comeou a se levantar e caiu sobre Bryan, rindo
loucamente.
  -- Fique sentada, Kelsey! -- Ivy gritou.
  Relmpagos rasgavam o cu.
  -- Por favor, Max, mais rpido -- Dhanya implorou.
  -- Tenho que manter um ritmo estvel.
  -- Nem cinquenta ns -- Chase reclamou. -- Deixe-me dirigir.
   -- E fazer a gente virar? -- De p, ao leme, Max mantinha o equilbrio de
algum jeito e avanava rapidamente. Ivy no entendia como ele conseguia
enxergar o caminho. Anjos, orientem-no, ela rezava.
  A chuva batia nas laterais. Uma onda quebrou sobre o costado, lavando o
barco at a popa.
  Kelsey guinchava de rir.
  -- Est todo mundo bem? -- Max gritou.
   -- Sim, tudo bem -- Ivy respondeu, tentando parecer calma enquanto os
relmpagos explodiam e se embaralhavam com uma saraivada de troves. Mais
do que os relmpagos e a gua, era a escurido que a apavorava, a rapidez com
que vestgios de um entardecer mergulhavam num vrtice negro. Parecia
demonaco.
   Firmando-se nas costas do seu assento, ela observava Chase. Gregory teria de
repente acumulado esse tipo de poder? No importava, porm, se ele tivesse
criado a tempestade. Da vez anterior Gregory tinha criado um nico raio.
Quando fosse a hora, ele atacaria de novo, e mataria todos.
   Como ela poderia impedi-lo? Se ela se jogasse no mar, ele a perseguiria e
deixaria os demais em paz? Ivy se ergueu. Porm, em um segundo percebeu que
tinha imaginado o plano errado. Chase agarrou o brao de Max com fora
sobrenatural, virando a direo do barco. Esticando-se por cima de Max, ele
empurrou o acelerador at o fim.
   A lancha deu um solavanco, subindo uma onda em um ngulo absurdo.
Ficou suspensa ali, como que enganchada nos entalhes de um relmpago e, em
seguida, comeou a rolar. Parecia que tudo estava em cmera lenta: Kelsey
gritando, Dhanya escorregando pelas mos de Ivy, instantes suspensos no ar,
protegidos da chuva na embarcao e, depois, lanados ao mar enfurecido.
   O mar e sua escurido terrvel -- Ivy no conseguia enxergar, nem se
movimentar, no conseguia chegar  superfcie. Sentiu o peso da gua
turbilhonante e lutou para encontrar a sada.
  Estou embaixo da lancha, presa -- ela percebeu. Fez fora com os ps,
chutando e empurrando com os braos, nadando de lado, no para cima, e
segurando o ltimo oxignio nos pulmes at ser insuportvel. Anjos!
  Mais claro -- era mais claro ali. Ela nadou at a rea cinzenta. Chegando 
superfcie, abriu a boca em busca de ar. A chuva batia-lhe no rosto.
  -- Algum a? -- Ivy gritou. -- Tem algum a?
  -- Aqui!
  Era Dhanya, boiando com o colete, a alguns metros de distncia. A espuma
branca sibilava nas laterais das ondas entre elas. Ivy nadou na direo da amiga.
  -- Dhanya? Ivy? -- Max gritou.
  -- Aqui!
  -- Fiquem juntas! -- ele gritou de novo.
  -- Me ajudem! Algum me ajude! No consigo segur-lo.
  -- Kelsey! -- Ivy chamou.
   A enjoativa ondulao do mar mudava o horizonte dela sem parar. Ento, ela
viu Kelsey esforando-se para segurar Bryan, que estava cado em seus braos,
inconsciente. Ivy nadou at ela. Pareceu levar horas, as ondas puxavam-na para
trs.
  -- Passe um brao em mim, para que ele fique entre ns duas -- disse Ivy.
  -- Onde est Chase? -- Max gritou.
  -- Chase! -- Dhanya gritou. -- Oh, Deus, ele se foi.
  -- Fique com Ivy -- Max ordenou e saiu nadando, parando a cada braada
para chamar por Chase. -- Achei! -- ele gritou afinal.
  Ivy no conseguia enxergar nenhum deles. Tudo o que conseguia fazer era
manter a cabea de Bryan fora da gua.
  -- Vamos vir-lo -- Ivy disse --, assim ele vai boiar.
   Assim fizeram e Ivy arquejou. Havia um enorme e sangrento talho na tmpora
de Bryan. Seus olhos verdes estavam bem abertos, a boca, relaxada, e o corpo
amolecido. Ele est morto, ela pensou. Teve um sentimento esquisito -- pavor
e alvio. Bryan estava morto.
  Ento, o corpo dele teve uma convulso e ele comeou a cuspir gua do mar.
  -- Segurem firme! -- Kelsey implorou aos outros.
   Bryan tossiu com espasmos violentos. Quando o seu corpo finalmente se
acalmou, ele fechou os olhos. Na segunda vez que os abriu, ainda chovia, mas o
pior da tempestade tinha passado. Max tinha rebocado Chase, semiconsciente,
at onde os demais boiavam e se seguravam uns nos outros, meio em pnico.
   De repente, Bryan se afastou deles. Movendo-se pela gua, ele abriu um
sorriso, como se envaidecido da fora de seus ps e braos. Ergueu um punho
acima do mar.
  -- Vivo! -- gritou, jogando a cabea para trs e gargalhando para o cu
tempestuoso.
  -- Bryan, fique por perto! -- avisou Max.
  -- Sim, capito -- Bryan respondeu alegremente, nadando at Ivy.
Segurando-se no colete dela, ele sussurrou em seu ouvido: -- A vingana 
minha.
                                                 Captulo 9




A
       tia Cindy foi na direo deles.

          -- Vou ficar de cabelo branquinho at o fim do vero -- disse,
puxando para trs uma mecha com alguns poucos fios prateados. Passou os
olhos de Ivy para Kelsey e para Dhanya, sentadas ombro a ombro na sala de
espera do pronto-socorro. Beth e Will chegaram correndo atrs dela.
  -- A Guarda Costeira me contou -- continuou tia Cindy. -- Ainda bem que
todos tiveram o bom senso de usar coletes salva-vidas.
  Kelsey olhou de relance para Ivy, que permaneceu em silncio.
   -- Da prxima vez, antes de pegar um barco, experimentem verificar as
previses da marinha!
  -- Mas a tempestade chegou realmente muito rpido -- Kelsey argumentou
com a tia. -- No fomos os nicos pegos de surpresa.
  -- Como disse, vou ficar com a cabea branquinha at o prximo ms.
  -- Como est Chase? -- Beth perguntou. -- E Max e Bryan?
   Ivy os informou. Quando Max resgatou Chase, ele estava quase sem o colete
e se alternava entre a conscincia e a inconscincia. Estava fisicamente estvel
agora, mas confuso e sendo avaliado. Bryan tinha levado alguns pontos e
estavam examinando se teve concusso.
  -- Talvez os dois fiquem internados. -- Por algumas horas, Ivy pensou, ela e
suas colegas estariam a salvo.
   Ivy j tinha sido interrogada pelo pai de Chase, que agora falava com o pai de
Max e o tio de Bryan. O sr. Holloway se recusara a acreditar que o filho estava
no leme quando a embarcao virou. A tia Cindy cruzou a sala de espera para
falar com eles.
  Quando sua tia j no podia ouvi-la, Kelsey virou-se para Ivy.
  -- Obrigada por no contar.
  Ivy assentiu.
  -- Do colete salva-vidas. E obrigada por me fazer us-lo.
   Ivy assentiu mais uma vez. Todos os nervos do seu corpo pareciam
tensionados e estirados, como as cordas de um instrumento musical.
  -- Est brava comigo? -- Kelsey perguntou.
  -- Estou.
  Mas Ivy estava mais do que brava. Estava assustada -- por Kelsey, pelos
outros e por ela mesma. Kelsey estivera o tempo todo dependurada em Bryan a
caminho do hospital -- dependurada em um assassino possudo por um
demnio.
  -- No deu para segurar. Eu estava bbada.
  -- D para no ficar bbada -- Ivy respondeu, com a voz trmula. Esforou-se
para se recompor. -- Kelsey, quando a gente bebe, fica vulnervel. Qualquer um
que quiser se aproveitar de voc vai conseguir.
  -- Como Bryan? -- Kelsey perguntou, sorrindo.
  -- Qualquer um! -- Ivy cortou. -- Por que quer perder o controle? Por que
quer que outra pessoa controle voc?  o que acontece, j sabe.
  Kelsey ficou um instante em silncio.
  --  divertido... desde que seja com algum em que eu confie.
  Ivy sabia que um argumento contra a confiana em " Bryan" o tornaria ainda
mais atraente.
  -- E se essa pessoa estiver bbada e fora do controle? -- E possuda por um
demnio, ela pensou.
  -- Ivy, voc vai entediar os seus colegas de faculdade terrivelmente.
   Ivy queria estrangul-la. Levantou-se abruptamente e foi embora, passando
pela porta automtica e indo ao estacionamento do hospital. L fora, respirou
fundo o ar da noite.
  No tinha chovido em Hyannis; a tempestade tinha sido apenas uma borrasca
que acertou o cotovelo de Cape Cod. Gregory teria provocado a tempestade ou
apenas se aproveitado dela? Isso pouco importava, ela ponderou, o resultado era
o mesmo.
  -- Ivy -- Will a pegou pelo brao com delicadeza. Ele e Beth a tinham
acompanhado. -- O que realmente aconteceu?
  Ela tinha que contar aos dois, pensou. Precisavam estar atentos e ajud-la a
proteger Kelsey.
  -- Gregory est envolvido nisso? -- foi a vez de Beth perguntar.
  Ivy inspirou fundo.
  -- Ele estava em Chase.
  -- Quando o barco virou -- Will adivinhou.
  -- Sim. Bryan, o verdadeiro Bryan, morreu no acidente.
  Beth levou a mo  boca, abafando um grito.
  -- Gregory est em Bryan assim como Tristan est em Luke. O corpo de
Bryan  de Gregory agora.
  Will praguejou.
  -- Vai ser Gregory e Suzanne de novo! Ivy, tome cuidado. Voc se lembra de
como Gregory usou Suzanne para atingir voc.
  -- Todos ns temos que ter cuidado. -- Esse aviso era suficiente, Ivy
pensou; ela no precisava pr Beth e Will em perigo revelando informaes
sobre os crimes de Bryan.
  Will lanou um olhar para Beth.
  -- Acho que devia contar a Ivy sobre a sua viso.
  -- Ento, isso est de volta tambm! -- exclamou Ivy. Beth era de novo ela
mesma inteiramente, com seu dom de vidncia e a sua escrita.
  -- Quando estvamos remando hoje, fiquei vendo uma imagem na gua. --
Beth desenhou um crculo com o dedo. -- Uma cobra engolindo a prpria
cauda.
  -- O que isso significa? -- Ivy perguntou.
   -- Voc sabe como so essas vises -- Beth respondeu. -- Tudo o que
tenho para interpret-las  uma sensao.
  -- O que ?
 -- Acho que o ciclo est se completando. Tome cuidado, Ivy. De algum
modo, a sua batalha com Gregory vai voltar para onde comeou.

   Quando Ivy terminou de trabalhar na tera  tarde e estava voltando ao chal
com Kelsey, encontrou Dusty no degrau da frente, com os olhos dilatados, o
rabo batendo de um lado para o outro.
  -- O que deu nele? -- Kelsey perguntou.
  -- No sei -- Ivy disse, e um calafrio lhe percorreu a espinha.
  Tirando Dusty do caminho, ela escancarou a porta de tela.
  Bryan estava estendido no sof das moas.
  -- Oi -- disse, erguendo o refrigerante de que se servira. -- Querem alguma
coisa pra beber?
  Max, sentado na cadeira junto do sof, deve ter visto a expresso aborrecida
de Ivy.
  -- Eu disse a ele que deveramos ter esperado l fora.
  Ivy se sentiu invadida, mas Kelsey passou correndo por ela e jogou os braos
em volta de Bryan. Ele se sentou, rindo.
  -- Voc est pssimo! -- comentou Kelsey.
  Um curativo cobria o corte em sua testa. Com o sangue da noite anterior, Ivy
no tinha percebido o machucado, que cobria todo o rosto at o maxilar.
  Bryan encarou o olhar de Ivy.
  -- Prazer em v-la de novo.
  -- Como est se sentindo, Ivy? -- Max perguntou.
  -- Bem -- ela respondeu num tom lacnico. -- E voc?
   -- Sem muita vontade de entrar num barco -- ele respondeu com um sorriso
retorcido.
  Parecia cansado e o seu constante bronzeado tinha se transformado num tom
esquisito de marrom, como se tivesse empalidecido por baixo.
   -- Max tem bancado a enfermeira -- disse Bryan. -- No sei o que faria sem
ele.
  Kelsey se sentou no sof com Bryan.
  -- Posso assumir essa tarefa por enquanto.
   -- Foi uma concusso -- Max os informou. -- O tio Pat no ficou muito
contente. Bryan no pode treinar no gelo at os sintomas sumirem. No pode
arriscar que uma queda faa mais estragos.
  -- Portanto, estou em frias -- Bryan comemorou, alegre.
 No era uma boa notcia. As horas de Bryan no rinque eram os nicos
momentos que Ivy sentia que podia baixar a guarda.
  -- Quais so os sintomas? -- perguntou Kelsey.
  -- Fico um pouco confuso.
  -- Um pouco? O tio Pat quase endoidou -- Max contou -- quando Bryan o
chamou de Pete.
  -- Ele achou que eu estava fingindo.
  -- Estava? -- Ivy perguntou.
  -- O que voc acha? -- Bryan se inclinou para a frente e sorriu.
  Kelsey o puxou para trs.
  -- Acho que se lembra do que quer. -- Descansou as pernas no colo dele. --
E acho bom se lembrar de mim. J tivemos uma amnsia conveniente neste
vero.
   -- Nossa! No tinha pensado nisso! -- Max disse. --  meio sinistro, dois
caras retirados da gua em Chatham, ambos abobados. Pelo menos voc sabe
quem , Bryan.
  Bryan olhou de relance para Ivy.
  -- Eu sei. -- Em seguida, voltou-se para Kelsey. -- Qual era mesmo o seu
nome?
  Ela lhe deu um beijo estalado no brao e ele e Max gargalharam.
   Ivy examinou Bryan. Quando Tristan assumiu o corpo de Luke, a mente e o
esprito de Luke tinham ido embora completamente. Tristan no tinha nenhum
acesso s lembranas de Luke. Ento Gregory no teria o mesmo problema?
Mas Gregory os vinha espreitando desde a noite da sesso esprita, portanto,
teve muitas oportunidades de aprender coisas sobre Bryan. Teria lapsos aqui e
ali, claro, mas ele se viraria, em especial com a desculpa de uma concusso. O
que Gregory sabia de fato sobre os crimes de Bryan? O suficiente para continuar
as ameaas de Bryan contra " Luke"?
  -- Ento, adivinhem onde vou passar as frias? -- perguntou Bryan.
  -- Vai embora de Cape? -- Kelsey perguntou, sombria.
  -- E deixar meus amigos? -- Bryan sorriu para Ivy. -- No, vou ficar na
casa de Max e aproveitar os brinquedinhos dele.
  E a maravilhosa liberdade que essa situao lhe proporcionaria, Ivy pensou,
sem restries do tio Pat nem do trabalho.
  -- Sorte minha -- disse Max.
  Bryan deu um empurrozinho em Kelsey.
  -- Vamos dar um rol, garota. Estou cansado de ficar sentado.
  -- Um minuto para eu mudar de blusa.
  -- Encontre a gente no carro -- Bryan disse, jogando as chaves para Max.
Enquanto Max saa, Bryan virou-se: -- Ivy -- disse com uma voz suave, to
perto dela que ela pde ler seus lbios --, agradea a Tristan pela dica.

  -- A dica? -- Lacey perguntou, repetindo as palavras de Ivy.
   Tristan no disse nada. Tinha desistido de encontrar Lacey naquela tarde e
ficou um pouco chateado quando o anjo apareceu assim que Ivy o chamou. Os
trs sentavam-se  mesa de jantar diante de umas portas de correr da casa de
veraneio dos Steadmans. O luar projetava um tom prateado no deque externo,
clareando tambm o campo de margaridas. Ivy tinha aberto as portas e levantado
um pouco as persianas para que a brisa marinha entrasse.
  -- Do que ele estava falando? -- Ivy perguntou. -- Gregory veio aqui?
  Lacey arregalou os olhos.
  -- Ele veio e voc lhe disse quem era?
  Tristan se sentiu encurralado; sabia que no gostariam da resposta dele.
  -- Fui at a casa de Chase no domingo  noite.
  -- Tristan! -- Ivy o repreendeu.
  -- No posso ficar aqui sem fazer nada, Ivy! Prometi a Philip que tomaria
conta de voc.
   -- No responsabilize Philip. Voc sabe o que est em jogo -- Lacey o
interrompeu abruptamente.
  Para Tristan, a nica coisa em jogo era a perda de Ivy.
  -- No incio, Gregory no sabia quem eu era. Tentou controlar a minha
mente.
  -- Depois, ele percebeu que estava lidando com alguma coisa no muito
humana -- Lacey concluiu.
  Tristan assentiu.
  Lacey virou-se para Ivy:
  -- Isso est ficando assustador.
   -- No -- Tristan argumentou --, est ficando melhor. Como ns dois
estamos presos em corpos, o campo de batalha fica nivelado.
  Lacey o encarou como se ele fosse doido.
  -- Voc est achando que isso  algum tipo de esporte?
   -- S que voc, Tristan, foi colocado no corpo de Luke. Gregory conseguiu
fazer isso por conta prpria -- disse Ivy.
  -- Exatamente -- declarou Lacey. -- O que significa que vem adquirindo
poderes perigosos.
  Tristan balanou a cabea.
  -- Gregory no  to esperto nem to poderoso. Ele ouve as mesmas vozes
que eu ouo. As vozes lhe disseram como fazer.
  -- Vamos deixar isso bem claro -- Lacey comentou. -- Voc est se
sentindo por cima e confiante porque as vozes, que contaram a um demnio
como fazer algo que s Deus deveria fazer, tm uma linha direta com voc!
  Tristan se afastou da mesa. Ele no sentia medo -- era hora de agir.
   -- O fato de Gregory estar agora em Bryan facilita as coisas para mim --
disse, diante das portas duplas, olhando para a grama alta e para o mar alm
dela. -- Agora, finalmente, destruir Gregory ir significar simplesmente matar
um assassino.
  -- No! -- Lacey gritou. -- Destruir Gregory significar destruir voc
mesmo. No importa o que ele ou Bryan fizeram. Se o matar, vai condenar a sua
alma.
  Tristan viu Ivy fechar os olhos.  luz da lua, ela parecia plida.
  -- Tristan -- ela comeou, com a voz trmula --, o objetivo no  destruir
Gregory. O objetivo  ficarmos juntos, voc e eu.
   Voc no v?, Tristan queria gritar. Gregory jamais vai permitir isso! Mas
ela parecia to frgil, exaurida pelo medo.
  Ele se sentou e pegou a mo dela.
  -- Est bem, vamos tentar o seu plano. Vamos encontrar uma prova para
culp-lo pelos crimes de Bryan e colocar Gregory na priso pela vida toda.
Vamos ajud-lo a escrever sua prpria sentena de morte.
  Sentiu a mo de Ivy relaxar.
  -- Agora voc est raciocinando! -- disse Lacey.
  Ele achava que valia fazer uma tentativa, mas, se Gregory se aproximasse
demais de Ivy, nada o impediria de mat-lo.
                                               Captulo 10




 uma frmula secreta -- Will contou a Ivy na noite de quarta-feira,
   enquanto pincelava as coxas e as asas de um frango com molho barbecue.

   -- Um segredo que vem engarrafado -- Beth acrescentou, sorrindo. Ela estava
no balano do quintal, enchendo a tela do notebook, derramando palavras em
linhas de vrios tamanhos. -- Poemas.
  Will sorriu.
  -- O segredo est no que eu acrescento aos ingredientes da garrafa.
   -- O cheiro  bom -- Ivy deixou na mesa de madeira escovada um monte de
talheres de prata e prendeu a pilha de guardanapos com uma pedra. -- Aonde a
Kelsey vai hoje  noite?
  -- Para Wellfleet, com Max e Bryan -- disse Beth.
  -- No d para tomar conta dela o dia inteiro -- acrescentou Will, como se
adivinhasse os pensamentos de Ivy.
 Ela assentiu. Desde que Kelsey estivesse com outras pessoas, ela estaria bem.
Mas  claro que era impossvel impedir que ela e Bryan ficassem sozinhos.
  Ivy voltou ao chal para pegar uma jarra de ch gelado.
  -- Oi, Chase! -- gritou, vendo que ele se aproximava.
  -- Chase, como vai? -- perguntou Will.
  -- Bem. -- Chase mal olhou para eles. -- Imagino que Dhanya esteja a.
  -- Se arrumando.  bom ver voc, Chase. Fiquei realmente preocupada --
comentou Beth.
  -- No tinha motivo para se preocupar.
  -- Motivo suficiente para que voc passasse a noite no hospital -- Will
comentou. -- Que exames fizeram em voc?
  Chase lhe lanou um olhar frio.
  -- Os exames de sempre para quem bate a cabea num barco. Max quase nos
matou.
   -- Chase -- Ivy disse, baixinho --, voc estava dirigindo quando o barco
virou. E depois, quando Max te resgatou, voc estava meio inconsciente.
  Chase desviou o olhar.
  -- Voc se lembra disso? -- perguntou, curiosa.
  -- Como, se eu estava inconsciente? Disseram que tive um ataque epilptico.
   -- Um ataque epiltico -- Ivy repetiu. Tinha sentido. Os historiadores dizem
que muitas pessoas classificadas como " possudas pelo demnio" na verdade
sofriam de epilepsia. A explicao poderia muito bem funcionar ao contrrio. E
para algum como Chase, para quem controle e superioridade mental eram tudo,
uma explicao fisiolgica seria mais agradvel do que a ideia de um demnio
possuindo a sua mente. -- Bem, isso pode ser tratado com medicamentos.
  -- No vou tomar nada. No h nada de errado comigo.
   -- Oi, Chase -- Dhanya o cumprimentou, abrindo a porta de tela. --
Desculpe, no sabia o que vestir. -- Aproximando-se dele, ela estendeu a mo e
o tocou gentilmente no rosto. -- Como vai?
  Ele se afastou dela como se no suportasse que o tocassem.
  -- Vamos.
  Ivy o observou indo ao estacionamento com Dhanya. Ela tentou segurar na
mo dele, mas ele deixava os dedos dela escorregarem.
  Will voltou para a sua grelha.
  -- Que imbecil, pondo a culpa do acidente no cara que salvou a vida dele.
  -- Pegue leve, Will -- Beth disse. -- Ele vivenciou algo que no
compreende. E est muito s.
  Will sorriu.
  -- Se parasse de se achar mentalmente superior aos outros, talvez tivesse
companhia.
  -- O ego dele realmente dificulta as coisas -- acrescentou Ivy. -- De
qualquer modo, sinto pena de Chase. Ele est apavorado.
  Will olhou para Ivy.
  -- E ns tambm.
  -- Amanh  meu dia de folga -- disse Ivy quando ligou para Tristan
naquela noite.
  -- Ah, adivinhe... -- ele retrucou. --  meu dia de folga tambm. Que tal
um encontro?
  -- Que tal longe de Cape? Providence?
  -- Isso significa que tenho um encontro ardente com Gemma?
  Ivy riu. Tristan estava se referindo ao disfarce dela de estudante de arte e
colega de Corinne.
  -- Ela mal pode esperar para ver voc!
  Eles combinaram um horrio e um ponto de encontro: Ice House Pond. Ivy
ento colocou o celular no bolso e sentou-se para trabalhar num quebra-cabea da
mesa de caf. Por algum tempo, Dusty dormiu profundamente no sof junto
dela, depois bocejou, esticou as patas com tufos de pelos e saltou no cho com
um baque surdo.  porta do chal, ele miou, impaciente para comear a caada
noturna.
  Quando ela deixou o gato sair, ficou surpresa ao ver Max sentado numa
cadeira do gramado, tamborilando os dedos nervosos nos braos da cadeira. Ao
ouvir a porta de tela se abrir, ele se virou.
  -- Oi, Max. Est esperando algum?
  -- Estou tomando coragem.
  -- Sinto muito, Dhanya saiu.
  -- Vim ver voc.
   Ivy tentou decifrar a expresso dele nas sombras. Ser que ele percebia que
havia algo de diferente com Bryan? Talvez as perguntas dela na festa tenham
feito ele se lembrar de alguma coisa.
  -- Entre.
   Depois de aceitar um ch gelado de framboesa, ele sentou-se no sof, olhando
para o quebra-cabea. Apoiou o p direito no joelho esquerdo, depois mudou de
ideia e apoiou o p esquerdo no joelho direito.
  -- E a? -- Ivy perguntou, oferecendo-lhe a garrafa gelada e sentando-se numa
cadeira  direita dele.
  Ele ficou brincando com a sola do mocassim.
  -- Somos amigos. Pelo menos, eu penso em voc como amiga.
  -- Sim, somos -- Ivy confirmou e esperou.
  -- Amigos devem ser sinceros uns com os outros.
  Ivy assentiu com a cabea.
  -- Eu quase matei voc.
  -- O qu?! -- ela exclamou.
  -- Eu quase matei voc -- ele repetiu. -- Foi um milagre no t-la matado.
  Ivy o encarou.
  -- Max, o que aconteceu no barco no foi culpa sua.
  -- No -- ele disse --, isso no. O acidente de carro.
  Ivy calou-se, atordoada.
  -- Na noite em que voc e Beth vieram  minha casa buscar Dhanya e
Kelsey. Eu tirei vocs da estrada.
  -- Voc fez isso? -- A voz dela falhou de emoo. -- Por qu?
   Ele sacudiu a cabea como se no soubesse mais o que dizer; ento, levantou-
se e ficou andando de um lado para o outro.
   -- Eu no tentei fazer isso. Eu tentei no atingir voc, disso me lembro
muito bem. Mas tambm me lembro do meu carro indo direto na direo do
seu. Ento, talvez eu no tivesse tentado antes de ser tarde demais. Acho que
estava bbado. Mas, na verdade, no me lembro de ter bebido. Lembro que a
minha festa estava fugindo do controle, todo mundo bebendo demais. Procurei
Bryan, porque ele  bom para acalmar as coisas. Ele no estava por l, ento sa,
s para dirigir por a e fugir um pouco de tudo. No caminho de volta, acho que
estava correndo demais e aconteceu aquilo.
   Ele parou de andar e virou-se para ela. Estava meio escuro no chal. Ivy
acendeu a lmpada. Max parecia confuso, como ela mesma se sentia.
   -- Por que no desacelerou? -- ela perguntou. -- Por que no foi para o lado
direito da estrada?
   -- Eu tentei. Quero dizer, acho que tentei. Mas no conseguia controlar o
carro. Segurava a direo com a maior fora possvel, mas ela no virava... no
virava de jeito nenhum! O meu carro continuava indo na sua direo, at voc
sair da frente e capotar.
  Ivy se apoiou na almofada da cadeira, pensando.
  -- Depois que voc capotou, eu fugi -- Max sentou-se na cadeira oposta 
dela e baixou a cabea por um instante. -- Estou envergonhado. Devia ter
parado. Foi perto da minha casa; eu dizia a mim mesmo que a moada da festa
ouvira a batida... e ajudaria voc. Estacionei do outro lado da estrada, depois
voltei correndo e cheguei junto com o resgate. Fui um covarde.
   Ivy no falou nada durante algum tempo. O lado dela que vinha querendo
bem a Max queria dizer que isso tudo no tinha mais importncia; ela e Beth
estavam bem. Mas outro lado dela sabia que Max tinha se comportado to mal
quanto Bryan, abandonando as vtimas depois de um acidente. Pessoas boas
tambm conseguiam fazer coisas muito ruins.
  -- Max, eu o culpo por fugir, por mais nada. Acredito que tentou evitar o
meu carro. Voc no  o tipo de pessoa que machucaria outra deliberadamente.
Alm disso -- ela acrescentou --, pela sua prpria segurana, voc teria jogado
o carro para o lado.
  -- Mas o fato  que no fiz isso.
  Porque Gregory no o deixaria, Ivy pensou. Gregory j tinha voltado ao
mundo atravs da sesso esprita e viu uma oportunidade de mat-la. Ele
tampouco se importaria com Max. Max tinha lutado pelo controle do volante,
mas Gregory era mais forte e teve xito -- exceto que Tristan veio e a beijou.
  Ela no sabia como explicar isso para Max.
  -- Havia algo de errado com o seu carro. No tem como voc ter feito isso
deliberadamente.
  -- No quero inventar desculpas, Ivy. Preciso admitir que fiz algo terrvel e
acabar com isso.
  -- Por que no admitiu na poca? -- ela perguntou, curiosa. -- Talvez no
na hora, mas alguns dias depois?
   -- Na noite da festa, l pelas duas ou trs da manh, Bryan voltou. Contei a
ele o que tinha acontecido. Ele me disse para esperar, esperar as coisas se
acalmarem. Depois, quando soubemos que voc e Beth estavam bem, ele disse
que uma confisso iria estragar tudo. Os meus pais ficariam chateados. A polcia
investigaria os convidados, fazendo um monte de perguntas inconvenientes.
  Como onde esteve Bryan naquela noite, Ivy pensou.
   -- Ele me disse que Dhanya no iria querer mais nada comigo. Ento, deixei
isso de lado, e, quanto mais eu deixava e mais legal voc era comigo, pior foi
ficando. -- Ele levantou-se, olhando atravs da porta de tela por um instante. --
Ento, aconteceu esse passeio de barco.
  -- E da?
  -- Foi a mesma sensao de quando eu estava dirigindo na sua direo.
Quando Chase agarrou o leme e eu no consegui retomar o controle, foi como se
tudo estivesse acontecendo de novo.
  Porque estava, Ivy pensou. Gregory estava no controle novamente. Mas
Gregory sabia que ela estava com um colete salva-vidas. Desta vez, Ivy se deu
conta, o objetivo dele no era ela, mas um corpo -- um corpo perfeito para ele,
uma combinao feita no inferno.
  -- Na noite passada -- Max continuou --, sonhei com o seu acidente vrias
vezes. Quando acordei esta manh, sabia que precisava desabafar.
  -- Voc falou para o Bryan que iria me contar? -- Ivy perguntou. -- Ele est
na sua casa agora, no ?
  Max voltou  cadeira oposta a ela.
  -- Contei do pesadelo. No disse que iria falar com voc, pois sabia seria
covarde o bastante para deixar que ele me dissuadisse dessa ideia.
  -- No precisa contar a ele agora -- Ivy disse. Quanto menos Gregory
soubesse sobre as coisas de Max, menor poder teria sobre ele.
  -- Voc me perdoa?
  Ela viu os olhos lacrimejantes dele.
  -- Max, todos ns cometemos erros...
  -- E depois agimos como se nada tivesse acontecido, mesmo quando algum
podia ter morrido? -- Ele desviou o olhar.
  -- Somos humanos. Cometemos erros e, s vezes, o medo nos leva a
acobert-los.
   -- Pode dizer que me perdoa? -- Max perguntou. -- Me ajudaria ouvir voc
dizer isso.
  Ela no queria perdoar algo causado por Gregory.
  -- Caso contrrio, acho que no vou conseguir me livrar disso -- Max
explicou. -- Pode ser egosta, mas sinto que no...
  -- Eu perdoo voc -- Ivy disse, perguntando a si mesma se algum dia
perdoaria Gregory de verdade. -- Tambm quero me libertar disso.
  Depois que Max foi embora, Ivy ficou olhando o quebra-cabea, mexendo as
peas, tentando fazer ligaes. Forou o encaixe de duas peas, depois teve de
desfaz-lo.
  Se Gregory era responsvel por mat-la, Tristan no estaria justificado por
traz-la de volta  vida? O beijo de Tristan, que a trouxera de volta  vida no
tinha acertado as coisas de novo? Acertado, de acordo com quem? Acertado --
como se ela devesse ficar viva nesta terra. Acertado -- como se o desejo deles de
ficar juntos neste mundo fosse a nica coisa importante.
   Ivy queria acreditar que Tristan e Max eram vtimas da maldade de Gregory,
forados por ele a cometer erros. Mas a situao de Max evidenciou algo para
ela: embora no tivesse sido Max quem a tirara da estrada, ele teve uma atitude
errada na maneira de reagir ao acidente. Quando abandonara ela e Beth na estrada
para morrer, Max tinha sucumbido a uma tentao criada por Gregory. Assim
como Max, Tristan fora exposto a uma forte tentao imposta por Gregory.
Agora no tinha os seus poderes angelicais e a tentao de proteg-la era ainda
maior. A verdade  que cada pessoa  responsvel pela maneira como reage a
uma situao.
   No fundo, Ivy sabia que a misso de Tristan era salvar sua alma decada. Ela
faria qualquer coisa para ajud-lo -- qualquer coisa! Mas temia que a melhor
coisa para ele fosse ficar longe dela. Era a forma mais difcil de amar.
                                               Captulo 11




A
        inda via-se o orvalho da manh nas rvores ao redor de Ice House Pond.
        Tristan esperava que as roupas emprestadas, o jeans desbotado e a
        camiseta cqui, o ajudassem a se camuflar. Cantarolava ao caminhar,
sentindo-se como se tivesse recebido uma licena da priso. Em alguns
instantes, o carro de Ivy surgiu. Ele entrou rapidamente, escorregando para o
banco. Ela apertou a mo dele e continuou dirigindo. Quanto mais cedo sassem
de Orleans, melhor. No conversaram at que o carro entrou na Mid-Cape
Highway.

  -- Estou decepcionado -- ele disse. -- Onde est Gemma?
  Ivy deu um sorriso.
 -- Vamos encontr-la no Dunkin'Donuts do outro lado do canal. Ela est
morrendo de vontade de ver voc!
  -- Quem  que vamos visitar desta vez?
  -- A senhoria de Luke, Crystal Abbot. Uma das notcias do jornal diz que a
polcia conversou com ela, mas as pessoas nem sempre dizem para a polcia
tudo o que sabem. Ela se recusou a falar com jornalistas. Talvez fale com Luke.
Vale tentar.
  -- Vale a pena s por estar do seu lado -- disse Tristan. Com o brao
estendido, ele deixou a cabea cair para trs, sobre o apoio do banco. E com o
punho no ombro dela, deixou os dedos se aninharem nos cabelos macios de Ivy.
-- Queria que pudssemos dirigir assim direto pelo pas afora.
  Ela no respondeu. Quando ele virou a cabea, viu-a morder os lbios.
  -- Temos o dia de hoje -- disse, baixinho. -- J  mais do que
imaginvamos.
   Durante a parada no Dunkin'Donuts, riram novamente. Ivy saiu do banheiro
usando legging transparente estampada de coraes, rosas e crnios e botas
pretas com cadaro, abertas nos dedos. Sobre a blusinha, usava um colete tecido
de fitas e pedacinhos de vidro, tampas recicladas de garrafas de cerveja. Os clios
normalmente dourados pareciam ter sido escurecidos.
  -- No sei como consegue erguer os clios -- Tristan comentou enquanto
caminhavam abraados at o carro. Ele podia sentir o riso dela.
   J que no queriam deixar uma pista eletrnica no GPS dela, Ivy imprimiu
um mapa, marcando nele o endereo da sra. Abbot. Chegaram na vizinhana de
River Gardens, em Providence, perto das nove horas e estacionaram na rua
oposta  alta casa de madeira. Na vizinhana de cercas com correntes
enferrujadas, o quintal da sra. Abbot, com uma variedade de brinquedos de
plstico, parecia mais simptico que os demais. Flores cresciam nos cantos dos
degraus de concreto lascado. Junto da porta havia dois botes e duas caixas de
correspondncia. Ivy apertou o boto com o nome Abbot.
  A porta se abriu e a carinha de um menino apareceu no vozinho entre o
batente e a porta.
  -- A mame disse que o apartamento est alugado.
  -- No estamos aqui procurando apartamento para alugar -- Ivy comeou a
explicar.
   A porta se fechou e, em seguida, rapidamente se abriu de todo e uma criana
saiu. Ouviram-se passos no vestbulo e um vestgio de garotinha passou
correndo por Ivy e Tristan.
  -- Zeke, vou matar voc! -- ela gritou. Perseguindo o menino, ela deixou a
porta entreaberta.
  -- Ol? -- Tristan chamou, entrando com Ivy.
   No final do vestbulo, enfiada embaixo da escada, outra porta estava aberta, e
um beb engatinhava na direo deles. Um par de braos fortes surgiu,
recolhendo a criana.
  -- Desculpe -- a mulher disse, andando pelo vestbulo com o beb se
debatendo em seus braos. -- O apartamento est alugado.
  Tristan tirou o bon de beisebol e os culos escuros.
  -- Luke! Ento  verdade. Voc realmente tem voltado a Gardens.
  Ele simplesmente assentiu com a cabea, sem saber como Luke chamava sua
senhoria.
  -- Ol, senhora Abbot -- Ivy disse.
   -- Crystal -- ela respondeu com um aceno de cabea. A encorpada mulher
tinha uma pele avermelhada e o cabelo curto. O rosto simptico estava enfeitado
com um imenso par de argolas.
  -- Crystal, esta  minha amiga Gemma.
  -- Uma amiga de Corinne -- Ivy acrescentou. -- Corinne e eu estivemos
juntas na escola de arte.
  A mulher sorriu um pouco, dando uma olhada na roupa de Ivy.
  -- Dava para adivinhar -- ela disse. -- Entrem. Cuidado com o patinete. E
com o skate.
   A sala dos Abbots era ensolarada, a moblia gasta e os tapetes espalhados,
realmente espalhados, dando a sensao de que crianas corriam sobre eles o
tempo todo. Crystal balanava o beb no colo, tirando os travesseiros do cho
com a mo livre, enquanto os levava at a cozinha.
   -- Al est dormindo. O meu marido faz o turno da noite -- ela acrescentou,
dirigindo essa explicao a " Gemma".
   Eles a acompanharam at uma varanda com duas cadeiras de balano. Tristan
se sentou nos degraus. O quintal era uma pequena selva de mato que crescia sob
a copa de uma grande rvore. A julgar pelas cordas e pneus amarrados  rvore e
pelas latas com sobras de material de construo, era o paraso das crianas. O
menino e a menina estavam ocupados armando uma cabana.
  -- Como nos velhos tempos -- Crystal disse, e Tristan sorriu, sentindo o
mesmo constrangimento e humilhao que experimentava quando as pessoas
que gostavam de Luke o olhavam com ternura.
   --  melhor colocar o bon e os culos escuros. No vou contar para as
crianas que  voc. No quero que digam alguma coisa para a pessoa errada.
  Ele concordou e fez como ela pediu.
  -- Seja l quem for a pessoa errada -- Crystal acrescentou, franzindo a testa.
-- Voc sabe quem matou Corinne?
  -- No.
  Crystal balanou-se um pouco, depois virou-se para Ivy.
   -- Voc acha que o assassino  algum da vida recente de Corinne? Ela fez
inimigos na escola de arte?
  -- Ela no fez muitos amigos.
   O beb comeou a se agitar, e, para surpresa de Tristan, Crystal o entregou a
ele.
  -- Micah sempre gostou de voc.
   Tristan olhou para Ivy, sentindo-se perdido. Tentou lembrar-se de como as
pessoas seguravam bebs. O pezinho nu ficava batendo nas pernas de Tristan,
ento ele ergueu a criana pelos braos, de modo que pudesse flexionar os
joelhos rechonchudos.
  -- Est crescendo, garoto.
  O beb pegou a aba do bon de Tristan e comeou a mord-lo.
   -- Ei! Voc no sabe por onde isso andou --Tristan disse, segurando a
criana com uma mo e virando o bon para trs. Micah agarrou os culos de
Tristan e comeou a vir-los, batendo-os na cabea, depois deixou-os cair e
despencou no peito de Tristan. O corpinho dele estava mido e quentinho,
cheirando a talco. Batendo nas costas do beb e torcendo para que ele no
regurgitasse, Tristan olhou por cima dos ombros e viu Ivy rindo.
   -- Voc devia ter ido pra oeste, Luke -- Crystal disse. -- Ou sul. Cape no
fica muito longe.
  -- Sim, eu sei disso.
  -- O que aconteceu com Alicia? A menina no era do tipo que se suicida.
  -- Concordo -- ele disse.
  -- Ouvi gente culpando voc -- ela continuou. -- Sei que no  verdade.
  -- Acho que quem matou Corinne tambm matou Alicia. Ela estava aqui
comigo na noite em que Corinne me pediu para encontr-la em Four Winds.
Alicia no percebeu que era meu libi, quando tudo aconteceu.
   -- Ento, mataram o seu libi. -- Crystal fechou os olhos por alguns
instantes. -- Deus tenha piedade.
   -- A senhora viu Alicia naquela noite? -- Ivy perguntou a Crystal. -- Sei
que se tivesse visto a que horas ela foi embora, teria contado para a polcia. Mas
talvez tenha visto quando ela chegou. -- A voz de Ivy implorava. -- Qualquer
coisa que possa contar como ajuda.
  Crystal lanou um olhar para " Luke".
   -- Voc sempre ganhou o corao das meninas. -- Em seguida, ela apontou
para alguns degraus exteriores. -- Ali  a escada para o terceiro andar -- ela
contou a Ivy. -- Os fins de tarde so barulhentos por aqui; Al agita as crianas.
Eu me enfio no quarto e estudo, no vi nem ouvi nada. Contei isso para a
polcia quando bateram na nossa porta s duas da manh. No estava acordada o
suficiente para ser o libi de algum. O melhor que pude fazer foi impedir que
revistassem o quarto de Luke sem um mandado.
  Portanto, de novo sem sada, pensou Tristan.
   -- E Bryan Sweeney? -- Ivy indagou, deixando a pergunta no ar, testando a
reao da senhoria diante da meno a ele.
  Crystal observou os filhos carregando um bloco de concreto para a cabana
num carrinho de mo enferrujado.
  -- Bryan ajudou. Ele tirou Luke daqui. Mas ele e eu no nos entendemos.
Voc sabe disso, Luke.
  -- Por que no? -- Ivy perguntou.
   -- Voc o conhece? -- a mulher retrucou. -- Ele  bem parecido com
Corinne. Ambicioso. Autocentrado. Disfara melhor que Corinne, mas est
sempre preocupado consigo mesmo. -- Crystal avaliou Ivy, depois levantou-se
decidida -- Guardei uma coisinha pra voc, Luke. Acho que posso entregar na
frente de sua amiga.
   Ela sumiu na cozinha. Ivy e Tristan trocaram olhares esperanosos. O beb
esticou as pernas gorduchas, tentando ver aonde a me tinha ido, depois
descansou no ombro de Tristan.
   Crystal voltou com uma caixa de cereal. Enfiando a mo na tampa de papelo,
tirou de l um envelope pequeno e fofo e o entregou a Tristan, pegando ento o
beb. No envelope, endereado a Luke, o remetente escrito com letra de mo era
Corinne Santori.
  -- Ele chegou dois dias depois que Corinne foi morta, um dia depois de a
polcia ter vasculhado os seus cmodos.
  Tristan ergueu um olhar questionador para Crystal.
  -- Al e eu decidimos no contar aos policiais. Se tivessem pegado voc,
daramos um jeito de envi-lo. Do nosso ponto de vista, isso era s para voc.
  Tristan precisou de todo o seu autocontrole para no rasgar o envelope ao
abri-lo. Tentou soltar a fita adesiva e depois pediu uma tesoura. Com alguns
piques, conseguiu abrir um dos cantos. De dentro caiu algo pequeno e slido.
  -- O pen drive dela! -- Ivy exclamou suavemente.
  Tristan colocou o drive no cho, junto de si, depois tirou um bilhete do
envelope.
  -- " Luke, guarde isso para mim com cuidado" -- ele leu em voz alta.
  -- Qual  a data no envelope? -- Ivy perguntou.
  Tristan apertou os olhos.
  -- O dia anterior da morte de Corinne.
  -- Algum estava na cola dela -- comentou Crystal.
   Tristan pegou o pen drive. Em algum lugar daqueles dezesseis gigas havia
fotos do carro acidentado de Bryan. Essas fotos, o bilhete de Corinne e a foto de
Bryan com as abotoaduras, que combinavam com a deixada junto de sua
primeira vtima, seriam provas suficientes para convencer a polcia.
   -- Eu no espalharia que voc tem isso -- Crystal aconselhou. -- Corinne
estava sempre enfiando a sua cmera na vida dos outros. Vai ter gente de monte
querendo agarrar isso da sua mo.
   Tristan sorriu, guardando o pen drive no bolso. Claro! Havia outros que
teriam feito coisas ilcitas, mas menos graves que um assassinato. Essas pessoas
poderiam confirmar que Corinne era chantagista. Eles no se apresentariam
espontaneamente, mas, se houvesse provas, certamente se abririam com a
polcia.
  -- Voc tem alguma coisa onde possamos guardar este envelope?
  Crystal trouxe um plstico com fecho.
  -- No sei como agradec-la -- Tristan disse.
  -- Voc pode pagar os seus dois ltimos aluguis -- Crystal respondeu.
  -- Devo dois meses? -- Tristan viu Ivy escondendo o riso.
  -- Voc pagou o terceiro ms pintando os banheiros, lembra?
  -- Anote o valor -- disse Ivy. -- Vai receber.
  Crystal assim fez e depois os acompanhou at a entrada com Micah no colo.
  Tristan no sabia como se despedir. Um cumprimento de mo parecia formal
demais para uma mulher com quem Luke se sentava na varanda. Mas cada
abrao que dava enquanto se passava por Luke fazia com que se sentisse mais
desleal. Passou a mo gentilmente na cabea do beb.
  -- Logo, logo -- ele disse --, voc estar correndo atrs de seu irmo e da
sua irm. Vai mostrar a eles como esses pezinhos so rpidos.
  Os olhos escuros de Crystal se emocionaram.
  -- Sentimos sua falta, Luke.
  Quando voltavam, Ivy sorriu.
   -- Completamente natural -- ela provocou. -- Quem imaginaria isso? S
faltou voc dar de mamar e trocar o beb.
   -- , e grudar a fralda no pagozinho dele. Voc viu como era pequeno? Viu
as unhas em miniaturas dele?
  Ivy riu de Tristan.
  Eles tinham pegado o notebook de Ivy no porta-malas e Tristan o ligou
enquanto ela dirigia. Depois, colocou nele o pen drive.
  -- Vou fazer um backup.
  -- Estou tentando me lembrar de um bom lugar para a gente comear a
pesquisar os arquivos. Verifiquei as coisas on-line ontem  noite. Com a morte
de Alicia, voc virou novamente notcia em Massachusetts e Rhode Island,
completa com fotos.
  -- Sim, mas de acordo com Chase, no muito elogiosa -- Tristan brincou.
Estava com o corao mais leve agora. -- Que tal Connecticut? Hartford. 
mais fcil passar despercebido em outra cidade.
  -- Boa ideia! Sei exatamente onde podemos ficar bem sossegados.
  Depois de duas horas e uma parada para descansar, quando Ivy largou as
coisas de Gemma, exceto os clios, ela parou num estacionamento da Trinity
University. Tristan guardou o notebook no bolso protegido da mochila e a
pendurou no ombro. De mos dadas, caminharam at a biblioteca. Podiam se
passar por quaisquer estudantes universitrios num campus meio vazio por conta
do vero.
   Pelas horas seguintes olharam fotos.  primeira vista, acharam que a tarefa
seria fcil. Embora o pen drive contivesse um nmero imenso de fotos e
houvesse pastas dentro de pastas, os arquivos eram nomeados da maneira
sistemtica que um artista compulsivo -- ou chantagista competente usaria.
  Porm, nomes supostamente promissores de pastas davam em arquivos
inteis. Em uma pasta denominada River Gardens, havia apenas um carro, que
aparecia numa foto do padrasto de Corinne com o carro que tinha para alugar.
Encontraram o ensaio fotogrfico dela, Carscape, entre seus trabalhos escolares,
mas essas fotos tinham um trato to artstico que no havia nenhuma foto de
algum carro facilmente identificvel com batida na parte dianteira.
  -- No sei muito sobre como um fotgrafo usaria o computador -- Tristan
comentou, reclinando-se na cadeira. -- Existe algum jeito de pesquisar fotos de
acordo com a data?
  -- A data em que foram tiradas? -- Ivy suspirou. -- No sei.
  -- Se ela as enviou a Luke, por segurana, deve haver algo que a incrimine.
   -- Concordo. -- Ivy esfregou os olhos e reclinou-se na cadeira. -- Talvez
Corinne usasse um drive maior e colocasse essas muitas fotos nele para impedir
que algum que o pegasse fosse capaz de encontrar facilmente fotos
comprometedoras. Tristan, que tal deixar Will abrir isso? Ele faz um monte de
trabalhos de arte no Mac, inclusive fotografia. Deve saber as coisas tcnicas que
Corinne sabia. E, sendo da rea, talvez veja padres nessas fotos que a gente no
v.
  Tristan concordou.
  -- Vamos fazer uma pausa, depois continuamos um pouco mais. Se no
encontrarmos nada, entregamos a ele.
   Encontraram um caf no campus chamado Cave, pegaram sanduches e foram
fazer um piquenique no ptio principal, embaixo de uma rvore. Moas se
espalhavam pela grama tomando sol. Um rapaz jogava frisbee com o cachorro.
Estudantes passeavam por um caminho de lajotas, entre edifcios de arenito. O
telhado inclinado desses edifcios era pontuado de empenas, torres e guas-
furtadas, to perfeitas nos detalhes gticos que pareciam cenrio de cinema.
   Depois de comer, Tristan deitou-se na grama, olhando para a copa dos bordos
e para as petalazinhas de cu azul que surgiam aqui e ali. Ivy deitou-se ao lado
dele, recostando a cabea em seu ombro. Ele enrolava de leve o cabelo dela nos
dedos, ouvindo os fragmentos de conversa de duas pessoas que passavam, um
jovem que falava animadamente sobre algo que havia lido e um homem mais
velho, cuja contribuio para a conversa era apenas uma risadinha.
  -- Esta  a universidade que voc vai cursar -- Tristan disse, de repente.
Mais cedo, ele tinha notado que Ivy conhecia o caminho at a biblioteca. Em
um ms, ela estudaria ali, moraria num dormitrio e faria amizade com pessoas
que ocupavam um mundo bem diferente daquele que ele habitaria como Luke.
  Ivy ergueu a cabea e o observou.
  -- O que foi? No que est pensando?
  Como Luke, ele no tinha diploma de colegial, nem casa, nem emprego; e
no tinha dinheiro ou histrico para obter essas coisas.
  -- Andrew e Maggie e seus novos colegas de universidade no vo brindar
nossa relao com champanhe. Ivy, ningum que goste de voc vai querer nos
ver juntos.
  -- Philip vai. E Beth e Will... esto felizes por ns -- ela argumentou.
  -- Mas para os demais, serei sempre um suspeito que fugiu da polcia.
  -- No importa. Sei quem voc . Sabia antes de voc saber.
  -- Se tivermos sorte -- Tristan continuou --, serei visto como o melhor
amigo de um assassino, o antigo namorado de uma chantagista e...
  Ela o silenciou colocando o dedo em seus lbios.
  -- Tudo o que importa  o que voc significa para mim.
  -- Para voc sou um " decado".
  Ela passou os braos em volta dele.
  -- Voc vai se redimir. Vamos resolver isso.
   Mas tudo o que ele conseguia ver eram as coisas mundanas que os manteriam
afastados um do outro, realidade que no sabia como mudar. Sabia, apenas, que
teria de proteg-la de Gregory. Daria a alma por isso!
  -- Voc ainda  voc, Tristan. E eu o amarei para sempre.
  Ele a beijou. Deus o proteja -- ele sabia que lhe daria o beijo da vida de
novo!
  -- Mesmo depois...
  Ela envolveu a cabea dele nos braos.
  -- Eternamente.

  -- Ento pode nos ajudar, Will? -- Ivy perguntou na quinta, tarde da noite.
  Will tinha se sentado em silncio em sua cadeirinha reta, brincando com
pedacinhos de giz colorido espalhados na mesa perto dele, ouvindo a histria de
Ivy. O desenho em que ele trabalhava quando ela entrou tinha sido
apressadamente escondido sob um catlogo de cursos da New York University.
  Ele deixou cair o giz e virou-se para ela.
  -- Incrvel. No acho que poderia sobreviver a tudo o que voc e Tristan tm
enfrentado.
  -- Conheo o seu corao, Will. Voc poderia. Mas espero que no precise.
  Ele inspirou fundo e soltou o ar devagar, como se ainda refletisse sobre as
coisas que ela acabara de lhe contar sobre Bryan e as investigaes de
assassinato. Em seguida, estendeu a mo para o pen drive.
  -- Vamos ver o que posso encontrar. Se Corinne realmente fazia questo de
esconder as suas coisas, vai levar algum tempo. Vou fazer uma cpia. Voc
deveria colocar o original de Corinne num cofre.
  -- Boa ideia.
  Ele enfiou o drive USB na entrada do computador, clicou em um cone e
comeou a abrir as pastas.
  -- Nossa!
  -- Sei que estou descarregando um monte sobre voc.
  Ele se virou para ela, sorrindo.
  -- Ei, essa chance de xeretar o trabalho de outro artista -- artista e
chantagista --, eu vou adorar! -- O tom de voz era leve, mas seus olhos escuros
demonstravam uma intensidade e preocupao que traam o sorriso.
   -- Obrigada, Will. -- Ivy lhe deu uma pasta com fotos e artigos que tinha
extrado da internet, alm de uma lista de nomes e descries fsicas de pessoas
e lugares que tinha visitado em River Gardens, material que poderia ajudar Will
a identificar o que via nas fotos.
  Enfiando o drive de Corinne no bolso, ela disse:
   -- Will, ao lhe contar tudo isso, eu o coloco em perigo. O que faremos em
relao a Beth?
  -- Ela iria gostar de saber -- ele disse sem hesitao. -- Eu conto a ela.
  Ivy concordou e levantou-se para ir embora.  porta, voltou-se:
   -- Por falar nisso, esse desenho que voc fez de Beth e que est embaixo do
catlogo  lindo. Voc deveria mostrar a ela.
  Will, embora bronzeado, ficou meio rosado.
  Voltando do quarto de Will, Ivy encontrou-se com Dhanya, que cantarolava e
balanava a bolsa enquanto ia at o chal. Ela parou e sorriu para Ivy.
  -- Oi.
  -- Oi, Dhanya. Divertiu-se com Max?
  -- Na verdade, sim -- Dhanya respondeu. -- Quando me convidou para sair,
eu s queria sair daqui e parar de me preocupar com o jeito esquisito como vem
agindo Chase. Mas os vidros no Museu do Sanduche eram maravilhosos.
Depois, andamos pela cidade. Max  timo nas compras, no me apressa nem
um pouco. Sabe, s vezes, at a minha me se chateia quando eu vou fazer
compras, mas Max tem pacincia.
   --  mesmo? -- Sabendo como era ir  mercearia com sua colega, Ivy podia
facilmente imaginar Dhanya pegando pea por pea de um monte de coisas e,
enquanto as avaliava, Max estaria feliz, admirando-a.
  -- Ele me perguntou se gostaria de ir a Nantucket no meu dia de folga. Disse
que  bem bonito l. -- Ela deu uma olhada em Ivy como se quisesse uma
opinio.
  -- Dizem que  timo -- Ivy disse, comentando mais sobre a ilha do que
Max. Dhanya precisava decidir por si mesma com quem queria sair. Ivy abriu a
porta de tela, mas Dhanya parou nos degraus do chal, como se quisesse dizer
mais alguma coisa.
   -- Sabe, foi Max quem salvou Chase quando ele teve o ataque -- Dhanya
disse. -- Apesar de todas as vezes que Chase riu de Max, Max no fala mal dele
e no sai por a contando que o salvou.
  -- Eu sei.
  Dhanya tirou o celular do bolso e sorriu um tanto acanhada.
  -- Acho que vou mandar uma mensagem para o Max... para que ele no faa
outros planos.
  Ivy sorriu. Que outros planos ele faria?!
                                               Captulo 12




Kelsey! -- Bryan berrou da sala na sexta-feira  noite.
  Ivy colocou a sacola de livros de msica na cadeira da cozinha e olhou para a
porta da frente, por onde Bryan entrava.
  -- Estou aqui em cima -- Kelsey gritou do quarto. -- Suba.
  -- No, fique onde est! No estou vestida -- Dhanya falou, provocando a
gargalhada sonora de Kelsey.
  Um instante depois, Bryan apareceu no corredor entre a sala e a cozinha.
  -- Oi, Ivy. -- Seu tom de voz grave e sedutor dava arrepios em Ivy. Parecia
que estavam de volta  cozinha de Stonehill, com Gregory vivo e em seu
prprio corpo.
  -- Oi. -- Ela fez se de ocupada, enquanto lavava e enchia uma garrafa de
gua.
  Ele pegou a sacola de livros, sentou-se e comeou a folhear as msicas de Ivy.
Ela desejou arranc-las das mos dele, mas resistiu ao impulso, pois no queria
que ele soubesse que a enervava. Abrindo o congelador, ela pegou alguns cubos
de gelo e os jogou na garrafa.
  -- Quer ir ao cinema esta noite? -- ele perguntou.
  -- O que vocs vo assistir?
  -- Harvest Moon.  sobre um serial killer.
  -- Que agradvel. Onde est Max?
   -- Disse que tinha uma viagem qualquer a fazer, mas no acho que goste de
filmes violentos. -- Bryan cruzou a cozinha e se aproximou de Ivy. -- Algumas
pessoas se assustam com a fico e com a prpria imaginao sombria -- disse
ele, falando bem perto da orelha dela -- e outras, com a realidade.
  Os passos na escada os alertaram, mas Bryan no se apressou para se afastar.
Kelsey o recompensou com um olhar mordaz para Ivy.
  -- Obrigada por agradar o meu namorado, mas estou aqui agora.
  -- S estava preparando alguma coisa para beber.
  Bryan lanou a Kelsey um sorriso jovial.
  -- Com sede, garota? Tenho uma caixa de cerveja no carro.
  -- timo! -- Kelsey respondeu.
   -- Lembre-se da festa -- disse Ivy, sem poder alertar Kelsey sobre Bryan de
forma mais direta. -- Lembre-se de como passou mal.
  -- Que festa foi essa? -- Kelsey perguntou, rindo, chamando em seguida a
amiga pelo vo da escada. -- Vamos, Dhanya!
  -- Dhanya tambm vai? -- Ivy se surpreendeu.
  -- Kels, voc me empresta o seu casaco azul? -- Dhanya perguntou.
  -- Se o seu lindo traseiro chegar aqui antes de o filme estar na metade, sim.
   Ivy no gostava da ideia de um demonaco Bryan dirigindo por a com
Kelsey e Dhanya, com todas as desculpas que uma caixa de cerveja poderia
oferecer.
  -- Pensando melhor, tambm vou.
  Kelsey franziu o cenho.
  -- Achei que voc iria estudar piano.
  -- Fao isso no domingo.
  Kelsey fez uma careta.
  -- O padre no-sei-quem no vai ficar chateado?
  -- Calma, Kelsey -- Bryan interveio. --  sexta-feira  noite e Ivy precisa de
um descanso. Algumas mortes e um pouco de violncia vo fazer bem a ela.
  -- Estou pronta -- Ivy disse, pegando a bolsa.
   Vinte minutos depois, eles chegaram ao cinema, que tinha sido construdo
muito tempo antes dos cinemas multiplex. Correntes de ar-condicionado mofado
e o cheiro forte de pipoca amanteigada flutuavam pelas fileiras. Os bancos eram
to gastos que Ivy sentia as peas de metal do assento. Kelsey garantiu que
Bryan entrasse primeiro na fileira, seguido por ela mesma, depois Dhanya. Ivy
ficou feliz de sentar-se bem longe de Bryan.
   -- Espero que no haja muito sangue -- Dhanya comentou. -- No me
incomodo com filmes de serial killers, desde que no sejam muito sangrentos.
   -- Voc prefere assassinos que estrangulam? -- perguntou Bryan, projetando
a cabea o suficiente para olhar para Ivy.
  -- Prefiro assassinos que faam qualquer outra coisa que no seja sangrar as
pessoas.
  -- Exatamente o que penso -- ele disse. -- Quem vai querer limpar a
sujeira?
   Havia apenas uma cena com sangue, o resto do enredo se dedicava a mostrar o
perfil do serial killer, que ceifava as suas vtimas na lua cheia. Ivy gostava de
suspenses, mas esforou-se para acompanhar esse. Sua cabea no era capaz de
processar o que via e ouvia. Quando o filme terminou, mais cedo do que
esperava, ela teve a impresso de que tinha cochilado. Com os crditos ainda na
tela, as luzes se acenderam. Ento, Ivy virou-se para a sua colega de quarto e viu
que Dhanya dormia.
  -- Dhanya? Dhanya? -- ela disse baixinho.
   Na luz indistinta do cinema, ela via os olhos de Dhanya se mexerem de um
lado para o outro sob as plpebras. Ivy a sacudiu.
  -- Ei, Dhanya.
  Bryan inclinou-se por cima de Kelsey.
  -- Dhanya, acorde -- ele ordenou.
  Ela abriu os olhos, olhando ao redor de imediato, como se tentasse entender
onde estava, ficando depois visivelmente aliviada.
  -- Voc estava sonhando -- Ivy lhe disse. -- Est tudo bem.
  Dhanya perscrutou o rosto de Ivy com os seus olhos pretos perturbados.
  -- O que foi? -- Ivy perguntou.
  Bryan se inclinou por cima de Kelsey.
  -- Tem alguma coisa errada, Dhanya?
  -- No. -- Mas os seus dedos estavam tensos sobre o colo.
  -- Algum pesadelo? -- ele insistiu. -- Me conte.
  A insistncia para que ela contasse o sonho chamou a ateno de Ivy.
   -- Vamos para o saguo, onde as luzes so mais claras -- ela disse. -- Vai
se sentir melhor.
  Mas Dhanya permaneceu sentada.
  -- Foi to real. O sonho parecia to real, Ivy. Eu estava na ponte do trem.
Voc tambm. E Luke. Voc estava com Luke.
  Dhanya franziu a sobrancelha, desviando rapidamente o olhar de Ivy.
  -- Continue -- Bryan a encorajou suavemente.
  -- A moa que morreu tambm estava l. Alicia.
  O corao de Ivy bateu mais rpido.
  -- E...? -- Bryan continuou encorajando-a.
  -- Luke e... -- Dhanya sacudiu a cabea e engoliu as palavras.
  -- Desembuche! -- Kelsey exclamou.
  -- ... a empurraram da ponte.
  -- Luke e Ivy empurraram Alicia da ponte? -- Bryan perguntou.
  -- Foi s um sonho,  o que sei -- Dhanya afirmou rapidamente.
   Mas ela estava assombrada com o sonho -- Ivy podia perceber isso nos seus
olhos. Tinha sido uma viso poderosa. Gregory teria aprendido a projetar ideias
e imagens em algum que estivesse perto dele?
   -- No sei quanto a vocs, mas essas cadeiras esto machucando o meu
traseiro -- Kelsey os interrompeu.
   Ivy levantou-se e Dhanya seguiu-a, mas quando Ivy quis passar o brao em
volta dela, Dhanya se afastou. Parecia constrangida e confusa. Cruzando os
braos e encolhendo os ombros como se estivesse com frio, ela saiu sozinha
pelas fileiras do cinema.
  Bryan sorriu e passou o brao em Kelsey. O brilho de satisfao nos olhos
dele gelou a alma de Ivy.

   Tristan estava concentrado em um romance de John Grisham, sentado na
grande poltrona de couro da sala, com apenas a lanterninha de leitura
iluminando as pginas amareladas do livro, quando ouviu um toque seco na
porta da frente. Desligando a pequena luz, ele esperou. Um segundo toque o fez
se levantar. Subiu calmamente os degraus e foi at a janela sobre a porta da
frente, separando as lminas da persiana com os dedos.
  Esperava ver Bryan, Chase, ou pior, a polcia. O que viu foi um cara baixo
que usava uma camisa de estampa brilhante. Max? O visitante combinava com a
descrio que Ivy fizera dele.
   At onde Tristan sabia, Bryan tinha mantido a sua vida em River Gardens
bem separada da vida na faculdade, portanto Tristan imaginava que tinha sido
pouco ou nenhum o contato entre Max e o Luke verdadeiro. Mas Max, assim
como outros, tambm o teria visto no carnaval no ltimo ms, quando Alicia o
" reconhecera".
   O cara na porta recuou alguns passos, verificando as janelas. Tristan
rapidamente soltou a persiana. Se atendesse a porta, confirmaria que andava se
escondendo ali. Claro, no atender no provaria o contrrio.
  -- Luke? -- o visitante chamou baixinho. --  Max Moyer, um amigo de
Bryan. Preciso falar com voc.
  Uma armadilha?
  -- Preciso falar com voc sobre a noite em que quase se afogou.
  Tristan desceu as escadas. Mesmo que fosse uma isca, no poderia evit-la.
  Quando abriu a porta, Max pareceu aliviado.
  -- Posso entrar?
  Tristan gesticulou, fechando rapidamente a porta atrs dele.
  -- Deixo as luzes apagadas. -- No havia razo para admitir que assistia a
vdeos e usava lanternas durante as vindas de Ivy. Ele conhecia bem a casa
escura, e Max no; Tristan queria conservar essa vantagem. -- Por aqui.
  Max seguiu o som dos passos de Tristan at a sala de estar, andando
hesitante, batendo num div.
  -- H uma cadeira logo a atrs -- Tristan lhe disse, sentando-se no sof
comprido obliquamente  cadeira de Max. -- Como me encontrou?
   -- Somando dois e dois -- Max respondeu. -- Kelsey comentou que Ivy
andava escapulindo  noite -- andando e pegando um caiaque --, ento conclu
que voc andava por perto. A tia Cindy era grande amiga dos pais daquele que
foi atingido pelo raio e eles foram embora de Cape. Procurei o endereo dos
Steadmans, vi que era fcil de chegar nele remando e resolvi checar.
  Tristan assentiu.
  -- A noite em que quase se afogou -- Max comeou, hesitante. -- O que
voc se lembra dela?
  -- Muito mais do que costumava lembrar. -- Se Tristan dissesse que no se
lembrava de nada, iria encorajar a mentira. E, para fingir, sabia o suficiente sobre
o que acontecera. -- O que voc lembra? -- Tristan retrucou.
  -- Quando estou acordado ou dormindo?
   Tristan tentou filtrar o significado da resposta de Max e levantou-se para abrir
as persianas. Precisava enxergar o rosto dele. Max piscou como se Tristan
tivesse acendido uma luz brilhante.
   -- Algumas noites atrs, eu contei a Ivy que fui eu quem tirou ela e Beth da
estrada.
  -- Eu sei. -- Ivy tinha relatado isso a ele quando foram a River Gardens.
 --  isso o que lembro durante o dia... todo dia, desde que aconteceu --
Max disse. -- Eu poderia t-la matado!
  Tristan ficou em silncio.
  -- E voc sabe o que fiz com voc?
  Sem ter nenhuma ideia, Tristan repetiu as palavras anteriores de Max:
  -- Na noite em que quase me afoguei.
  -- Tentei matar voc.
  Tristan se endireitou na cadeira. Isso no tinha sentido. Mas resolveu ver
onde ele ia chegar.
  -- Por que fez isso? -- ele perguntou em voz alta.
   -- No sei! -- As palavras foram pronunciadas como um gemido. -- No
tenho ideia por que iria brigar com voc ou com qualquer um. Nunca fui
briguento. Parece que a bebida me transformou em um tipo maluco.
 mais provvel, pensou Tristan, que seu bom amigo Bryan tenha tirado
vantagem de um blecaute alcolico, tramando essa histria e convencendo Max,
no caso de a polcia o alcanar.
  Sem culpar Bryan nem colocar Max em perigo, Tristan tinha que ajeitar as
coisas.
  -- Max, voc se lembra do dia seguinte?
   -- Como poderia esquecer? Os meus pais estavam loucos da vida. A polcia
e o pessoal do seguro ficaram o dia todo aporrinhando.
  -- Imagino.  estranho que no tenham perguntado a voc onde conseguiu
todos aqueles hematomas e cortes.
  -- Como assim? -- Max respondeu. -- Eu no tinha nenhum.
  -- No?! -- Tristan ficou de p. -- Levante-se.
  Max o encarou com certa hesitao.
  -- Voc sabe como eu estava quando me encontraram? -- Tristan perguntou.
-- Tinha ferimentos em todas as partes do corpo; braos, pernas, barriga,
maxilar. Ferimentos profundos que levaram semanas para sarar. Ah, e um lindo
corte na garganta.
  Max se retraiu.
   -- E eu sou... talvez vinte centmetros mais alto que voc? -- Tristan
continuou. -- Est dizendo que saiu de nossa pica briga sem nenhum
arranho?
  Max encarou Tristan. Segurou a cabea entre as duas mos e se sentou.
  -- Ento realmente foi s um sonho.
  -- Que  o que voc queria dizer quando contou que havia algo de que se
lembrava quando dormia -- ele concluiu.
   -- Os detalhes so to reais. Como a minha mente poderia inventar tudo
isso? A minha lembrana do carro de Ivy saindo da estrada  meio fragmentada;
tento virar a direo, sinto medo, acho que vou morrer... tudo passando rpido,
depois devagar, incrivelmente devagar. Mas o sonho no era como essa
lembrana. Era mais real que a realidade.
  -- Porque era s um sonho -- Tristan disse. -- Sei quem tentou me matar.
Essa parte da minha memria j voltou.
  -- Quem? -- Max perguntou em seguida.
  Tristan sacudiu a cabea, sem responder. Mesmo que pudesse convencer Max,
mesmo que o corao e a alma de Max fossem confiveis -- e Tristan achava
que provavelmente eram --, no poderia confiar na capacidade dele para fingir
que nada se passava.
  -- Por que no procura a polcia? -- Max perguntou.
  -- Quando for a hora -- Tristan disse. -- Max, se contar  polcia onde estou
antes disso, ser muito perigoso para mim. No deve contar a ningum, nem s
colegas de Ivy nem a Bryan. At que o assassino verdadeiro esteja sob custdia
da polcia, qualquer pessoa que saiba de mim corre risco.
  Essa foi a melhor persuaso que Tristan encontrou para acalmar a situao;
Max parecia se preocupar o suficiente com os outros a ponto de considerar o
conselho.
  Tristan levantou-se para acompanhar seu visitante at a porta.
   -- Se houver algo mais que queira que eu saiba,  melhor contar a Ivy do que
vir aqui de novo. Ela se encarregar de me dar o recado. -- Ele abriu a porta e
viu que a rua estava vazia. -- Onde est o seu carro?
  -- Algumas ruas atrs.
  -- Cuide-se, Max. No confie em ningum alm de Ivy.
  Max olhou para Tristan por um bom tempo, depois assentiu e foi embora.
   Tristan agachou-se e apoiou-se na porta da frente, inspirando fundo. Como
isso aconteceu? Ele duvidava de que fosse um sonho casual. Mas nem sua alma
nem a de Gregory podiam sair do corpo ao qual estavam presas. De algum
modo, Gregory tinha aprendido a estender os seus poderes mentais para alm do
corpo, invadindo os sonhos de Max.
  Na casa silenciosa, Tristan ouviu o sinistro murmrio. Que caminho? Que
caminho?
   As vozes! Tristan pensou. Foram as vozes que ensinaram Gregory. E elas
iriam ensin-lo tambm, se ele ousasse ouvi-las.
                                               Captulo 13




T ristan, onde esteve ontem  noite? -- Ivy perguntou, abraando-o.
  Desde que chegara em casa na sexta-feira, ela tinha ligado, mas no conseguiu
encontr-lo, a no ser depois da meia-noite. Ao telefone, ela lhe contou sobre o
sonho de Dhanya e eles combinaram de se encontrar na noite seguinte e pedir o
conselho de Lacey.
  Abraando-a apertado, Tristan demorou a responder. Fora da casa dos
Steadmans o cu era de um malva-plido; dentro, a penumbra era intensa.
  -- Eu estava andando... e pensando.
   Quando a soltou, Ivy deu um passo para trs, estudando o rosto dele para
tentar entender seu humor.
  -- Desculpe -- ele disse. -- Deixei o telefone em casa.
   O que significa, Ivy suspeitou, que ele havia sado da casa perturbado com
alguma coisa.
  -- Bem, isso foi uma bobagem -- a voz de Lacey precedeu a luz.
  Tristan oscilou na direo do anjo.
   -- Isto no  uma priso! No vou deixar que Gregory ou Bryan me
transformem num prisioneiro.
   -- Nem precisa -- Lacey respondeu, materializando-se na sala. -- Voc
colocou a si mesmo numa priso. S que  parecida com um corpo. -- Ela se
virou para Ivy. -- E a? Voc parecia preocupada ontem  noite.
   Ivy seguiu at a sala de estar, esperou que Tristan se sentasse, depois sentou-
se bem perto dele no sof. Lacey se jogou numa cadeira com apoio para os ps e
ouviu o relato de Ivy sobre a cena no cinema.
  -- Lembra-se dos meus pesadelos depois que Gregory tentou me matar?
   -- Os sonhos nos quais voc dirigia em uma tempestade e procurava uma
casa? Voc subia os degraus da frente -- Tristan recordou. -- E ali havia... uma
janela ampla, mas voc no conseguia enxergar atravs dela. A, voc se
aproximava -- ele ficou tenso de se lembrar do pavor de Ivy --, e o vidro
explodia.
  -- Voc acordava gritando -- Lacey acrescentou. -- E o bom e velho
Gregory sempre estava ali ao seu lado.
   -- Quando Dhanya acordou, foi assim tambm -- Ivy lhes contou --, o
modo como ele se inclinou, pedindo detalhes. Ele se parece com Bryan, mas s
vezes, pela maneira de falar e de usar as mos, eu vejo Gregory, como se
estivesse ali em carne e osso.
  Lacey remexeu os ombros.
   -- Dhanya no  o nico alvo de Gregory -- Tristan lhes contou. Ele relatou
a visita de Max.
  -- O que Gregory est tentando fazer? -- Ivy perguntou a Lacey.
  -- Como ele est fazendo...  isso o que precisamos saber -- disse Tristan.
   -- Uma coisa  certa, ele est armando um bom espetculo... e quer que voc
o assista, Ivy -- Lacey acrescentou --, ou no teria feito nada na sua frente. --
O anjo tamborilou os dedos na mesa  sua frente. -- Onde mora Gregory-
Bryan?
  -- Com Max, desde o acidente de barco -- Ivy respondeu.
  -- Portanto, primeiro Gregory semeia sonhos em um cara que dorme pesado,
um cara de quem ele pode ficar bem perto no meio da noite. Depois, tenta de
novo com uma moa que provavelmente est acordada no incio, uma vtima a
uma poltrona de distncia dele. A cada vez, Gregory faz um pouquinho mais.
  Ivy se arrepiou.
  -- Gregory pode tentar isso com qualquer vtima -- Lacey continuou --,
mas ele est praticando em pessoas conhecidas por voc, Ivy, desfrutando de sua
habilidade em fazer voc se contorcer. Aposto que Kelsey vai ser a prxima.
  -- Exatamente como antes, pegando os meus amigos, um a um.
  Lacey concordou.
  -- Isolando voc, assustando voc. Ele  bom nisso.
  -- E Beth e Will?
  -- Eles talvez sejam fortes demais para ele agora. Mesmo que seja capaz de
semear um sonho neles, eles permanecero leais e lutaro por voc at a morte.
   -- No quero que lutem at a morte! -- Ivy gritou. -- Os meus amigos j
sofreram o suficiente.
  -- Podemos impedi-lo -- Tristan disse. -- Quando eu tinha poderes de anjo,
conseguia viajar pelo sonho das pessoas.
  Lacey sacudiu a cabea.
  --  diferente. Gregory no deslizou para dentro dos sonhos que Max e
Dhanya estavam tendo. Ele semeou imagens falsas na mente deles.  como se
projetasse um filme.
  -- Voc pode descobrir o processo? Pode me ensinar a fazer isso?
   --  proibido, Tristan. Um dos dez mandamentos: No dirs falso
testemunho. No importa se so imagens ou palavras: a mentira no  permitida.
  -- Mas nem todas as mentiras so ms -- ele argumentou. -- Uma mentira
pode proteger.
  -- Estou avisando, Tristan...
  -- Eu estou avisando voc! -- ele a interrompeu. -- Quando Gregory estava
vivo, no prprio corpo, ele drogou Ivy, depois se vestiu com roupas como as
minhas, tentando fazer com que ela atravessasse o trilho do trem. Depois,
amarrou uma jaqueta de Philip na ponte do trem, para ela pensar que Philip
estava ali, correndo perigo. Ele estava criando imagens falsas a fim de atrair Ivy.
Est fazendo isso de novo. S que desta vez as imagens esto na mente das
vtimas.
  Lacey assentiu solenemente e se virou para Ivy.
  -- Ele est ensaiando para o grande espetculo, seja ele qual for.
  Tristan andava de um lado para o outro.
  -- Eu poderia impedi-lo, se tivesse os mesmos poderes. Voc pode descobrir,
Lacey, e se no puder...
  -- No! -- Lacey tentou pegar Tristan pelo brao. Ele se livrou facilmente de
seus dedos materializados. -- Nem tente, Tristan.
  Ele parou e virou a cabea, como se escutasse alguma coisa.
  -- O que foi? -- Ivy perguntou, olhando na direo das portas do trio,
depois por cima dos ombros, na direo da porta do vestbulo.
  Tristan desviou o olhar.
  -- Nada.
  -- Tristan?
  Ele no iria encar-la.
  Por fim, ela disse a Lacey:
  -- Vou ficar de olho em Kelsey.
  Lacey assentiu.
  -- Kelsey vai ser a prxima, mas lembre-se, Ivy, esses so apenas ensaios
com figurantes. Voc vai ser a estrela do filminho de horror de Gregory.

  Quando Ivy voltou da casa de Tristan, encontrou Beth na casa de Will,
ambos trabalhando no pen drive de Corinne. Ela rapidamente os informou da
capacidade de Gregory de semear sonhos.
  -- Fico feliz que Suzanne esteja do outro lado do oceano -- Beth disse
enquanto ela e Ivy voltavam ao chal. -- Sabe-se l o que Gregory teria feito
com ela!
  Ivy tinha pensado na mesma coisa.
  -- Voc soube dela nas ltimas semanas?
  -- Uma mensagem ou outra de vez em quando. Enviei poemas a ela.
  -- Voc tem escrito bastante -- Ivy deu o brao a Beth. -- Como  que no
me enviou nenhum?
  -- Eu... bom... s no pensei nisso. Eu... vou enviar um.
  -- Um?
  -- Dois.
   -- Quero trs! -- Ela s estava provocando, mas passando agora pelas janelas
iluminadas do chal, viu que Beth corava. -- Estou brincando.
  -- Eu sei. E eu... sempre mostrei tudo a voc. -- Beth silenciou.
  Ivy ficou imaginando por que Beth de repente estava relutante. A poesia seria
sobre Will? Talvez Beth achasse que tendo Will e Ivy sido um casal um dia...
  -- So poemas de amor? -- ela perguntou, acompanhando Beth pelo chal
adentro.
  -- Mais ou menos. Quero dizer, sim -- Beth riu de si mesma. --  o tipo
de coisa que escrevo: poemas sobre a natureza e o amor.
  Dusty tinha vindo atrs delas e saltara no colo de Ivy. Beth sentou-se no sof
perto dela.
  -- Ivy, s vezes voc pensa como ser em setembro?
   -- , penso. -- Ivy enfiou os dedos no espesso pelo do pescoo do gato. --
 estranho, no ? Tantas coisas sero diferentes do que pensvamos quando
recebemos as cartas de aprovao da universidade.
  -- No consigo imaginar ficar to longe de voc. Trinity fica a duas horas e
meia de Manhattan!
   -- Vai ser difcil -- Ivy reconheceu. -- Mas voc vai estar a apenas uma
viagem de metr de Will. Fico bem contente de vocs estarem na mesma cidade
-- ela acrescentou, para que Beth soubesse que estava feliz por eles. --  uma
cidade que tem seu lado romntico.
  Beth mordeu os lbios e ficou quieta por uns instantes.
   -- No quero perder a nossa amizade, Ivy! -- ela deixou escapar. -- Voc
entende? Voc  muito importante para mim. No quero fazer nada que arrisque
a nossa amizade.
  Ivy parou de agradar Dusty.
   -- Beth, voc e eu j fomos e voltamos do inferno juntas. No vamos perder
a nossa amizade.
  -- Nem mesmo se... -- ela hesitou.
 -- Se... -- Ivy repetiu, terminando a pergunta para a sua amiga: -- ... voc e
Will se apaixonassem?
  Beth assentiu com a cabea quase imperceptivelmente. Os olhos dela eram
grandes e azuis, fazendo Ivy pensar nas infinitas possibilidades refletidas no cu.
Havia uma franqueza no rosto de sua amiga, nem ingenuidade nem inocncia,
mas encantamento. Era uma das caractersticas que Ivy mais gostava nela.
  -- Ficaria to feliz se vocs se apaixonassem.
  -- No que eu tenha alguma razo para acreditar que ele...
  -- Ah, no me diga! -- exclamou Ivy.
   -- Mas, Ivy, s vezes, ele nem me olha, e isso acontece cada vez mais,
principalmente quando estamos juntos. E no me toca, no como costumava
fazer.
  Ivy gargalhou.
  -- Voc quer dizer um tapinha nas costas, como se vocs fossem
companheiros de exrcito?
  Beth fez uma careta.
  -- Ento pergunte o motivo a ele. Se mudou o modo de olhar para voc e de
toc-la, deve haver um motivo.
  -- Talvez. -- Beth quis pegar Dusty, mas o gato saltou do sof, alertando-as
para uma conversa do lado de fora. A porta de tela foi aberta, Dusty saiu
correndo e Bryan, Kelsey e Dhanya entraram.
  -- Oi, coleguinhas -- Kelsey disse. -- Cheguei antes de o relgio marcar
meia-noite e o meu cocheiro virar um rato.
  Um rato seria uma evoluo, Ivy pensou, olhando Gregory.
  -- Voc est bem? -- Beth perguntou depois que Kelsey se jogou numa
cadeira.
  -- No. A minha cabea di e estou meio zonza.
  -- Como ficou na festa? -- Ivy no conseguia esconder a preocupao.
  Bryan se espremeu junto dela, passando o brao pelo encosto do sof,
deixando os dedos descansarem em seu ombro.
  -- O que voc acha que pode ser isso, Ivy?
  Ela se forou a parecer relaxada. Se Gregory estava trabalhando a mente de
Kelsey, tentando semear nela um sonho, ele queria que Ivy soubesse e ficasse
com medo.
  -- No tenho ideia -- ela comentou.
  -- Ela est assim faz uma hora -- Dhanya disse. -- Estvamos jogando
minigolfe e na ltima rodada ela saiu. Quando fomos tomar sorvete, quase
desmaiou.
  -- No desmaiei, no -- Kelsey insistiu. -- Disse que vocs estavam me
entediando. Comecei a cochilar.
   Gregory poderia induzir o sono? Ivy pensou. Teria aprendido a levar a pessoa
a um transe hipntico antes de semear um sonho?
  -- Estranho, no , Ivy? -- Bryan a atiou.
  -- No muito. Kelsey vai para a cama tarde e levanta cedo. Precisa dormir
mais.
  -- Ela no  a nica -- Bryan disse, aproximando-se de Ivy. -- Como vai
Luke?
  Ivy deu de ombros.
  -- No tenho notcias dele.
   -- Ela est mentindo -- Kelsey disse, sendo recompensada pela rpida
ateno de Bryan. -- Ela tem escapulido  noite para se encontrar com ele.
Certo, Dhanya?
  Dhanya olhou para Ivy constrangida.
  -- s vezes, volta com cheiro de quem esteve na gua, mas no sempre. Foi
o que voc disse -- Kelsey lembrou Dhanya.
   Gregory j tinha traado parte do seu caminho at Tristan, Ivy pensou. Com
essa pequena dica, ele agora sabia que o esconderijo ficava perto da enseada.
Negar apenas confirmaria isso.
  -- Ela est se encontrando com algum -- Kelsey disse.
  -- Garotas atraentes em geral fazem isso. -- Bryan passou o dedo pela
corrente que sustentava um pingente de ametista dela.
   Ivy queria empurr-lo, mas estava determinada a no reagir com um gesto
dramtico, pois isso poderia agrad-lo.
  Beth levantou-se.
  -- Bryan, temos que estar de volta ao trabalho s seis da manh. Ento, 
melhor voc ir embora.
  -- Com licena -- Kelsey disse --, ele  meu namorado. Eu digo quando ele
deve ir.
  Mas Bryan se levantou.
   -- Beth tem razo. Est ficando tarde. -- Ele puxou Kelsey, beijando-a com
fora na boca, depois dirigiu-se  porta, rindo para si mesmo. No ltimo
momento, virou-se. -- Bons sonhos.
                                                Captulo 14




A
       ssim que Bryan saiu, Beth fechou e trancou a porta principal, embora a
       ameaa de invaso fosse de outro tipo. Dhanya foi direto para a cama.

   -- Kels, como est se sentindo agora? -- Ivy perguntou, notando que sua
colega ia um tanto desequilibrada at a cozinha. -- Que tal um refrigerante e uns
salgadinhos?
   -- No recusaria -- Kelsey respondeu, sentando-se na cadeira mais prxima.
Beth, que fechava a porta de trs, deu uma olhada curiosa na direo de Ivy, que
despejava um refrigerante adocicado e com cafena num copo com gelo. Ento,
fez sinal de que compreendera, abrindo a gaveta da cozinha e pegando um
baralho. Gregory semeava sonhos em pessoas adormecidas. No tivera xito
quando Kelsey estava acordada, mas ela ainda estava sob a influncia dele. Se
pudessem manter Kelsey acordada tempo suficiente para o efeito passar...
  Beth embaralhou as cartas e Ivy serviu mais dois copos.
  -- Sade! -- ela disse ironicamente, oferecendo o refrigerante a Beth.
  -- Por que no jogamos valendo centavos? -- Beth sugeriu.
  -- Boa ideia -- Ivy respondeu. Qualquer coisa para estimular o esprito
competitivo de Kelsey e mant-la acordada.
  Uma hora depois, com Kelsey no terceiro refrigerante e ainda precisando de
cafena, Ivy perguntou:
  -- Melhor, Kelsey?
  Sua colega deu uma olhada na pilha de moedas que tinha acumulado e sorriu.
  -- Muito!
  Beth tinha adormecido.
  -- Deixe-a -- disse Ivy, continuando o jogo com Kelsey.
  Quarenta e cinco minutos depois, Ivy se levantou para se espreguiar. De
costas para Kelsey, tentou espiar pela janela acima da pia, mas no conseguia
enxergar os bosques. Quo prximo Gregory teria de estar para semear um
sonho? Elas no podiam ficar acordadas a noite toda.
  -- Outro refrigerante? -- Ivy perguntou, servindo-se de um.
  Como no recebeu uma resposta, ela se virou. Kelsey tinha fechado os olhos.
Ivy correu at a mesa.
  -- Kelsey, acorde.
   Kelsey tinha as costas apoiadas na cadeira de madeira, mas os braos estavam
frouxos e a cabea tinha cado para a frente. Ivy ergueu o queixo dela
delicadamente. Sob as plpebras, os seus olhos se mexiam rapidamente -- ela
estava sonhando.
  -- Kelsey, acorde! -- Ivy exclamou, sacudindo-a pelos ombros, mas ela
continuou dormindo.
  -- Beth -- chamou Ivy, puxando a mo da amiga.
   -- O que... o que foi? -- Beth perguntou, sobressaltada, acordando
rapidamente. Percebendo o que acontecera, ela saiu da cadeira.
  -- Vamos, Kelsey. Abra os olhos!
  Kelsey estava murmurando e se remexendo. Embora as palavras e os
movimentos estivessem retardados pelo sono, parecia zangada. O suor se
acumulava em suas sobrancelhas.
  Beth bateu de leve nas bochechas dela com os dedos e Ivy pegou cubos de
gelo para esfregar nas mos e na testa de Kelsey.
  Kelsey arregalou os olhos.
  -- Saia de perto de mim! -- gritou.
  Ivy recuou.
  -- S estava tentando...
  -- Saia de perto, eu disse! -- Os olhos dela flamejavam e suas bochechas
coraram.
  -- Calma, Kelsey -- Beth disse, firme. -- Acorde. Acalme-se. Foi s um
sonho.
  Mas Kelsey estava furiosa.
  -- Voc no pode parar, no , Ivy? J entendi tudo. Voc sempre quer o cara
que no tem, o cara que no  seu. Luke, Bryan... Voc adora um desafio.
  Ivy sacudiu a cabea e colocou a mo no brao de Kelsey.
  -- Escute...
  Kelsey sacudiu o brao.
  -- Voc compete pelos caras!  esse o seu esporte!
  -- Kelsey, calma -- disse Ivy. -- Conte o que voc estava sonhando.
  -- Voc no est escapulindo para encontrar o Luke -- Kelsey respondeu. --
 o Bryan.
  Ivy fez uma careta. Gregory sempre soube manipular o medo das pessoas.
  -- Voc anda se divertindo com Bryan. Vi isso com os meus prprios olhos.
  -- No seu sonho -- revidou Ivy.
  -- No s no sonho. Sempre vejo vocs dois juntos.
  -- Mas  Bryan quem flerta. Ele s faz isso para provocar voc.
  Kelsey lutou para se levantar. Suas pernas estavam trmulas.
  -- Saia de perto de mim!
  -- No at a gente esclarecer as coisas.
   -- Saia! -- A voz de Kelsey ficou estridente. -- No quero voc perto de
mim. Nem do Bryan! -- Ela passou por Ivy. Apoiando-se no corrimo, subiu
as escadas at o quarto.
  Ivy sentiu a mo de Beth no ombro, segurando-a.
  -- Ela no consegue sair do sonho -- Beth disse, calmamente. -- Deixe isso
pra l.
  -- No vou deixar que ele vena -- Ivy insistiu.
  -- Se voc for-la a defender o sonho, ele vai se tornar mais real. Amanh a
gente tenta esclarecer as coisas.
   Ivy inspirou fundo e soltou o ar devagar. Duvidava que as coisas ficariam
diferentes para Kelsey no dia seguinte.
  -- Est sendo como antes, Beth. Ele est atingindo as pessoas prximas de
mim. Ningum est seguro.
   --  com voc que estou preocupada -- Beth respondeu. -- Posso ajudar
Chase. Pelo menos ele est respondendo s minhas mensagens e telefonemas.
Quanto a Kelsey, Dhanya e Max, os sonhos deles vo se apagar. Gregory s os
est usando para praticar. -- Beth envolveu os dedos de Ivy em suas mos
plidas e acolhedoras, como se rezasse. -- Voc sabe quem Gregory realmente
quer derrubar.
  -- Sim.
  Beth se inclinou, juntando sua testa na de Ivy.
  -- No vou deixar que ele pegue voc. Jamais!

   Escondido no bosque cerca de vinte metros do chal, Tristan fizera uma
guarda silenciosa. Os bosques atrs dele seguiam para oeste e norte, estreitando-
se contra o muro de pedras no muito firmes entre a casa de tia Cindy e seu
vizinho. Quando Tristan chegou, as luzes da cozinha do chal estavam acesas e
assim tinham ficado por um bom tempo. Ele observou e esperou, imaginando
em que proximidade Gregory teria de estar de sua vtima para semear um sonho.
Suas entranhas lhe diziam que Gregory atacaria de novo em breve.
  De repente, houve movimento na cozinha. Tristan ouviu que Kelsey falava
alto. Quis fazer uma investida no chal, mas forou-se a ficar escondido,
suspeitando que sua presa fazia a mesma coisa. Dez metros atrs dele, uma forma
escura lentamente erguia-se das sombras, desenhando uma silhueta contra o
mosaico mais claro das rvores. Gregory ergueu, triunfante, os braos e a cabea
para o cu.
  Tristan sentiu o dio queim-lo por dentro. Uma virao sombria, um
meneio malicioso sacudiu os ramos das rvores ao redor.
  Gregory virou a cabea rapidamente, como se ouvindo alguma coisa.
  -- Ol, Tristan.
  Tristan endireitou-se e foi at ele.
  -- Gregory.
  -- Voc veio para o espetculo. Fico envaidecido.
  -- No fique.
  Encontraram-se num claro de luar junto de uma rvore seca.
   -- Por que est assistindo ao show daqui? -- Gregory perguntou numa voz
afvel. -- Chegue mais perto. Espie pela janela. Kelsey consegue ser bem
divertida.
  -- No estou interessado em Kelsey.
  -- Voc est interessado em qualquer um que toque Ivy -- Gregory afirmou,
apoiando-se na rvore queimada. -- Assim como eu.
  Um murmrio baixo e satisfeito percorreu as folhas ao redor deles.
  Com o dedo indicador, Gregory queimou com um raio a casca clara da rvore,
desenhando nela uma longa cicatriz.
   -- Poder -- ele disse, com a voz suave de um amante. -- Consegue produzir
raios, Tristan? Consegue faz-los sob suas ordens?
  -- No gostaria muito.
  Gregory gargalhou.
  -- No perguntei o que gostaria. -- Ele examinou Tristan de alto a baixo
com um movimento de cabea, avaliando a fora do oponente. O corpo era de
Bryan, mas a atitude arrogante, de Gregory. -- No consigo controlar os raios
-- ele confessou --, no ainda, mas posso faz-los. J matei com eles.
   Tristan sentiu coceira nas mos de vontade de agarr-lo pela garganta e jog-
lo no cho. Um sussurro agourento agitou as rvores.
   -- Estamos presos nestes corpos, no ? -- Gregory comentou. -- As vozes
se esqueceram de mencionar esse pequeno detalhe at eu estar em segurana
dentro deste aqui. Se morrermos neste corpo, no podemos voltar.
  -- Ento, talvez no devesse pensar duas vezes antes de brincar com raios.
  -- Foi por isso que se segurou? -- Gregory perguntou.
  -- Como assim?
   -- Voc sabia da minha identidade antes que eu soubesse da sua. Por que no
atacou primeiro? Do que tem medo, Tristan?
  -- De nada.
  Gregory deu uma risadinha.
  -- Qualquer pessoa que tenha algo a perder tem medo.  esse o problema do
amor: ele lhe d algo a perder.
  O murmrio sinistro despertou vozes distintas: Agora. Sempre. Nosso.
  -- Por que no est semeando sonhos? -- Gregory insistiu. --  muito
divertido.
  -- No preciso de vtimas para me sentir vivo.
  -- Na poca em que eu era vivo -- Gregory disse --, voc podia se enfiar na
mente das pessoas. Na minha, na de Eric, voc rondava os nossos sonhos. Essa
implantao de sonhos seria brincadeira de criana para voc.
  Os msculos dos braos de Tristan ficaram tesos, os punhos se afiaram.
   -- Espera a -- Gregory disse, a voz como um gracejo. -- Eu devia ter
adivinhado! Voc no escolheu o corpo de um assassino procurado. Suas asas
foram cortadas!
  Agora. Sempre. Nossos.
  -- Que pena est pagando? -- Gregory escarneceu. -- Alguma coisa a ver
com Ivy. Se existe algum que pode acabar com voc  ela.
  Tristan lutou para controlar as emoes que se debatiam dentro dele.
  Que caminho? Que caminho?, as vozes perguntavam.
  -- O que voc quer, Gregory?
  -- Acho que voc sabe -- o demnio respondeu com frieza.
  -- Vingana. Mas ento por que est se segurando? Sabe onde Ivy est, onde
eu estou. E no tem nada a perder. Por que no nos matou?
  O poder est em voc, as vozes disseram.
  Gregory apoiou a mo no ombro de Tristan de modo condescendente.
  -- O trgico  que a diverso acaba com a morte de Ivy.
  Tristan sacudiu as mos.
  -- Pense nisso, Tristan.  o morrer que  divertido.
  Um misto de dio e horror percorreu as veias de Tristan.
  -- Assisti Ivy tendo uma tima vida  minhas custas...
  -- s suas custas?! -- Tristan exclamou.
   -- E eu mereo mais -- Gregory continuou -- do que v-la morrer
rapidamente e sem dor. P, p, Ivy morreu! Que coisa mais sem graa!
  Voc merece mais, as vozes disseram.
   -- Se tocar nela -- Tristan ameaou --, se fizer qualquer coisa para machuc-
la...
   -- Ela me deve! E eu vou faz-la pagar. -- As palavras de Gregory soaram
graves e intensas sob o timbre crescente das vozes. -- Vou sugar-lhe o sangue,
gota a gota.
  Tristan investiu contra ele. As vozes se esganiaram de prazer. Ele jogou
Gregory no cho, socando-o no maxilar sem parar, at os ns dos dedos
sangrarem.
  O poder est em voc, as vozes gritaram.
   Preso sob Tristan, Gregory reagiu, tirando-o de cima de seu peito com os
braos fortes e rolando para o lado. Saltando de p, chutou Tristan na cabea,
depois na barriga com muita fora, fazendo-o arfar.
  O poder e a glria! , gritaram as vozes.
   Esforando-se para ficar de p, Tristan cambaleou at a rvore seca. Gregory
fugiu, correndo at o muro de pedras. Tristan correu atrs dele, alcanando-o.
Viu que ele escalava a pilha de pedras e o seguiu, agarrando-o por trs. Eles
lutaram e as pedras soltas do muro alto despencaram. Engalfinhados, eles
escorregaram pelo barranco.
   No cho, os dedos de Tristan se fecharam em uma pedra pontuda. Era pesada
demais para peg-la com uma nica mo. Mas,  medida que o nmero de vozes
aumentava,  medida que ficavam mais agudas, uma fora repentina,
sobrenatural, surgiu dentro dele. Ajoelhado sobre Gregory, agarrando a pedra,
Tristan ergueu um brao. O rosto embaixo dele o encarou, aterrorizado. Tristan
tinha Gregory onde o queria: ele iria esmagar a cabea da serpente at que o
esprito de Gregory se esvasse.
  Pegue o que  seu! Diziam a ele as vozes.
   A vida de Gregory -- e a dele prprio --, era isso o que as vozes queriam. Se
ele matasse, se servisse aos demnios do inferno, estaria alm da redeno. Mas
a danao eterna valia a pena, se Ivy estivesse segura.
  Um sacrifcio! Um sacrifcio! Berravam as vozes, triunfantes. Agora, sempre,
nosso!
  Agora, sempre... delas. Delas no inferno por toda a eternidade, uma eternidade
sem Ivy. Para sempre sem Ivy.
  Tristan curvou a cabea. Conseguiu rezar duas palavras apenas. Anjos.
Ajudem.
  Lentamente, foi soltando a pedra e a arma escorregou no cho.
  Erguendo-se, Tristan colocou Gregory de p.
  -- V embora daqui! -- Ele o empurrou, embora suas mos ainda desejassem
machuc-lo. -- Saia da minha frente!
  Gregory limpou os machucados, sorriu para Tristan e escapuliu.
                                                Captulo 15




D
        omingo de manh, com Kelsey ainda enfurecida, Ivy e Beth trocaram de
        funo. Ivy se juntou a Will para servir o caf da manh. Enquanto
        varriam as ltimas migalhas e ptalas de flores da varanda, Beth reuniu-
se a eles.

  O rosto de Will se iluminou.
  -- Oi, pronta para andar de bicicleta esta tarde?
  Beth hesitou.
  -- Ser que podemos ir  noite?
   Ivy viu a decepo no rosto de Will, embora ele a tenha disfarado
rapidamente.
  -- Aconteceu alguma coisa?
  -- Na minha folga, conversei com Chase.
  -- Ah.
  Como Will no falou mais nada, Ivy perguntou:
  -- Como ele est?
  -- Ele diz que est bem -- Beth respondeu --, mas sei pela voz dele que no
est. Will, acho que eu devo passar l esta tarde.
  Will pegou uma cadeira e a devolveu ao seu lugar no final da varanda.
  -- Ele precisa muito de algum com quem conversar.
   -- Ou melhor, algum que possa ouvi-lo -- Will contraps. --  tudo o que
ele quer, uma plateia a quem exibir todo o seu brilhantismo.
  -- Eu posso ajud-lo -- Beth insistiu.
  Will ergueu as sobrancelhas.
  -- Conhece a cura para um ego bombado?
  Ivy sorriu diante da descrio precisa.
  -- J passei pela mesma coisa -- Beth explicou. -- Sou a nica pessoa que
sabe do que se trata.
  -- Ento, ele admite que estava possudo -- Will disse.
  Beth balanou a cabea.
  -- Bom, no, no exatamente.
  -- Imaginei o mesmo.
  -- No podemos passear depois? Vai estar mais fresco e mais bonito.
  -- Claro -- Will respondeu. -- Quando quiser. -- Virando-se, ele mexeu em
outra cadeira, uma que no precisava ser reposicionada.
   Beth lanou um olhar para Ivy, deu de ombros e saiu. Era tentador garantir a
Will que ele no tinha com o que se preocupar. Ivy sentia-se como se fosse
explodir com o segredo que estavam guardando, mas eles precisavam contar um
ao outro o que sentiam de verdade, e no que um amigo ajeitasse as coisas por
eles.
   Depois do trabalho, Ivy vestiu shorts mais frescos e um moletom, enfiou o
celular no bolso e tomou a direo da praia. Quando chegou no ltimo lance de
degraus para as dunas, viu Will sentado na plataforma a meio caminho. Ivy
hesitou, depois andou devagar -- fazendo barulho --, avisando-o e tentando
entender se ele iria querer a companhia dela.
  -- Oi.
  -- Oi -- ele respondeu suavemente.
  Ivy olhou para o mar, acompanhando seu movimento at o final de Nauset
Beach.
  -- Ento... voc contou a Tristan sobre Kelsey? -- ele perguntou.
  -- Vou contar -- ela disse, dando um tapinha no celular em seu bolso.
  Sentando-se nos degraus acima da plataforma, Ivy recostou-se nas bordas,
observando as gaivotas em suas performances areas sobre a renda espumosa do
mar. As mos de Will com frequncia denunciavam sua impacincia com os
outros, mas elas estavam quietas. Talvez quisesse falar.
  -- Por que ela ainda se importa? -- Will falou de repente.
  -- Por que Beth se importa com Chase,  isso o que est dizendo?
  -- Ele nem foi legal com ela.
  Ivy deu de ombros.
  -- Beth  gentil com as pessoas, tenham sido gentis com ela ou no. Voc
sabe disso.  por isso que voc e eu gostamos dela.
   --  coisa de mulher -- Will deixava a raiva aparecer. -- Garotas gostam de
caras carentes.
  -- Opa! Pera! -- Ivy exclamou, rindo em seguida.
  Will parecia um pouco acanhado.
  -- T bom. Mas voc tem de admitir, Beth sempre se sentiu atrada por ele.
  Agora estamos chegando a algum lugar, Ivy pensou.
  -- Voc se lembra de como ela ficou na noite que o encontramos na sorveteria
-- disse Will. -- Ficava falando como ele era " maravilhoso", como se ele fosse
o nico cara um pouco mais alto, o nico com ombros largos. Falou que ele
parecia a personificao de uma das personagens de seus romances.
  Ivy recordou aquele momento, quando ela e Will ainda estavam juntos.
Talvez o que tivesse interpretado como rabugice de Will fosse algo mais, que
nem ela nem Will perceberam na ocasio. Ela comeou a sorrir.
  -- O que foi? -- Will perguntou, virando-se para ela.
   -- S estava me lembrando de como voc foi horrvel quando Chase estava se
gabando de como esquiava e voc inventou aquela histria sobre um acidente
terrvel, e como o seu mdico o avisou que talvez voc nunca mais voltasse a
andar. O coitado do Chase ficou mudo durante um tempo.
  -- Por um tempo bem curto -- ironizou Will, que depois riu um pouco.
   Inclinando-se para a frente, ele apoiou os cotovelos sobre os joelhos e voltou
a ficar srio. Ivy observou o perfil dele, seus cabelos e clios escuros. Conhecia
bem a profundidade de seus olhos comoventes.
  -- Will, todo mundo tem um sonho romntico de amor, mas quando
encontramos o amor verdadeiro e sentimos que esse amor  maior do que
qualquer outra coisa que jamais poderamos imaginar, essa pessoa dos nossos
sonhos se dissipa.
  Ela o viu engolindo em seco.
  --Voc a ama? -- perguntou Ivy.
  -- Eu me preocupo muito com ela.
  -- timo, mas no foi isso que perguntei. Voc est apaixonado pela Beth?
  Ele no respondeu. Ela seguiu o olhar dele e viu dois barcos balanando nas
ondas, aventurando-se longe das guas protegidas, pareciam bem pequenos na
imensido do mar.
  -- Por que voc no conta pra Beth como se sente em relao a ela?
  -- Vou pensar nisso.
  -- Voc est apaixonado... no d para esconder isso. O que tem a perder se
contar a ela?
  -- Minha melhor amiga.
  -- Se ela no corresponder aos seus sentimentos, voc acha que se afastar de
voc?
  Ele assentiu com um gesto de cabea.
   -- Olhe s, mesmo depois de todo o sofrimento que Chase causou a Beth,
sendo obsessivo, tentando control-la e depois indo atrs de Dhanya, ela ainda
se preocupa com ele e quer ajud-lo. No subestime a fora dela. Quando se trata
de relacionamentos, Beth  a pessoa mais forte que j conheci.
  Will puxou o ar com fora e suspirou.
  -- Gosto tanto dela que chega a doer.
   Ivy olhou  sua esquerda, para onde os barcos pesqueiros e os iates atracariam
 noite, as ondas quebrando na praia, onde Tristan se escondia.
  -- Eu sei como , nem precisa me contar.

  Depois de tirar um cochilo na praia e de uma boa caminhada, Ivy voltou  St.
Peter para estudar piano, parando para comprar um lanche no meio caminho. Ao
chegar  igreja, encontrou a administrao fechada e um bilhete pregado na porta:
Pe. John voltar s 6h30. Decidiu esperar pela chave e, ento, passeou em torno
do prdio, em direo ao jardim do padre.
   Tinha visitado o jardim no dia que trouxera " Guy", como havia chamado
Tristan quando pensava que fosse simplesmente um fugitivo do hospital. Ele
ajudou o padre John a fazer um novo canteiro para as rosas na borda do caminho
cercado com vegetais. Agora, na parte interna, tomates amadureciam em seus
ramos, berinjelas pendiam de seus caules como bolas numa rvore de Natal,
pepinos e abboras se esparramavam com suas flores amarelas e frutas lustrosas.
Por baixo dos arbustos de rosas, embora ainda bem pequenos, alguns botes
floresciam sob as cores do pr do sol. Uma cadeira dobrvel estava ao lado deles
e Ivy sentou-se nela para comer.
  Com a tranquilidade daquele fim de tarde, ela se esforou para deixar de
pensar em Gregory e revisar sua lista de exerccios de piano. Abriu um livro e
comeou a estudar a nova partitura, mas no conseguia processar as notas que lia
-- no conseguia ouvi-las mentalmente, tampouco murmur-las em voz alta.
Apesar da soneca da tarde, sentia-se excepcionalmente sonolenta. As cores do
entardecer desapareceram.
  Uma tempestade de vero se aproximava. Ivy estava dirigindo e as primeiras
gotas de chuva caram no para-brisa, enquanto ela procurava o nome de uma rua.
Um raio cortou o cu e a tempestade desabou. Ela saiu do carro e subiu correndo
o degraus de uma casa de janelas amplas. Tentou ver alguma coisa l dentro,
mas s conseguia enxergar o reflexo das nuvens e das rvores escuras nas
vidraas.
  Foi tomada por uma crescente sensao de medo. J tinha feito isso antes e
sabia que alguma coisa na casa tinha o poder de mat-la. Afastou-se, mas a
vontade de ver quem ou o que era aquilo permaneceu. Ento, ela voltou.
Espiando pela janela de novo, viu uma esttua de pedra alta, um anjo com o
brao erguido e a mo apontando para o cu. Tombava em sua direo. E o
vidro explodiu no seu rosto.
  -- Ivy! Ivy, acorde!
  Ela abriu os olhos e deu com o rosto afvel do padre John, que a observava.
Chaves e uma bola de barbante verde estavam na grama junto dele. A brisa
perfumada pelas rosas e pelos ctricos batia quente e seca no seu rosto.
  -- Voc estava sonhando -- o padre disse.
  Ivy inspirou profundamente e soltou o ar devagar.
  -- Um pesadelo -- ele acrescentou com simpatia.
  Ela assentiu e deu uma olhada em volta.
  -- O senhor viu algum por aqui?
  -- No meu jardim? -- O padre pareceu surpreso.
  -- Ou no estacionamento?
  Ele balanou a cabea, franzindo a testa.
  -- No.
   Era o antigo pesadelo, Ivy pensou, mas com uma diferena. No ano anterior,
era um veado que se quebrava no vidro, depois o trem. Por que um anjo?, ela
questionou. A esttua, embora familiar, no se parecia com nenhuma que j
tivesse visto.
  -- Na sua igreja -- Ivy disse -- tem alguma representao de um anjo com
um brao erguido e a mo apontando para cima?
  O padre John olhou-a com curiosidade.
  -- No. Mas essa  uma posio comum nas esttuas dos cemitrios.
  Ivy fechou os olhos por um instante. Gregory tinha finalmente conseguido
entrar em sua mente, pensou, semeando o antigo sonho e acrescentando um
detalhe sinistro para assust-la.
   -- Est tudo bem? -- o padre perguntou, parecendo preocupado. -- Ivy, voc
est com algum problema? Tem alguma coisa ou algum a ameaando?
  -- No. No, foi s um sonho.
   Ele a observou de perto, aprofundando a pequena linha vertical em sua testa, e
disse:
  -- Voc veio estudar piano. Mas sente-se aqui e termine o seu sanduche
enquanto eu trabalho um pouco. Gosto da sua companhia.
   Ela sabia o que o padre John estava fazendo: certificando-se de que ela estava
bem, dando-lhe tempo para conversar, se ela quisesse. Ento, mordiscou o
sanduche e o observou enquanto ele cuidadosamente amarrava sua coleta de
frutas e flores para doao.
  -- Esta  a minha hora preferida no jardim -- ele disse. --  como dizem: a
gente est mais perto do corao de Deus em um jardim do que em qualquer
outro lugar da terra.
   Ivy fez o possvel para sorrir e assentir. Nenhum jardim, nenhum canto da
terra, ela pensou, estava a salvo de uma serpente como Gregory.
                                                 Captulo 16




T
      ocar piano no ajudou muito a acalmar Ivy naquela
      noite. Ela saiu da igreja s oito e quinze e dirigiu diretamente para a casa
      em que estava Tristan. Do lado de fora da casa dos Steadmans, ela
assobiou a cano de Carousel.

  Tristan abriu a porta e depois os braos. Ivy correu para eles. Deixando a
porta entreaberta, ele a abraou com fora.
  -- Tristan.
  Ele a beijou, depois deitou sua cabea no ombro, apertando o rosto contra o
dela, como se adivinhasse que ela precisava de aconchego, acima de tudo.
  Quando ele a soltou, Ivy tocou-lhe na testa.
  -- Nossa! O que aconteceu com voc?
  Tristan esfregou as tmporas pesarosamente e ela ento viu um corte nos ns
dos dedos dele.
  -- Esbarrei com um mvel desagradvel. A esta altura, era de se esperar que
eu j conhecesse bem esta casa.
  -- Di?
  -- S o meu orgulho -- ele respondeu, alegremente. -- Vamos dar uma
volta, t?
  -- Ainda  cedo. Muita gente est na rua -- ela disse.
  Ele segurou as mos dela.
  -- Ivy, eu me sinto menos do que humano, rastejando por a no meio da
noite como um animal noturno. Preciso sair. Preciso fazer coisas que as pessoas
normais fazem.
  Envolvendo-o com os braos, ela sentia a tenso de seus msculos.
  -- Est bem.
   Eles andaram pelas ruas de Town Cove, de mos dadas, e depois voltaram
para a estreita praia da casa dos Steadmans, onde se sentaram. O ar da noite
estava fresco, mas a areia conservava um pouco do calor do dia. Ivy enterrou os
ps descalos nos gros quentinhos da areia e se apoiou em Tristan. Um nico
pssaro cantava na escurido.
  -- Quando chegou esta noite, alguma coisa estava preocupando voc -- disse
Tristan.
  Ela limpou a areia com os dedos.
  -- Estou melhor agora.
  -- Ivy, me conte.
   -- Prometa que voc no vai... -- ela hesitou -- reagir mal. -- Ela sentiu
Tristan mudar de posio e percebeu que ele no gostou do que tinha dito.
Quando relatou o sonho, ele no disse nada, mas apertou a mo dela com tanta
fora que ela precisou despregar os dedos dele para que a soltasse.
   -- Fique comigo esta noite, Ivy! Fique comigo todas as noites daqui em
diante.
   -- No posso fazer isso, Tristan, no sem atrair ateno. Onde eu diria que
estou?
  -- No importa mais! Ivy, ele est se aproximando... -- e, corrigindo-se a
tempo -- ... da gente.
  De voc. Ela sabia que era isso o que Tristan queria dizer.
  Ele a segurou com tanta fora que ela podia sentir o corao dele batendo
contra suas costelas.
  -- A cada sonho que ele implanta, o poder dele aumenta -- Tristan afirmou.
-- Se consegue fazer isso estando a trinta metros de distncia, ento logo...
  Ivy recuou um pouco, surpresa.
  -- Trinta metros? Por que est dizendo isso?
  Tristan ficou um instante em silncio.
  -- Eu o vi.
  -- Esta noite?
  -- Na noite passada. No bosque do lado do chal.
  -- Voc estava l? Tristan!
  -- No d pra simplesmente me esconder e no fazer nada!
  Ivy fechou os olhos. At onde Tristan iria para destruir Gregory?
  -- Ele viu voc?
  Tristan no respondeu.
  Ivy tocou-lhe a tmpora machucada, depois pegou a mo com os ns dos
dedos machucados.
  -- Tristan, por favor... por favor! -- ela implorou. -- No chegue perto dele
de novo. No toque nele. Prometa!
  Tristan desviou os olhos.
  Com mos gentis, ela o fez encar-la.
  -- Eu quero a mesma coisa que voc, amor. Ficarmos juntos. Mas voc no
pode destruir Gregory sem se destruir.
  -- Ento, devo deixar que ele a machuque? Que ele mate voc?
  -- H outro jeito -- Ivy disse. -- Deve haver.
  Tristan balanou a cabea, depois puxou-a para junto de si e enterrou o rosto
nos cabelos dela.
   Quando o telefone de Ivy tocou, nenhum deles se mexeu. Ele parou, depois
tocou de novo. Por fim, Tristan a soltou.
  --  Will -- Ivy disse, tirando o celular do bolso. -- Oi!
  -- Ivy, onde voc est? -- a voz excitada de Will estava alta o suficiente para
Tristan ouvir. -- Tenho uma coisa para mostrar.
  -- Para mostrar...? -- Ela ento percebeu do que se tratava. -- Voc
encontrou alguma coisa no pen drive!
  -- Encontrei o pote de ouro!
  -- Pode trazer o notebook aqui? Estou com Tristan.
  -- Se me disser onde  aqui.
   Quinze minutos depois, Will ligou para dizer que tinha estacionado a duas
ruas de distncia. Eles deixaram a porta da frente entreaberta. Quando entrou,
parou, parecendo pouco  vontade, ento mudou o notebook para a mo
esquerda.
  -- Tristan. -- Ele estendeu a mo. -- Devo desculpas a voc.
  -- Eu te devo mais -- Tristan respondeu, cumprimentando-o --, tanto que
jamais poderei pagar.
  Will virou-se para Ivy.
  -- Espere at ver isto! Onde posso ficar?
  Eles o levaram  cozinha e l ele abriu o notebook. Tendo Ivy de um lado e
Tristan do outro, Will clicou num diretrio de nome " Corinne" e abriu pastas,
subpastas e arquivos.
  -- Isso  que  procurar agulha em palheiro! -- Tristan comentou.
   -- , mas existe um subitem bem til aqui. A maior parte dos arquivos de
Corinne est em jpeg.  o que se espera de um fotgrafo. Mas quando a gente
clica em Detalhes, tambm v arquivos Photoshop. O que esses arquivos tm de
interessante  que contm camadas. Vou mostrar.
  Ele clicou em uma foto da av de Corinne sentada no quarto de costura, com
os carretis de linha e potes de botes.  direita da tela do computador havia
uma caixa que listava as camadas com nomes como " filtro 1", " filtro 2",
" brilho", " sombra", " vidraa", " papel de parede", " pote".
  Will apontou para a lista.
   -- Essas camadas se juntam para formar a imagem final. O artista pode ativar
ou desativar as camadas para criar efeitos diferentes. Mas pode fazer mais do que
isso. Pode ordenar as camadas de modo que algumas escondam outras. E pode
usar cores para disfarar as coisas.
   -- Esto vendo a letra T nesta camada? Significa que a camada contm texto
e no imagem. Encontrei dois arquivos de Photoshop com textos, o que parecia
um pouco esquisito. A camada de texto est desativada agora, mas vou ativ-la
-- ele clicou e o smbolo de um olho fechado se abriu.
  -- Ainda no vejo nada -- disse Tristan.
  -- Certo. Porque ela ajustou a cor da fonte e est misturado. Ento, agora,
vou mudar a cor da fonte da nossa camada de texto.
  Ivy se inclinou para a frente.
  -- Vejo letras. Parecem hierglifos!
  -- Difcil de ler -- Will concordou. -- Ento, vamos mudar a cor do fundo
da camada, para dar mais contraste, depois desativar todas as camadas e
simplificar a fonte. -- Will deu alguns cliques.
   Ivy ficou sem flego. Uma lista ntida apareceu na tela do computador:
digitados em colunas havia nomes, datas e nmeros -- quantias em dinheiro,
ela sups.
  -- Bryan S, 10 de junho, 10 de julho, 12 de setembro... parece que pulou
agosto -- Tristan leu em voz alta.
  -- O que  " Seneca Hall 436"? -- Ivy perguntou, lendo com Tristan. As
palavras estavam junto de " 12 de setembro".
  -- Um dormitrio -- Will respondeu. -- Procurei o mapa de um campus.
Corinne deve ter perdido contato com Bryan quando ele se mudou para a
universidade, mas conseguiu encontr-lo de novo.
  -- Ele estava resistindo  presso dela -- Tristan observou. -- As datas de
pagamento vo se atrasando. Ela no consegue o pagamento de dezembro antes
do ano novo.
  -- E em maro, o ms anterior  morte dela, no recebeu tudo -- Ivy notou.
  Will apontou para a tela.
 -- Vejam as quantias diferentes para as vtimas, no s quantias diferentes,
mas esquemas diferentes. De Tony M, ela pegava em meses alternados.
   -- Tony Millwood -- Ivy adivinhou. -- Aposto que estava chantageando o
cara da oficina.
   -- Corinne era esperta -- Tristan comentou. -- Ela descobriu que podia tirar
vantagem das vtimas sem pression-las demais, garantindo para si uma renda
estvel. Parece ter se enganado apenas com Bryan.
  -- Setecentos por ms. Mesmo para quem tem bolsa  muito -- Ivy
considerou.
  Tristan fez uma careta.
  -- Em especial para um cara que mata as pessoas quando elas so
inconvenientes.
   -- J que a foto da av de Corinne escondia a lista de vtimas chantageadas,
procurei outras fotos dela, achando que pudessem esconder mais alguma coisa. E
esta aqui escondia. -- Ele clicou na foto.
  -- A abotoadura! -- Ivy comemorou.
 -- Tem mais uma coisa. Vamos mudar de pasta. Corinne fez uma foto
maravilhosa da tal oficina, a que pertencia a Tony?
  Ivy assentiu.
   -- Bom, a foto menos interessante tem o arquivo Photoshop mais
interessante. As duas camadas de cima so fotos de um sed escuro.
  -- O de Hank -- Ivy e Will falaram juntos, reconhecendo o veculo que
pertencia ao padrasto de Corinne.
  -- Um carro completamente diferente est fotografado nas camadas de baixo,
um carro com a frente amassada.
  Ivy e Tristan trocaram olhares.
  -- O de Bryan?
  Will continuou clicando as camadas.
  -- Ela teve o trabalho de fazer uma boa foto da placa do carro.
  -- Hattrik -- Tristan leu. -- Hat trick  um termo usado em hockey.
  -- E isso.
  Ivy se inclinou, apertando os olhos para enxergar um nmero comprido.
  --  o nmero de identificao do veculo -- Will lhe disse. -- Cada carro
tem um, gravado na fbrica.
  -- Ento, mesmo em caso de placas roubadas, ele seria a prova da
propriedade do carro -- Tristan afirmou.
  Ivy sentiu-se como se uma montanha tivesse sado de seus ombros. Mesmo
na luz opaca do notebook, ela enxergava a mudana em Tristan. Ele parecia
mais alto, pois o mesmo fardo tambm saiu de seus ombros.
  -- Voc vai ficar livre, Tristan! -- ela disse, abraando-o e depois a Will --
Will, preciso que voc v comigo  polcia para mostrar o que encontrou.
Depois de convenc-los, vou lev-los ao cofre onde guardei as anotaes de
Corinne, o pen drive e o envelope onde ele estava.
   -- Se me der mais vinte e quatro horas, talvez encontre mais material, como
fotos que foram usadas para chantagear outras pessoas. Voc precisa pressionar as
vtimas de Corinne para que elas se abram para a polcia e, com isso, voc ter
uma prova incontestvel de que Corinne chantageava Bryan.
   Ivy e Tristan concordaram. Alguns minutos depois, eles acompanharam Will
at a porta da frente.
  -- No sei como agradecer -- Tristan disse.
  -- Se continuarmos nos agradecendo e nos desculpando -- Will respondeu
--, nunca seremos apenas amigos. Vamos dizer que estamos quites.
  Tristan sorriu.
  -- Estamos quites, ento.
  Depois que Will foi embora, Ivy virou-se para Tristan.
  -- Voc sabe que no posso ficar esta noite.
  -- Sei que no posso convenc-la a fazer algo que no queira.
   -- Tristan! No  que no queira.  como disse antes: no posso ficar
escondida e no fazer nada. O desejo de Gregory de me ferir j prejudicou gente
o suficiente. Preciso estar no chal por causa de Dhanya, Kelsey e Beth.
  Ele assentiu.
  -- Venho assim que terminar o trabalho amanh -- ela prometeu.
  -- Quero ir ao cemitrio onde Michael Steadman est enterrado.
  Ivy encarou Tristan, surpresa.
   -- Penso muito nele. As coisas dele ainda esto aqui, as roupas, os trofus...
trofus de natao, como os que eu tive. Sinto-me ligado a ele. Quero ver onde
est enterrado e prestar uma homenagem. -- Tristan pareceu um pouco
constrangido. -- Estou falando como o meu pai, n?
  Ivy sorriu.
  -- Lembra o cara que eu amo. Vamos l amanh. -- Ela segurou o rosto dele
entre as mos. -- Tristan, vamos ficar juntos logo. Logo nada vai nos separar.
  Ele a beijou e a deixou ir embora aos poucos, liberando-a devagar, como se
cada centmetro de seus braos e dedos doessem ao se abrirem e a deixarem ir.
  -- Amo voc, Tristan.
  -- Amo voc, Ivy.
   Ela escapuliu pela porta da frente e pelas sombras do quintal, indo
silenciosamente at o carro. Quinze minutos depois, quando chegou ao
estacionamento da pousada, o carro de Chase estava saindo. Beth esperava por
ela.
  -- Como vo as coisas? -- Ivy cumprimentou a amiga.
  -- Tudo bem.
  -- Vocs ficaram para o jantar? -- Ivy perguntou, lembrando que Beth
deveria ter voltado de um passeio de bicicleta com Will.
   -- Eu liguei para Will. Duas vezes. -- Beth parecia magoada. -- Ele no
respondeu.
   -- Ele estava bem ocupado com outra coisa -- Ivy respondeu, mas queria que
fosse Will a contar a Beth o que descobrira. Elas o encontraram em uma das
cadeiras no jardim, perdido em pensamentos. Ao ouvir os passos delas, ele
ergueu os olhos.
  -- Oi. -- O seu sorriso tmido foi para Ivy, no Beth.
  -- Tentei falar com voc, Will.
  -- . Eu vi.
  Ivy alternou o olhar entre os dois, depois sentou-se no balano e puxou Beth.
  -- Ento, como vai Chase? -- Will perguntou.
  -- Bem. Ele no me ouviu, mas tambm no queria que eu fosse embora.
Voc sabe como Chase .
  -- Eu sei -- Will respondeu secamente.
  Beth empurrava o balano para a frente e para trs com um p.
  -- Acho que posso ajud-lo.
  -- Tenho certeza de que sim. -- Assim que Beth desviou os olhos, Will fez
uma careta.
  -- S preciso ser paciente.
  -- Voc sempre foi boa nisso -- disse Will. -- Ento, imagino que vai
passar um bom tempo com ele...?
  Beth deu de ombros.
  -- Se ele precisar.
  -- Muito gentil mesmo -- Will comentou. -- Voc  a melhor amiga que
um cara pode ter, Beth.
  Beth ficou tensa. Ivy percebeu que no era isso que ela gostaria de ouvir dele.
Coitado do Will, tentando ser o amigo perfeito e compreensivo... deveria ter
decorado algumas das linhas apaixonadas das histrias de Beth para us-las.
  -- Se no tomar cuidado, Beth -- continuou Will --, Chase vai se apaixonar
por voc. -- Assim que terminou de falar, pareceu arrependido.
  Beth ficou olhando para ele.
  Will se retratou rapidamente:
   -- A menos,  claro, que queira. No estou insinuando que haja algo de
errado em voc e Chase se apaixonarem.
  Beth piscava.
   -- Na verdade, em termos estticos, sabe, se eu estivesse procurando um
casal de modelos, diria que vocs formam um par excelente.
  Caramba! pensou Ivy.
  Beth franziu a testa.
  -- Cala a boca, Will!
  Quase s lgrimas, ela saiu rapidamente do jardim, passando pela lateral da
pousada.
   -- O que foi que eu disse de errado? -- Will perguntou, jogando as mos
para o alto. -- No entendo! De repente, parece que no consigo falar com ela
direito. Foi a parte do modelo, no foi? -- ele adivinhou. -- Achei que estava
dando apoio.
  -- s vezes, a gente d apoio para a causa errada.
   -- Ivy, no consigo ser amigo dela e v-la se apaixonar por ele. Nem que ele
fosse o melhor cara do mundo, eu no conseguiria.
  -- J ocorreu a voc que  isso o que ela est querendo ouvir?
   Seguiu-se um longo e pensativo silncio e ento os celulares de Ivy e de Will
tocaram ao mesmo tempo.
  --  Suzanne -- disse Ivy. -- Uma mensagem.

  quem foi que acabou de partir o corao da beth?
  por que ela no diz quem  esse cara misterioso?
  ela j me enviou tantos poemas de amor
  que j revesti todas as paredes do meu quarto.

  Ivy deu uma olhadinha de lado e observou se Will lia a mensagem.
  -- A sua comea com " quem partiu o corao da Beth"?
   -- Sim. -- Ele analisou o texto como se o estivesse traduzindo, o rosto
iluminado de espanto.
  -- Ento -- disse Ivy --, devo responder a Suzanne que ela ter a resposta
depois de voc conversar com a Beth?
  Ele olhou para Ivy com um sorriso que derreteria todas as estrelas do
hemisfrio.
  -- , diga isso a ela. -- E virou-se na direo da pousada.
   -- Eu tentaria a escada que leva  praia -- Ivy aconselhou e riu quando ele
saiu correndo.
                                               Captulo 17




W
         ill e Beth, pensou Ivy com alegria, enquanto passeava com Tristan no
         final da tarde de segunda-feira. s vezes, o amor comeava com uma
         atordoante paixo e depois se aprofundava com a amizade; s vezes,
comeava com uma profunda amizade e surpreendia todo mundo --
especialmente os dois " melhores amigos" -- com um repentino fogo romntico.
De qualquer modo, o amor parece ser, a um s tempo, predestinado a milagres.

   Ivy olhou para trs. Tristan se agachava para ler um epitfio numa antiga
pedra tumular. O dia estava extraordinariamente quente e eles tinham resolvido
visitar o tmulo de Michael Steadman antes das tempestades da tarde. Valia a
pena arriscar. Tristan saindo ao ar livre. No dia seguinte, ela e Will teriam um
compromisso com Rosemary Donovan, a policial mais familiarizada com o
caso, uma reunio para a qual levariam as provas. Logo Tristan poderia transitar
por qualquer lugar.
   Ivy deu uma olhada para o cu. O tempo mudava antes do previsto. O branco
acetinado das nuvens de vero, elevando-se com o calor, tinha se tornado um
manto escurecido de nuvens de tempestade imponentes. Com o sol encoberto, a
grama desbotou e as rvores tingiram-se de um verde oliva agourento, suas
folhas agitando com a brisa.
  Ivy no se lembrava que haviam tantas rvores quando estivera ali duas
semanas atrs. Ela olhou para trs para chamar Tristan e percebeu que tinha feito
uma curva e no conseguia mais v-lo. Apesar do calor do dia, sentiu uma fria
inquietao na boca do estmago. Seus braos, midos de suor, arrepiaram-se.
Ela conseguia sentir o cheiro da tempestade que se aproximava, um cheiro
diferente da maresia salgada de Cape. Era um cheiro-verde-musgoso.
  Ivy virou-se, observando as pedras tumulares. O tempo tinha apagado um
pouco os nomes e os sentimentos, mas o silncio das esttuas era expressivo:
um cachorro de pedra velando o dono, uma jovem melanclica segurando uma
coroa de flores, uma ovelha adormecida sobre um tmulo pequeno. Talvez por
causa do sonho plantado por Gregory, notou duas esttuas de anjo que no vira
antes.
   A rua subia e depois descia novamente. Ivy chegou a uma rea do cemitrio
onde as famlias, a julgar por seus nomes, eram importantes, e esses nomes
estavam inscritos em brases fixados em obeliscos altos e nos lintis de
mausolus particulares. A fileira de edificaes de pedra terminava em uma
colina. Havia miniaturas de templos em estilo grego, sem janelas; outros com
janelas que tinham sido quebradas ou removidas, depois substitudas por barras
de ferro. Ela tremia diante da ideia de ser deixada em um desses lgubres
abrigos de ossos.
   A famlia Baines estava enterrada em uma dessas fileiras de tmulos da
Ravine Way. Ela se lembrava do local... e ento o viu: sepulturas com pedras
angulares dispostas em torno de um monumento alto, a terra elevando-se por
trs delas. Ela arfou, reconhecendo a esttua. Elevado a cinco metros do cho,
um anjo tinha a mo esquerda pousada numa ncora, o brao direito erguido e a
mo apontando para cima. Uma rvore alta se erguia no canto mais distante do
jazigo. A antiga faia, tendo uma copa de uns cinco metros e quase to alta
quanto o anjo, dominava o cenrio, os ramos pesados fazendo sombra a um
quadrante de pedras tumulares, as folhas avermelhadas caindo como um lamento
eterno sobre as sepulturas das famlias.
  Ivy andou lentamente at essa rvore impressionante, pisando em volta das
sepulturas, e parou sob a sua sombria copa. Gregory Thomas Baines, ela leu em
uma pedra polida. Em paz. O epitfio tinha sido sugerido pela me de Ivy, que
em vo assim desejara.
  Ivy olhou para a suave elevao de terra onde Gregory deveria estar
descansando, ouvindo o resvalar das folhas. O vento passava pelos arvoredos do
cemitrio, no entanto, as folhas da faia continuavam inertes. Ento, as folhas dos
ramos mais baixos comearam a tremer e esse movimento foi se espalhando
pelos ramos de cima. Ivy ouviu um gemido vindo do cho, que se abriu a seus
ps. Gregory, de corpo inteiro, surgiu como um anjo negro.
  Ela gritou e recuou. Gregory a acompanhou, passo a passo. Seus olhos cinza
queimavam com um dio to intenso que chamuscava e encrespava a pele do
seu rosto.
  Ivy quis correr, mas teve medo de lhe dar as costas.
  -- Tristan! -- ela gritou. -- Tristan, me ajude!
   O vento aoitou a faia. Gregory e ela se movimentavam bem no meio do olho
silencioso da fria da tempestade. No seu corpo descarnado, as roupas no se
mexiam.
  -- Minha -- ele disse, numa voz parecida com um lamento vindo de dentro
da terra. -- Toda minha.
   Ela se encolheu diante da angstia que via nos olhos dele. Ele ergueu o brao
e ela sentiu o frio queim-la. Os dedos alongados e curvos como garras. Elas
esgueirou-se para o lado, desviando-se dele.
   -- Veja o que fez comigo -- disse ele. E virou a cabea para a direita. Ela viu
um corte coberto de sangue no lado esquerdo do crnio dele. Ento, Gregory
torceu o corpo e Ivy sentiu-se ofegar. A camisa dele estava rasgada sobre um
osso saliente: era uma parte de sua espinha, quebrada na queda da ponte da
ferrovia.
  Voltou-se de novo para ela.
  -- A vingana  minha!
  Ivy sacudiu a cabea.
  -- Voc fez isso a si mesmo.
  Ele riu e o ar cheirou a terra mida e folhas apodrecidas.
  --  melhor comear a rezar.  a sua vez, Ivy. Est escrito: a vingana 
minha!
  -- Diz o Senhor -- Ivy respondeu, completando a citao bblica. -- A
vingana  Dele, no nossa.
  Gregory investiu contra ela, que se livrou dele e correu. Ela podia ouvir um
som spero atrs de si, como uma respirao dilacerada por ossos afiados.
  -- Anjos, ajudem-me!
   Ela tropeou numa pedra e estendeu as mos para a frente, mas no conseguiu
se segurar.
  -- Anjos! Anjos!
  -- No, Ivy!
  Mos a puxaram para trs. Pneus guincharam.
   -- Nossa, menina! Veja por onde anda! -- A voz do homem soava zangada e
preocupada ao mesmo tempo.
  -- Ivy, escute! Volte! -- Tristan implorava.
  Ivy piscou e olhou em volta. Apenas algumas rvores sombreavam o
cemitrio no sol brilhante da tarde. As sepulturas tinham pedras simples. Diante
dela, uma estreita ruazinha. Tristan segurava Ivy por trs, como se a tivesse
puxado pouco antes de ela tropear na passagem de uma van. O motorista a
encarou, depois seguiu adiante.
  Ivy se apoiou em Tristan. Seu corao ainda batia descontroladamente; sua
cabea doa.
  -- O que aconteceu?
   -- No sei direito. -- Ele a conduziu at um banco, apoiando-a com firmeza
at acomod-la, conservando-a junto de si ao se sentar.
  Ela tentava se orientar.
  -- Estou em Cape.
  -- Onde achou que estivesse? -- Tristan perguntou.
  -- Em Riverstone Rise. -- Ela o ouviu inspirar fundo.
  -- O cemitrio em Stone Hill -- ele disse. -- Onde estou enterrado.
  -- E onde Gregory est enterrado. -- Ela estremeceu. -- Foi to real,
Tristan. Ele estava l, exatamente como ficou quando caiu da ponte.
   -- E estava perseguindo voc -- Tristan adivinhou. -- Voc estava correndo,
Ivy, com os olhos arregalados, mas sem ver por onde ia. Parecia acordada,
estava apavorada, mas eu no conseguia contato contigo. Ento, tropeou na
placa de uma sepultura e quase caiu a frente da van.
  Ivy enterrou o rosto no ombro dele.
  -- Me abrace, s me abrace.
  Ele a envolveu num abrao apertado, apoiou o rosto na cabea dela,
embalando-a delicadamente.
  -- Estou aqui. Est segura agora.
  Ivy tentava afastar as imagens assustadoras de sua mente.
  -- Tristan, Gregory consegue mais do que implantar um sonho na gente. Ele
consegue criar miragens.
  Tristan engoliu em seco, virando-se para olhar a rua.
  Ela sabia o que ele estava pensando.
  -- Ele no precisa me perseguir com uma arma. Se voc no estivesse aqui,
eu teria...
  Tristan pousou o dedo sobre os lbios dela.
  -- Shh, meu amor. No vai acontecer nada. No vou deixar.
  Ela no disse mais nada, como se Tristan tivesse dado um fim aos seus
medos mais recentes. Mas ele no conseguiria acalmar a sua mente e o seu
corao. At que ningum mais sofra, Ivy pensava. Anjos, me ajudem.

   Tristan tinha medo. Tinha implorado a Ivy que ficasse com ele, mas ela
insistiu em voltar ao chal por algumas horas, antes de se reunirem de novo ao
entardecer.
  -- Estou bem -- repetiu algumas vezes.
   Se ela soubesse como o tinha olhado durante a miragem: como se Tristan
fosse o diabo em pessoa! Ele estremecia diante da lembrana. Como poderia
derrotar algum capaz de controlar a mente da sua vtima a ponto de ela ver
apenas o que Gregory desejava?
   Tristan jurava combater Gregory at a morte, mas, pela primeira vez, no
tinha certeza de que isso seria o suficiente para salv-los. Ele andava pela casa de
um lado para outro. Foi chegando a hora de jantar e ele no sentia fome. Estava
um lindo pr do sol, mas ele no o admirou. Esperava no escuro, pensando
apenas em Ivy e em como garantir a segurana dela.
   Ento, ouviu o ligeiro assovio da cano do Carousel. O seu alvio e alegria
foram to grandes que quase deu uma gargalhada. Correu at a porta e a abriu.
  Foi agarrado por uma mo enluvada que lhe cravou uma agulha. S teve
tempo de erguer os olhos e ver o rosto de Bryan antes de o luar juntar-se 
escurido.

  --  de bordo!  de bordo! -- A voz de papagaio tirou Ivy de seus
pensamentos. Ela tinha acabado de sair de uma ducha quando o celular de Philip
tocou. Sacudiu o cabelo e deu uma olhada no relgio: dez e quinze.
  -- Ol! Por que no est na cama?
  -- Eu estou -- o irmo respondeu. -- Estou embaixo das cobertas.
  Ivy riu.
  -- A mame disse que telefonaramos para voc amanh.
  -- Ah, ... e por qu?
  -- A minha casa da rvore pegou fogo.
  -- O qu?!
  -- Acabou. Os bombeiros tiveram de cort-la com um machado.
  -- Algum colocou fogo nela? -- Ivy sentou-se na cama.
  -- Ontem  noite.
   Ela pensava rapidamente, fervendo de raiva: se Gregory ousasse tentar de novo
arrastar Philip para a batalha com ela...
  -- Por que Andrew e a mame no me ligaram?
  -- Eles disseram que vo fazer isso amanh. Quando souberem mais. O
investigador dos bombeiros e a polcia vieram hoje.
  -- O que descobriram? -- Ivy perguntou, tentando parecer calma.
  -- Que algum jogou alguma coisa nela para ela queimar.
  -- Algum tipo de combustvel?
  -- . Acham que foram alguns adolescentes daqui.
  Ivy se acalmou. Vandalismo existia mesmo.
  -- Mas no foi -- Philip disse.
  -- Por qu? Por que diz isso?
  -- Eu o vi.
  Ela tentou ficar calma.
  -- Viu?
  -- Gregory.
   Ivy fechou os olhos e foi tomada por uma sensao de nusea. Ento,
raciocinou rapidamente: no ajudaria em nada contradizer Philip, mentir e dizer
que aquilo no era possvel. Seu irmo tinha a mesma certeza na voz de quando
lhe contara que tinha visto o Anjo Tristan pela primeira vez.
  -- Como tem certeza de que era Gregory? -- ela perguntou.
  -- Ele estava observando o fogo e virou-se para me encarar.
  Ivy sentiu a nuca formigar.
  -- Ele olhou para a janela do meu quarto e apontou para mim. O rosto era
outro, mas era Gregory.
  -- Philip, no chegue perto dessa pessoa! No importa o que ele diga ou faa,
no o escute nem acredite nele. No deixe que entre. No v at ele. Voc
entendeu?
  -- O papai est colocando um alarme na casa.
  O que significa que " Bryan" no vai poder entrar sem ser detectado, mas e
Gregory? O que poderia fazer de longe?
  -- E eu tenho as minhas estatuetas de anjo.
  Oh, Anjos, protejam-no, Ivy rezou. Em voz alta, ela disse:
  -- Vou para casa. Chame Lacey e pea a ela que fique com voc at eu chegar.
  -- No estou com medo.
  Ivy estava vestindo o jeans enquanto falava.
  -- Chame Lacey e pronto. Faa isso por mim, t bom?
  Ela pegou uma camiseta limpa e os tnis. Na pressa, derrubou as coisas de
cima de sua mesa -- brincos, pente, chaves. Uma pea dourada redonda chamou
sua ateno. Ela pegou a moeda de anjo de Philip e enfiou-a no bolso. Anjos,
protejam-no.
   Cinco minutos depois, estava no carro abrindo o segundo celular para ligar
para Tristan. Ento, fechou-o de novo. Se lhe contasse essa histria, ele iria
querer ir com ela. Tinha jurado lutar contra Gregory at o fim, at que um deles
morresse, ela pensou, e no poderia ser Tristan. Deu a partida no carro e tomou
o rumo da Mid-Cape Highway. Logo depois de cruzar o canal, ela parou no
acostamento e ligou para os celulares de Will e de Beth. Nenhum deles atendeu.
Por um instante, Ivy sorriu, pensando neles em seu novo mundo juntos,
lembrando-se de como tinha sido quando ela e Tristan confessaram um ao outro
que estavam apaixonados.
  Ivy enviou uma mensagem para ambos: Preocupada com Philip. Indo para
casa. Leve provas  polcia o mais rpido possvel. Obrigada. Beijos
  -- Lacey -- ela chamou ao retomar a estrada. -- Lacey, eu pedi a Philip que
chamasse voc. Preciso que proteja Philip. Por favor! -- Quem sabe Lacey j
no estivesse l. Ivy sabia que o anjo provavelmente atenderia melhor a Philip
do que a ela.
  Estava correndo pelo trecho escuro da Route 25 quando teve de brecar e dar
uma guinada para evitar um caronista. Que lugar absurdo e perigoso para uma
pessoa... ela brecou de novo e olhou pelo espelho retrovisor.
   -- Por que no estou surpresa? -- murmurou, encostando o carro no meio-fio
e dando marcha  r.
  -- Fiquei imaginando se voc me veria -- Lacey disse, subindo no carro.
  -- Se eu tivesse batido em voc, o que teria acontecido? -- Ivy perguntou.
  -- No sei. Minha alma continuaria. Acho que o resto sumiria, puf!
  -- De qualquer modo, j que est no carro comigo, coloque o cinto.
  -- " J que est no carro comigo"! Foi voc quem me chamou! -- Lacey
zombou.
  Depois de o anjo consentir, Ivy continuou pela estrada.
  -- Esperava que Philip chamasse voc. Eu pedi a ele.
  -- Ele chamou, mas estava dormindo quando cheguei. O que aconteceu?
   Ivy contou a Lacey sobre a convico de Philip de que Gregory tinha ateado
fogo na sua casa da rvore e depois relatou a viso que teve de Gregory no
cemitrio.
  -- Ele est poderoso demais -- disse Lacey.
  -- Eu sei. Voc poderia voltar e ficar com Philip at eu chegar?
  Lacey ficou em silncio um instante.
  -- Vou, mas acho que  voc quem corre mais perigo.
  -- Sei lidar com Gregory.
  -- Est um pouco metida, no?
  Ivy deu de ombros.
  -- Onde est Tristan?
  -- Na casa dos Steadmans, imagino.
   -- No ligou para ele? -- Lacey perguntou. -- No disse a ele o que est
fazendo?
   -- Eu vou dizer -- Ivy respondeu. -- S estou esperando ficar longe o
suficiente de Cape para no ficar tentada a voltar e peg-lo.
   Lacey se inclinou para a frente, forando o cinto de segurana, at Ivy ver que
a estava encarando. O anjo concordou com a cabea.
  -- s vezes, garota, voc me surpreende -- ela disse e desapareceu. Meio
segundo depois, como se fosse uma reflexo tardia, Ivy ouviu um efeito sonoro
desnecessrio: Puf!
                                                Captulo 18




T
      ristan acordou com um estrondo distante de troves. A quietude  sua
      volta lhe indicava que estava sozinho. Suas mos tinham sido amarradas.
      Uma corda frouxa enrolava-se em suas pernas. Sentando-se devagar, tentou
entender o ar frio, a cama de pedra debaixo dele e o cheiro penetrante de coisas
podres -- folhas e algum tipo de bicho.

   A plida luz da lua se infiltrava pelo aro redondo de uma janela, uma abertura
coberta de grade. A uma altura muito grande para que ele pudesse olhar atravs
dela, havia uma janela na cumeeira que dava suporte ao telhado baixo de sua
priso. Soltando um p da corda e depois o outro, Tristan ergueu-se com
cuidado, sem saber no que pisaria. Ainda de mos atadas, esforou-se para tatear
a parede  sua frente. Havia uma beirada comprida e estreita, paralela ao cho, e
depois outra alguns metros acima. Tudo o que o seu dedo tocava parecia pedra
mida. Tristan estremeceu. A sua priso era um mausolu.
  Ele se lembrou da viso de Ivy. Ser que Gregory o teria trazido ao cemitrio
de Stonehill?
  Atrapalhado, buscou o celular no bolso: nada. Indo na direo da janela, bateu
em alguma coisa na altura do joelho, derrubando-a. Soou como madeira
tombando contra a pedra. Curvando-se e tateando em busca do objeto, ele o
encontrou e colocou o caixote junto da janela, de modo que pudesse subir e
olhar l fora.
   A fatia de lua estava borrada de nvoa, mas Tristan conseguiu distinguir as
indicaes de sepulturas em frente do mausolu, fantasmagoricamente brancas,
algumas em p, firmes, outras inclinadas de cansao. Seus olhos deram com um
monumento impressionante, uma base alta que sustentava um anjo. Ele j
estivera ali antes, no enterro da me de Gregory. Lembrava-se da rvore sombria
que espalhava os ramos pesados sobre um canto do jazido dos Baines, o canto
onde ela -- e, presumivelmente, Gregory -- estavam enterrados.
   Examinando o cenrio, Tristan no viu ningum. Decidiu no chamar; se
Gregory estivesse por perto, isso indicaria a ele que tinha recuperado a
conscincia. Descendo do caixote e usando tanto os dedos quanto os olhos,
explorou a superfcie da porta de metal abaixo da janela. O veio central e as
dobradias duplas indicavam que eram duas portas. Nenhum dos painis tinha
maaneta, ou seja, as portas no poderiam ser abertas por dentro. Mesmo assim,
fez presso contra elas. Afrouxaram ligeiramente ao longo do veio central e ele
suspeitou que estavam presas por algo do lado de fora, como um cadeado ou
lingueta.
   Encostou-se na porta, pensando: Gregory tivera muito trabalho para coloc-lo
ali. O corpo de Bryan era forte, mas no deve ter sido fcil arrast-lo para o carro
e depois carreg-lo do carro at o mausolu. A corda ao redor dos ps de Tristan
tinha sido afrouxada -- para que andasse durante parte do percurso? Tristan no
se lembrava de ter se movido. Ento, por que Gregory desamarrara seus ps? E
por que lhe deixara uma caixa onde subir?
  A resposta era simples: Gregory queria que olhasse pela janela. Queria que
soubesse onde estava ou, talvez, que visse alguma coisa prestes a acontecer.
  Tristan comeou a tremer. Gregory tinha insinuado o seu plano na ltima vez
que se encontraram.
   Eu mereo mais, Gregory tinha insistido, do que v-la tendo uma morte
rpida e indolor. Gregory tinha injetado na mente de Ivy a viso do jazigo da
famlia Baines. Tinha sido uma espcie de ensaio; esta noite seria a
apresentao. Pense nisso, Tristan.  o morrer que  divertido. To divertido
para a alma distorcida de Gregory quanto observar Tristan vendo Ivy morrer
devagar e dolorosamente.
   Ele se afastou, jogando-se em seguida contra a porta, determinado a arromb-
la. Tentou vrias vezes, esmagando o ombro contra a porta, depois caiu de
joelho no cho.
   -- Lacey! -- ele gritou. -- Preciso de voc. Ivy precisa de voc. Lacey, onde
est voc?

   A meio caminho da longa estrada que levava at sua casa em Stonehill, Ivy
ligou para Tristan mais uma vez. Comeava a ficar ansiosa. Eram quase trs
horas da manh; tempo demais para Tristan estar fora de alcance. Assim que
visse Lacey, pediria a ela que desse uma olhada nele.
   Correndo o restante do caminho at o topo, Ivy contornou a imensa casa de
madeira e virou na direo do muro de pedra que marcava a fronteira da
propriedade. Quando viu as rvores enegrecidas, sentiu o corao apertado. A
pouca distncia das rvores, havia uma pilha de madeira queimada, o esqueleto
arrebentado da maravilhosa casa de rvore de Philip.
   A casa de rvore tinha sido de Gregory quando criana. Esperando conquistar
o amor de seu enteado, Andrew a tinha reconstrudo e ampliado para Philip,
jamais imaginando que ela se tornaria mais um espinho a espetar o cime de
Gregory. Ivy se lembrava do dia em que Philip, pisando numa tbua solta,
quase cara do passadio. Ela ainda via o brilho de encantamento no rosto dele
quando lhe contara que o anjo dele o tinha salvado. Um ano depois, uma das
primeiras dicas de que Tristan tinha retornado para ela foi a descrio de uma
casa de rvore idntica  de Philip. Havia algumas semanas, ela tinha dormido
l com Tristan, sob uma copa de folhas e estrelas. Mas, para Gregory, qualquer
smbolo de amor, qualquer sinal de que as pessoas se gostavam o diminua e,
portanto, deveria ser destrudo.
   Desviando-se das rvores chamuscadas, Ivy correu pelo gramado at a porta
dos fundos. Depois de desativar o sistema de alarme da casa, ela subiu a escada,
entrando em seu quarto e, em seguida, passando pelo banheiro conjunto, entrou
no de Philip. Olhou em volta, mas no viu a luz de Lacey. Philip virou-se de
lado na cama.
  -- Ivy?
  -- Shhh! Sim -- ela disse suavemente. -- Onde est Lacey?
  O irmo dela sentou-se, piscando os olhos, tentando se lembrar.
  -- Ela disse que precisava ir.
  -- Mas eu disse a ela... -- Ivy mordeu a lngua.
  -- Ela disse que voc ficaria brava -- Philip acrescentou.
  Ivy assentiu, sorrindo um pouco.
   -- Bom, parece que Tristan ficou chamando por ela, e ela tinha de ver em que
tipo de confuso ele tinha se metido.
  -- Quando foi tudo isso? -- Ivy perguntou rapidamente.
  Philip deu uma olhada no relgio da cabeceira, hesitante.
  -- Ela veio depois que liguei pra voc. Foi embora antes que eu casse no
sono de novo.
  Ivy suspirou.
  -- Ela voltou depois de estar com Tristan?
  Ele sacudiu a cabea.
  -- Ela falou para onde ia? -- Ivy perguntou, esperanosa.
   -- Algum lugar aqui perto. Contei a Lacey onde ele morava em Cape, mas
ela disse que ele estava em algum lugar aqui perto.
  Aqui perto... O cemitrio, Ivy pensou.
   Gregory poderia t-la assustado com um monte de miragens, mas ele tinha
escolhido o cenrio de Riverstone Rise para lhe enviar um recado, para lhe dizer
onde poderia ser encontrado. Ele a tinha arrastado de volta a Connecticut, onde
tudo comeara, com o nico gesto que ele sabia que poderia traz-la de volta:
uma ameaa a Philip. Agora, contava que ela recordasse essas vises,
balanando-as como uma isca diante de seus olhos, no momento em que temia
por Tristan.
  Se fosse ao cemitrio, estaria mordendo a isca de Gregory. Mas como poderia
no ir? Lacey no tinha voltado e Tristan no estava atendendo aos seus
chamados: alguma coisa estava muito errada.
  -- Vou ajudar voc a procurar por ele -- Philip disse, puxando o lenol.
  Ela o segurou.
  -- No!
  Ele ergueu o queixo para discutir com ela.
  -- Amanh, Philip. Quero que descanse agora para estar pronto amanh.
  Ele relaxou o maxilar.
  -- Talvez seja um longo dia -- ela acrescentou.
  -- Por qu?
  Ela riu e se sentou na cama junto dele.
  -- Porque hoje j est sendo uma longa noite. Lembra-se da orao que
costumvamos rezar?
   Ele sacudiu a cabea num " no", mas estava cansado e por fim cedeu,
assentindo. Juntos eles disseram:
  -- Anjo da luz, anjo do cu, me proteja esta noite, proteja todos que eu amo.
  --  voc, Ivy -- Philip acrescentou, como quando ele era pequeno.
  Ivy descansou a testa na dele.
  -- Vire-se. Vou massagear suas costas.
   Ele se aninhou nos travesseiros e seus olhos logo se fecharam. Adormecido,
lembrava o menininho de quem ela tinha cuidado anos atrs, quando Maggie
precisava trabalhar muitas horas. Ivy acariciou seus cabelos e correu os dedos
por seu rosto. Por um instante, sentiu-se como se fosse insuportvel deix-lo.
  Mas ele ficaria bem. O peso do dio de Gregory parecia ter apenas um efeito
sobre seu irmo: fortalec-lo. Saiu do quarto na ponta dos ps.
   L embaixo, silenciosamente ativou o alarme. No momento em que saiu da
casa, sentiu a mudana do tempo. O vento era mido e vinha do oeste agora;
uma tempestade se formava. Ivy correu at o carro. Verificou o celular que usava
para se comunicar apenas com Tristan. Nenhuma chamada. Checando o outro
telefone, viu que Will e Beth tinham enviado mensagem: tinham ido
diretamente  delegacia de polcia e aguardavam Rosemary Donovan. Ivy enfiou
o telefone de Tristan no bolso, colocou o outro no assento do passageiro e
rumou para o cemitrio.
   Quando chegou  entrada de Riverstone Rise, o cu a oeste relampejava.
Adiante dela, iluminados pelos holofotes, os enormes portes pareciam estar
acorrentados, mas quando saiu do carro e empurrou as argolas, viu que um deles
tinha sido deixado aberto. Rapidamente puxou as correntes. Depois de entrar
com o carro, ela olhou pelo retrovisor. Os portes bem abertos eram um convite
para que algum a seguisse, mas ela continuou.
  Tentou lembrar o caminho at o jazigo dos Baines.
  -- Lacey -- ela chamou --, onde est voc? Onde est Tristan?
  Virou  direita, passando pelas sepulturas mais antigas, depois seguiu pela
rua estreita acima. Ao chegar no topo da colina, ouviu troves anunciando a
aproximao da tempestade. Um raio violento enterrou suas razes no cume
seguinte. Ivy baixou os vidros do carro. O cheiro era familiar: era verde --
vioso -- musgoso.
   A rua  sua frente inclinava-se abruptamente. Na parte baixa, ela virou na
direo da Ravine Way, parando o carro onde a ala de mausolus comeava.
Inclinou-se para a frente no banco, na esperana de ver algum sinal de Tristan,
mas no conseguia enxergar nada alm das duas faixas de nvoa formadas pelos
faris do seu carro no ar mido. O restante da paisagem se iluminava apenas
pelos relmpagos. Por segundos, as esttuas do cemitrio ganhavam vida e,
depois, voltavam a ser atores sem rosto em um palco sombrio.
   Se Gregory estivesse escondido, os faris do carro j teriam denunciado onde
ela estava, mas eles no revelaram nada de til para ela. Ento, os apagou,
desligou o motor e saiu do carro. Andando rapidamente, sentiu as primeiras
gotas de chuva no rosto. Imaginava o olhar dos mortos espiando pelas janelas
gradeadas de suas casas de pedra. Desviou o olhar para a direita. Embora os
jazigos do outro lado dos mausolus fossem planos, a terra se elevava por trs
deles; ela sentiu como se estivesse passando por uma abertura fantasmagrica no
tecido do mundo vivente.
  O vento aumentou, penetrando de repente pela ravina. Bem adiante,  direita,
ela viu a massa escura da faia que marcava o jazigo dos Baines. Um raio
tortuoso cortou o cu a oeste, o relmpago ressoou e a chuva caiu.
  -- Tristan! -- ela chamou. -- Tristan, voc est a? Lacey? Onde est voc?
  Ivy... Ivy...
  Ela comeou a correr.
  Ivy.
   Na beirada do jazigo dos Baines, ela tropeou em uma pedra e caiu para a
frente, provando a grama e a lama. Flexionando os joelhos, ela logo se ps de
p. Num claro violeta, ela o viu.
  -- Oh, meu Deus! Tristan!
  Ele estava em cima da esttua dos Baines, a mais de quatro metros do cho.
Outro claro lhe mostrou as pesadas cordas que o amarravam ao anjo de pedra.
Ivy ergueu os olhos com espanto e temor, imaginando como alcan-lo. Por que
Lacey no estava aqui?
  -- Ivy, depressa! -- Mais dois clares e ela viu a angstia no rosto de
Tristan. Algo escuro lhe manchava a camisa, vertendo de seu peito. Ele estava
sangrando. Ele ia morrer.
  Ivy tirou do bolso o celular, curvando os ombros para se proteger da chuva.
911. 911. 911. Apertava as teclas sem parar, mas nada acontecia.
  -- Tristan, tente aguentar!
   Uma gargalhada fez com que ela se virasse. Em vo procurou Gregory. Havia
ali muitos esconderijos, muitas pedras atrs das quais se agachar. Ela se voltou
de novo para Tristan.
  -- J venho! Aguente firme!
  Se Tristan morresse, tendo decado...

  -- Ivy -- Tristan gritou, com a voz rouca de tanto berrar. Ele olhava a chuva
que caa, agarrando com os dedos a grade da janela do mausolu. Lacey tinha
conseguido desamarrar as mos dele, mas no tivera foras para quebrar o
cadeado que Gregory havia colocado na argola da porta.
  -- Tentei faz-la parar -- Lacey disse. -- Tentei impedi-la de sair do carro.
Corri pela rua bem ao lado dela, completamente corporificada...
  -- Eu vi voc.
  -- Mas ela no viu!
   -- J estava sob o poder dele -- disse Tristan, observando Ivy diante da base
da esttua, enquanto ele olhava para cima, parecendo ignorar o perigo dos
relmpagos. A boca dela se mexia, mas a tempestade abafava a sua voz.
  -- O que acontece? -- Tristan perguntou, com a alma pesada de medo. -- O
que ela est vendo?
  -- Voc -- Lacey disse baixinho. -- Estou supondo. Assim como voc,
tambm no consigo ver a miragem. Mas quem mais receberia a ateno de Ivy
dessa maneira?
  -- Preciso faz-lo parar. Ele vai mat-la!
  -- Faa-o parar, mas no o mate. Lembre-se, Tristan...
   Outro raio abrupto atraiu a ateno de Tristan. Ele ouviu o estrondo, sentiu o
rasgo do raio estremecer a colina.
  -- Me tire daqui, Lacey. Deve haver um jeito!
  -- Deve haver uma... chave -- ela disse.
  A voz dela tremia e isso fez com que Tristan a olhasse. Apesar de tudo, ele
sabia que Lacey tinha medo de Gregory.
   -- Gregory deve estar nos observando -- Lacey continuou, com a voz mais
firme. -- Vou dar uma olhada no bolso dele. Consigo pegar e virar uma chave.
  -- Lacey, o que aconteceria a voc se ele...?
  Antes que Tristan terminasse a frase, ela se desvaneceu numa nvoa arroxeada.

  Ivy olhou para Tristan com o corao partido. Precisava alcan-lo.
  A base da esttua era de granito, com trs camadas ascendentes cujas
superfcies lisas estavam escorregadias por causa da chuva, sem entalhes
decorativos onde se segurar. A primeira camada, um metro e meio acima do
cho, era alta demais para que conseguisse ajoelhar-se nela e subir. Firmando as
mos na prateleira de pedra, ela saltou, juntando os braos para se erguer. As
mos deslizaram na superfcie molhada. Escorregando, ela raspou o brao na
beirada de pedra do cotovelo ao punho, e segurou um grito de dor.
  -- Ivy!
  -- Estou aqui.
  Secando as mos no lado de dentro da camiseta, ela tentou de novo. Dessa
vez, conseguiu.
   A camada seguinte era mais baixa e ela conseguiu erguer os joelhos o
suficiente para alcan-la, mas a salincia era ainda mais estreita do que aquela
na qual se apoiava.
  -- Ivy!
  Ela ouvia a agonia de Tristan na rouquido de sua voz.
  -- Estou aqui -- respondeu. -- Estou indo.
   Seus movimentos eram penosamente lentos. Um tantinho de peso na direo
errada, uma escorregada na superfcie molhada...
   Estava sentada na segunda camada, com um dos ps por baixo do corpo. A
salincia era estreita demais para ambos os ps. Ergueu-se cuidadosamente em
uma posio vacilante. O vento e a chuva aoitavam suas roupas. Ela ergueu os
olhos para Tristan. Ele fazia caretas de dor.
  -- Oh, querido, estou quase chegando -- ela disse.
  -- Vou morrer, Ivy.
  -- No, no vai!
  Dois metros acima e mais dois metros. Ivy ficou na ponta dos ps. Os dedos
quase tocavam a base redonda da esttua, mas era impossvel chegar  camada
seguinte por causa dessa salincia estreita. No entanto, tinha de conseguir!
   Uma ponta da corda enrolada, um pedao das cordas que prendiam Tristan,
estava amarrada na base da esttua e pendia solta, danando ao vento,
perturbadoramente prxima de seus dedos.
   Era o nico jeito: saltar, peg-la e puxar-se para cima. Flexionando os
joelhos, Ivy acertou os olhos nela e pulou. Suas mos tentavam se agarrar
freneticamente a alguma coisa, mas no pegavam nada. Ela bateu o ombro na
pedra vertical, o seu p alcanou uma beirada e ela despencou no cho.
  Durante um instante, ficou aturdida e sem flego. Acima dela, Tristan gritou
de dor e ela esforou-se para ficar de p. Chutou alguma coisa, um objeto
pequeno, mas pesado. Inclinou-se, tateando a grama molhada. Os seus dedos
sentiram o cano e depois o cabo de uma arma.
  -- Ivy, Ivy, pegue... -- Tristan chamou, com a voz fraca e fragmentada ao
vento. -- Pegue a arma.
  -- J peguei.
  -- Pegue... para me matar. -- As palavras dele foram pronunciadas devagar,
como lutasse para respirar.
  -- Tristan, no posso!
  -- Estou implorando, Ivy! Acabe com isso! Por favor.
  Ela ficou olhando a arma em suas mos.
  -- No  pecado, Ivy.  bondade. Se me ama, por favor!
  As lgrimas corriam pelo rosto de Ivy. No suportava v-lo sofrer assim.
  -- Tristan, voc  decado. Se morrer...
  -- No existe inferno pior do que a minha vida agora -- ele gritou. -- Mate-
me! Depois se mate e ficaremos juntos para sempre.
  Mate-me... Depois se mate. Ivy repetiu silenciosamente essas palavras. Deu
um passo para trs.
  -- Tristan? -- perguntou suavemente, um tanto hesitante.
  -- Aqui.
  Parecia a voz dele, mas...
  -- Ajude-me, Ivy!
  Ela recuou mais um passo, olhando a esttua, e depois vasculhando as pedras
tumulares  sua volta. O seu Tristan talvez pedisse para morrer -- a dor
excruciante levava as pessoas a isso. Mas ele jamais pediria que ela se matasse e
desistisse de sua alma. Esse pesadelo vinha de Gregory.
  -- Anjo do amor, me liberte -- ela rezou.
  Deu-se um claro. No meio da chuva iluminada, ela viu o branco puro de um
anjo no topo da esttua, de brao erguido e com a mo apontando para o cu.
Nenhum Tristan. Nenhuma corda. Apenas um anjo.
  -- Ivy!
  A voz de Tristan veio de outra direo. Ivy deixou a arma cair e girou em
volta. Viu uma luz difusa arroxeada pairando na porta de um mausolu. O
cadeado que prendia o fecho caiu no cho.
  -- Lacey!
  A luz se movimentou depressa quando a porta se escancarou. Ivy e Tristan
correram um para o outro.
  Tristan a acolheu nos braos, protegendo-a.
  -- Oh, meu Deus! Voc est salva. Estava vendo voc, chamando voc. Mas
no conseguia fazer com que voc me percebesse.
  -- Pensei que estivesse morrendo -- Ivy gritou. -- No sabia como salv-lo,
Tristan.
  -- Amo voc, Ivy. Amo voc de todo corao e alma. Nunca deixarei voc
partir!
   Ela apertou o rosto contra o seu peito. Ele estava vivo, o seu corao batia
forte. Tinha derrotado Gregory no prprio jogo dele. A tempestade estava
passando. Iam conseguir sair dessa.
  Ento, Lacey gritou:
  -- Saiam daqui. Agora!
   Ivy virou-se e viu a nvoa arroxeada de Lacey pairando na base do
monumento. Gregory tinha surgido por detrs da rvore sombria e corria na
direo deles.
  -- A arma! -- Tristan correu na direo da esttua.
  Gregory chegou primeiro e apanhou a arma, apontando-a para Tristan.
  -- No se mexa.
  Ignorando a ordem de Gregory, Ivy se adiantou correndo.
  -- Volte, Ivy! -- Tristan urrou.
  Gregory baixou o cano da arma.
   -- No, no. Deixe que ela venha -- disse com um tom de voz macio e
insinuante. Os olhos dele queimavam numa singular luz cinza-esverdeada. --
Junte-se a ns, Ivy. Que coisa boa, no? Estamos juntos de novo. Como nos
velhos tempos.
  Ivy segurou a mo de Tristan.
  Segurando a arma na altura do peito, Gregory comeou a andar em volta
deles.
   -- Devo admitir, estou desapontado -- disse ele. -- Tinha planejado tudo
to bem. Teria aquietado a minha alma, Ivy, v-la matando um sonho e, depois,
se desesperar e atirar em si mesma. O seu dedicado Tristan, depois de v-la
morrendo desse jeito, tambm teria se matado. E ns trs poderamos ficar
juntos eternamente. Que pena!
   Gregory parou de andar em crculos e foi na direo deles, encurralando-os
contra sua sepultura. Os troves faziam apenas um leve rumor agora. A chuva
tinha parado, embora os ramos da imponente rvore ainda respingassem sobre
ele.
   Sempre recuando, Tristan tentou manter Ivy atrs de si. De repente, ele virou
a cabea para o lado.
  -- O que foi? -- ela sussurrou.
  -- As vozes -- ele respondeu tambm num sussurro.
   -- Contando segredos? -- Gregory perguntou, em tom divertido. -- As
vozes conhecem todos os segredos relevantes. Voc as escuta, Tristan? As vozes
esto murmurando o nome dela... Ivy, Ivy.
  Os braos de Ivy se arrepiaram.
  -- Com quem esto falando? -- Gregory provocou Tristan. -- Com voc ou
comigo? Oua: O poder est em voc.
  -- Voc no tem poder -- disse Ivy. -- Voc  o parasita de si mesmo,
Gregory.  ao mesmo tempo o parasita e o hospedeiro, o seu egosmo est
devorando a sua alma.
  Gregory se endireitou como uma serpente que ergue a cabea, pronta para dar
o bote. A raiva fez saltar as veias do seu pescoo. Os seus olhos queimavam
como brasas.
  Tristan empurrou Ivy para longe dele.
  -- Corra! -- ele gritou. -- Corra!
  Investindo contra Gregory, Tristan derrubou a arma da mo dele. Ambos
voaram atrs dela e Tristan a agarrou e fez mira.
  -- No! -- Ivy gritou.
  Tristan apertou o gatilho.
  -- Tristan, no!
  A arma no disparou. Por um instante, os trs ficaram parados.
  Ivy arfou aliviada.
  -- Lacey -- ela disse, lembrando-se da luz arroxeada na base da esttua.
Lacey tinha retirado as balas.
  Tomado de dio, Gregory atacou Tristan. Golpeando-se com os punhos, eles
despencaram na sepultura de Gregory. Gregory se ajoelhou sobre Tristan e o
segurou pelo pescoo. Suas mos eram fortes -- as mesmas mos que tinham
agredido e estrangulado outras pessoas. Tristan se esforou para respirar e o
empurrou com os braos tambm fortes. Conseguiu desequilibrar Gregory,
jogando-o para o lado e lutando para ficar por cima.
  -- Corra, Ivy! -- ele gritou.
  Mas Ivy no se mexeu. Se Tristan morresse como um anjo decado ou se
Tristan matasse... Anjos, me digam como salv-lo.
  Um vento bateu, levando os vestgios de tempestade. As estrelas brilhavam
por entre os recortes das nuvens.
  Ivy se lembrava da noite estrelada em que ela havia sido ressuscitada por
Tristan. Ainda conseguia sentir nos lbios o seu beijo de vida. Tristan,
esquecendo-se de sua natureza de anjo, tinha amado demais de uma maneira
humana. E ainda amava. Ele a salvaria  custa de sua prpria alma.
  Anjos, nos ajudem.
  De repente, Ivy viu coisas que nunca tinha visto antes. O sol esperando sob o
horizonte. Os carros de polcia chegando ao porto do cemitrio. As razes
impetuosas da imensa rvore.
   E Ivy soube: para que Tristan se redimisse, tinham de voltar ao que deveria
ter acontecido no dia em que ele morreu: o rompimento de seu elo mundano. De
algum modo, Ivy tinha de ter coragem de se desapegar, por ele.
  Ela ouviu uma voz que no ouvia desde pequena. O amor de Deus est em
voc.
  Junto com essas palavras seguiu-se uma fora sobrenatural. Ivy correu e
empurrou Tristan para longe de Gregory. O cho estremeceu, elevando-se sob
Tristan, jogando-o de joelhos e lanando-o para alm da sombra da rvore.
Ento, ela pousou a mo em Gregory e apontou para cima.
  A rvore se inclinou. Gregory olhava para ela, boquiaberto de pavor  medida
que o imenso tronco e seus ramos pendiam em sua direo e na de Ivy.
  Ivy gritou:
   -- Amo voc, Tristan, agora e para sempre. -- E ento viu as estrelas
brilhantes atravs da copa da rvore.

  Tristan agarrou a terra, tentando se arrastar pelo cho acidentado, mas no
conseguia alcanar Ivy. Ouviu as palavras dela. Apavorado, viu a rvore caindo.
  Algum soluava.
  -- Para sempre, para sempre -- ele repetiu, com o corao se recusando a
entender o que via. O tronco da faia tinha esmagado Gregory. Ivy estava imvel,
morta, o cabelo dourado preso sob um galho pesado. Inclinada sobre Ivy, Lacey
chorava como se o seu corao tivesse se partido em mil pedaos.
                                                Captulo 19




A
       s rvores agora estavam completamente sem folhas, com a peculiar
       arquitetura de seus ramos delineados contra as casas e colinas que
       circundavam a Washington Square. Beth apoiava-se em Will, ambos
sentados num banco; Will desenhava os estudantes da New York University e
os ocupados nova-iorquinos que atravessavam o parque.

   Foram os trs piores meses na vida de Beth. Se pudesse escolher, teria
preferido ter a ambos, Gregory e Ivy, em seu mundo, do que perder a amiga.
Mas o esprito de Gregory se fora -- o corpo de Bryan tinha sido enterrado -- e
Ivy estava muito alm deles agora.
   O pai de Tristan, o reverendo Carruthers, os ajudou muito. Ele sabia o que
significava passar por uma dor dilacerante e abrir-se para possibilidades
inesperadas, at mesmo para a felicidade. Ele e a dra. Carruthers tinham aberto o
corao e a casa, abrigando " Luke McKenna", acusado equivocadamente -- as
provas que Ivy havia conseguido o inocentaram. Estavam lhe oferecendo o tipo
de vida familiar que ele jamais tivera.
  Maggie e Andrew estavam vendendo a imensa casa da colina -- lembranas
demais. Moravam na cidade agora. Philip podia ir de bicicleta at a casa de
Tristan, assim como para a de Beth e Will, quando no estavam na faculdade. O
corao de Beth tinha sofrido por Philip e Tristan, e nenhum deles teria
superado essa perda sem a ajuda de Lacey. Lacey havia testemunhado a orao
de Ivy; tinha visto o que Ivy vira, e os ajudara a ficar em paz diante da escolha
dela.
   Para Suzanne, tinha sido muito mais difcil ficar em paz. Havia encontrado
um mundo muito diferente do que o que deixara. Discutia veementemente o
sacrifcio de Ivy. Pouco a pouco, Beth foi lhe contando a histria do vero deles,
na esperana de que acabasse entendendo como Ivy tinha obedecido o seu
corao at o fim e enxergado o " Para Sempre alm do Agora".
   Kelsey tambm tinha ficado muito abalada com a morte de Ivy e com a
revelao dos crimes de Bryan. Como Max, Kelsey se vira na situao quase
impossvel de luto pela pessoa com quem tinha se enredado na vida e de horror
diante dessa mesma pessoa. Deixou os pais espantados ao desistir de uma
universidade na Flrida para frequentar uma faculdade perto de casa.
   Dhanya tambm tinha surpreendido os pais, mas Beth pensava que,
provavelmente, no teria surpreendido Ivy com a nova fora e independncia.
Deu sequncia aos planos de frequentar Wellesley, que no ficava muito longe
de Boston College, que Max cursava. Ela e Max tinham se aproximado
enquanto lidavam com a morte de Ivy e de Bryan. Ela agora descrevia a sua
relao com Max como a de " melhores amigos". Beth sorria para si mesma:
coisas surpreendentes e maravilhosas podiam acontecer quando se era a melhor
amiga de um cara.
   E Chase -- Beth sorria de novo -- era Chase, de volta  escola e procurando
por respostas para tudo o que tinha passado, ou, pelo menos, tornando-se um
" expert" em misticismo oriental.
   -- Adoro quando sorri assim -- Will disse a Beth, levantando o lpis da
prancheta e inclinando a cabea para olh-la. -- Tenho minha prpria Mona
Lisa! -- Ele a beijou delicadamente.
   -- Will, andei pensando... Lacey esteve conosco dia e noite depois que Ivy
morreu. Mas no a temos visto nos ltimos tempos. Tristan e Philip tambm
no. Enviei uma mensagem a Philip esta manh, perguntando. Voc acha que
talvez a gente tenha sido a misso de Lacey? Acha que ela seguiu para a Luz?
  Will ficou pensando.
   -- Ela realmente agiu como um anjo naquela semana. -- Ele comeou a
desenhar de novo, acrescentando  cena da cidade uma garota com um top,
legging e botinas. Depois, fechou o bloco espiralado.
  -- Sinto falta de Lacey -- Beth suspirou.
  -- Eu tambm. Muito.
   Eles se levantaram para caminhar, de braos dados, e quase foram atropelados
por algum que dava voltas pelo passeio num monociclo. A garota fez um giro,
piscou para os dois, depois foi embora, parecendo-se com uma nova-iorquina
qualquer, com o cabelo arroxeado esvoaando na brisa.

  -- Este  o meu lugar preferido em Cape Cod -- disse Philip.
   --  mesmo? -- Tristan estava sentado junto dele na plataforma no meio da
escada a caminho da praia. O verde exuberante que tinha revestido a ribanceira
estava seco e lenhoso agora, a grama nas dunas, mais rala. Tristan olhou para o
azul profundo do cu do incio de novembro, depois seus olhos acompanharam
o movimento do mar em volta da ponta e pela enseada at o seu porto e o de
Ivy. -- Por qu?
  --  como se a gente estivesse no cu -- Philip explicou. -- Parece que os
anjos podem descansar aqui. Voc acha que Ivy e Lacey vm muito aqui?
   A pergunta pegou Tristan de surpresa. Depois que Lacey fora embora, Philip
tinha esperado que Ivy voltasse como um anjo que ele pudesse ver e ouvir.
Tristan tinha feito tudo o que podia para preencher essa lacuna, para aliviar a dor
de Philip. Acreditava que Ivy tinha ido imediatamente para a Luz. Ele no ouvia
mais as vozes. A cada dia, encontrava um jeito de seguir adiante, redimindo-se,
acreditando que ficariam juntos de novo quando o tempo fosse eterno.
  -- No sei, Philip.
   -- Voc acha que Ivy est de olho na gente, para o caso de precisarmos de
ajuda?
  -- Talvez. -- Ele no mentiria para Philip, mas no estragaria as crenas de
uma criana. Ningum tinha todas as respostas.
  -- Sinto falta dela.
  -- Eu a amo -- Tristan disse.
  Falaram ao mesmo tempo; isso aliviava o corao de Tristan.
  -- E sabe do que mais? -- Tristan acrescentou. -- Amo voc tambm.
  -- Eu sei.
  Ele sorriu diante da certeza sincera de Philip.
  Philip comeou a descer as escadas.
  -- Eu acho -- ele comeou a falar -- que Ivy e Lacey esto se divertindo pra
valer juntas.
  Tristan deu uma gargalhada, imaginando uma verso angelical de filmes sobre
bons amigos, do tipo com dois policiais que nunca parecem se dar bem, mas
sempre do cobertura um ao outro.
   Ele acompanhou Philip pelo passeio estreito e pelas dunas at o mar. Andrew
e seu pai tinham razo: voltar ali com a famlia ajudava a se recuperar da dor.
   Tristan e Philip caminharam por um longo tempo na praia, Philip danando
por ali, esquivando-se da gua espumosa, tentando pegar conchas antes que as
ondas as levassem. Encheu os bolsos com pedras e conchas e, depois, quando
retornaram  escada, jogou tudo fora. Ele no era o garotinho que Tristan
conhecera havia mais de dois anos; ainda queria ver tudo -- tocar tudo --, mas
no precisava levar tudo para casa.
  Philip correu pelos degraus acima, saltando de dois em dois, como se
quisesse mostrar a Tristan que suas pernas tinham crescido. Na plataforma,
parou para recuperar o flego e ento se inclinou para ver alguma coisa.
   -- Eu sabia! Eu sabia! -- Philip se endireitou, com o rosto iluminado como
o sol. -- Tristan, venha aqui!
  Antes que Tristan alcanasse o ltimo degrau, Philip estendeu-lhe a mo. Na
palma, estava a moeda dourada com o anjo gravado, a moeda que Philip tinha
colocado na mo de sua irm na ltima vez em que os trs estiveram juntos.
  Tristan a tocou.
  -- Ivy -- ele disse baixinho.
O nome dela nos seus lbios sempre soaria como um beijo angelical.
                                          Agradecimentos




M
          uitos dos lugares desta srie so reais, como as cidades, parques e
          praias. Outros -- pousada, casas, igrejas e ruas secundrias -- so
          baseadas em lugares verdadeiros, mas foram levadas para novas
localizaes, reconstrudas e renomeadas, para que eu pudesse tecer uma boa
histria. Alguns outros lugares existem apenas na minha cabea: a verdadeira
cidade de Providence  um lugar maravilhoso para morar e conhecer; a
vizinhana de River Gardens surgiu de minha imaginao.

   Agradeo mais uma vez a Karen e Mac, do Village Inn, que me forneceram
dicas valiosas quando eu pesquisava cenrios e que me deixaram muito 
vontade em seu B&B de Cape Cod. Agradeo a minha irm, Liz, e a seu
marido, Nick, que moram em Cape e me deram muitas boas ideias. Liz,
obrigada por aqueles passeios, em que me deixava olhar  vontade.
   Devo agradecer a Gregory, outro membro da famlia. H seis livros, quando
precisei de um nome para o meu vilo, eu o emprestei de meu primo muito
querido, de maneira que pudesse escrever sobre esse personagem de modo mais
positivo, sem entregar logo a sua maldade. Deixe-me dizer que o meu primo
no se parece em nada com o infame Gregory nem age como ele -- embora
quando criana fosse um tanto terrvel. Agradeo no s pelo seu nome, mas por
ser um velejador habilidoso que responde a perguntas como: onde  um bom
lugar para despejar um corpo e como se faz para virar um barco? Se existem
equvocos nuticos nestes livros, eles so meus, no dele (escritores s vezes so
to poticos!).
  Agradeo a Sharyn e Abbie, minha cunhada e minha sobrinha. O entusiasmo
de vocs me anima a continuar! Agradeo aos meus pais, que sempre me deram
muito apoio.
   Um enorme obrigado  minha esplndida editora. Gostaria de encontrar um
jeito mais original de dizer isso, pois no  exagero: estes livros no existiriam
sem Emilia Rhodes. Sou muito agradecida pela sua percepo em relao a
personagens e motivaes, ao seu talento imaginativo, sua capacidade para
colocar o dedo nas coisas que " saltam" e entender por que saltam, o seu
conhecimento sobre a arquitetura de um livro, sua habilidade em estabelecer
prioridades, e seu infalvel ponto de vista. Agradeo a Jen Klonsky e a Josh
Bank por nos reunir e nos deixar  vontade.
  Por fim, obrigada, Bob. Adoro voc!
   Em 2010, a Editora Novo Conceito trouxe para o Brasil a srie Beijada por
um anjo, de Elizabeth Chandler, que se transformou em uma verdadeira mania
entre os jovens por aqui. Na contramo dos vampiros e magos, que dominavam
os lanamentos da poca, a srie falava do amor entre uma menina, Ivy, e um
anjo, Tristan. O sucesso foi tanto que, o que era para ser uma trilogia, acabou
virando uma srie de seis livros: Beijada por um anjo, A Fora do Amor,
Almas Gmeas, Destinos Cruzados, Revelaes e, agora, Eternamente, que
chega s livrarias brasileiras em julho. Eternamente traz, atendendo a muitos
pedidos dos seguidores da srie, o grande desfecho dessa histria que conquistou
mais de 400 mil leitores em todo o Pas.
  Prepare-se para as novas revelaes, revendo toda a trajetria de Ivy e Tristan
ao longo da srie, desde o dia em que se viram pela primeira vez at o seu
surpreendente final.
  Veja abaixo os 06 livros da Srie:


                          Beijada por um Anjo 1




  Beijada por um anjo  o primeiro volume da srie, escrita por Elizabeth
Chandler. Ivy sempre acreditou em anjos... Quando ela conhece Tristan,
descobre que ele  o amor da sua vida. Quando ele morre, seu corao est
quebrado e sua crena em anjos desaparece. E sem essa crena, ela  incapaz de
sentir a presena de Tristan, quando ele retorna  como um anjo.Agora, Ivy est
correndo um terrvel perigo, e Tristan est lutando para salv-la.
   Como ele conseguir proteg-la se ela perdeu a f em anjos? E se ele
conseguir salv-la, ele ter terminado sua misso aqui na terra e ter que partir
para sempre deixando-a para trs. Afinal, Salvar Ivy seria o mesmo que perd-la
justamente quando consegue reencontr-la?


                          Beijada por um Anjo 2




   Sei que o perdi... Tristan est morto. Jamais poder me abraar novamente. O
amor termina com a morte. Ivy Quatro semanas se passaram desde o acidente
em que Ivy Lyons perdeu Tristan, o grande amor de sua vida, e deixou de
acreditar nos anjos. Os dias tm sido difceis e para super-los Ivy busca foras
na famlia e nos amigos. Sua grande motivao agora  ensaiar para a
apresentao de piano no Festival de Artes de Stonehill, j que Suzanne, sua
amiga de infncia, pensando em anim-la, fez a inscrio, mesmo contra a sua
vontade.
  Ainda sem saber lidar com os seus poderes angelicais, Tristan Carruthers
conta com a ajuda de Lacey - um anjo mais experiente - para aprender a tocar nas
pessoas, canalizar energia e voltar ao passado. Assim, os dois partem na busca
por respostas para o acidente, por uma maneira de Ivy sentir Tristan e,
principalmente, de mostr-la que o acidente foi, na verdade, um assassinato.
Todo esforo de Ivy para superar a perda de Tristan  interrompido por
pesadelos que a fazem reviver o dia do acidente e se misturam com fatos do dia
do suicdio de Caroline, ex-mulher de Andrew, marido de sua me.
   O temor de Ivy  acalantado nos braos de Gregory, seu irmo adotivo.
Angustiado pelos contnuos pesadelos da amada, Tristan decide que  a hora de
fazer contato e segue seu objetivo com a ajuda de Lacey. Mas como aproximar-
se de Ivy se ela no mais acreditava em anjos e ele agora era um? O amor que os
une ser o canal para Tristan se aproximar de Ivy e alert-la sobre as pessoas que
esto ao seu redor. Ser que todos em que ela confia so realmente seus amigos?


                          Beijada por um Anjo 3




  Ivy est de volta s aulas e, como j era de se esperar, todos esto de olho na
garota que estava com Tristan Carruthers na noite em que ele morreu.
  Tentando voltar  sua vida normal, acontecimentos estranhos assustam Ivy.
Seus pesadelos so cada vez mais claros, e ela tenta se lembrar com detalhes de
tudo o que aconteceu na noite do acidente.
   O quebra-cabea vai sendo montado, mas para que ela descubra toda a verdade
e consiga se livrar do perigo constante que a rodeia, precisa da ajuda de Tristan.
Com o passar do tempo, ela volta a sentir a presena de seu amor e, ento,
juntos iro lutar para que Ivy sobreviva.
   Mas ainda h uma grande dvida no corao de ambos: se Tristan salvar Ivy,
isso significa que sua misso na Terra ter terminado?


                          Beijada por um Anjo 4




   Um ano se passou desde que Tristan, namorado de Ivy, morreu. Depois
disso, ambos seguiram em frente, Tristan para o outro lado da vida e Ivy para o
adorvel Will. Mas, ento, um acidente de carro pe fim  vida de Ivy.
  Em meio ao percurso para outra dimenso, Tristan a faz retornar  vida com
um beijo apaixonado.
  Ivy acorda no hospital, cercada por Will e sua famlia, mas tudo o que ela
consegue pensar  no amor que perdeu. E dessa vez ela no tem certeza de que o
amor poder salv-la.


                          Beijada por um Anjo 5
   Depois que Ivy descobre que Tristan est no corpo do assassino Luke, a vida
deles toma um outro rumo. Tristan se esconde da polcia e Ivy no sabe onde
localiz-lo. Para piorar as coisas, Beth est cada vez mais distante e estranha, e
s Ivy sabe o que realmente est acontecendo com ela.
   Ao descobrir o paradeiro de Tristan, Ivy no se contm e corre para ele, apesar
do risco de ver seu amor descoberto. Para conquistar sua liberdade, Tristan, com
a ajuda da namorada, tentar descobrir em que encrenca se meteu o garoto que
lhe empresta o corpo. E, na busca de evidncias, Tristan e Ivy percebem que
existem mistrios sobre os quais eles no tm controle e que podem lev-los por
um caminho sem volta. Alm disso, a interferncia de Tristan sobre o destino
de Ivy dever ser punida duramente. Pode ser que um deles no viva por muito
mais tempo


                          Beijada por um Anjo 6
  Em sua mente, Ivy tentava justificar a atitude de Tristan: quando lhe dera
aquele beijo que a trouxera de volta  vida, ele s estava equilibrando o bem e o
mal, afinal fora Gregory o responsvel por sua morte... Seu beijo de vida seria
como um acerto da ordem das coisas.
  Mas um acerto para qu? Um acerto para que ela ficasse viva, como se sua
vida fosse a coisa mais importante do mundo? Por mais que quisesse pensar que
Tristan fora vtima da maldade de Gregory, na realidade ela sabia que ele
sucumbira ao seu prprio desejo, ao desejo de t-la viva perto dele.
  Ele se deixara levar pela tentao arranjada por Gregory e, agora, estava
pagando com sua alma decada. No, no h justificativa: nossas escolhas so de
nossa responsabilidade; no importa se voc  mortal ou anjo.
  Neste ltimo livro da srie, Elizabeth Chandler vai surpreender o leitor com
um final incrivelmente corajoso e cheio de delicadeza. Um desfecho comovente e
sensvel para uma srie que tem encantado milhares de pessoas.

